Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A loja RTP

 

A RTP é uma entidade, uma verdadeira figura pública. Apreciada. Distinta!

A administração da RTP tem uma loja online com produtos à venda ao público. Os preços, isto é, os descontos são apelativos, os layout da página e grafismo completam o resto da atração. Há uma associação dos produtos a um determinado programa e canal do grupo de serviço público. Há uma empresa – encontra-se no infografismo do rodapé “termos e condições” – detentora e responsável pela propriedade intelectual dos produtos comercializados. Está tudo bem feito!

Mas a RTP pode ser assim?!

A resposta, nos termos da lei, nem sequer ousamos questionar. Um colosso é um colosso, não é verdade?

É mesmo aqui que está a raiz do problema, desta inquietação. Primeiro, porque um colosso é um indivíduo como qualquer outro, sujeito às mesmas regras e paridade; segundo, este colosso não é privado, é público, pago com dinheiro dos contribuintes; terceiro, que se depreendem dos dois primeiros, qualquer cidadão que tenha contrato com o Estado está em regime de exclusividade, tem de pedir autorização para desenvolver outra atividade, tem de ser exemplar para garantir a transparência e pessoa de bem, que deve ser o Estado.

Portanto, o que nos move não é o direito mas a ética.

Discordamos completamente deste género de atividade vinda, em primeira estância, de quem vem. Mas poderia vir de qualquer outra. O Registo da atividade comercial desta empresa, pensamos, não é a comercialização de produtos adjacentes – a maior parte, como se verificará, nem adjacentes são – ou, pior que isso, de forçada correlação entre a promoção e o produto em si mesmo. A título de exemplo, “Portugal no Coração” é a forma para promover “Gerês in Love - 1 Noite em Bungalow” - convenhamos, é um pouco forçado!

As deturpações dos fins a que uma determinada instituição concorre não podem ser aceites com magnanimidade.

Imagine-se o contrário, uma loja de produtos de ocasião a produzir conteúdos para o mercado do audiovisual, colheria?

Há Autoridade da Concorrência (AdC)? E Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC)?! Como estaremos em matéria de concorrência e concentração, por exemplo?!

O serviço público de televisão, para além do Orçamento de Estado – recursos diretos -, ainda cobra na fatura da luz, a contribuição audiovisual paga ao Estado, mesmo que tenha um serviço de televisão por assinatura, pois destina-se a financiar o serviço público de radiodifusão e televisão. Só quem gasta até 400 kWh de energia por ano é isento. Atualmente, a EDP cobra primeiro a taxa e, se verificar que, durante o ano, o cliente não ultrapassa os 400 kWh, o limite para a isenção, aplica-a no ano seguinte. Mas não devolve os valores cobrados indevidamente.

A concluir, este último elemento de suporte à amarga situação, adicione-se ainda mais este dado abusivo e suficientemente desagradável, típico de desrespeito pela natureza da coisa e função, um cidadão contrata um serviço (energia elétrica, nem que seja para uma simples motobomba a funcionar num terreno agrícola do lugar mais inóspito para a civilização) e tem de suportar uma taxa de audiovisual na fatura!

 

(in Correio do Vouga, 2013.12.18)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

46664


“4664” foi o número de prisioneiro de Nelson Mandela, desde o início da detenção, em 1964, até à libertação em 1990. Na Ilha Robben, Mandela foi o preso número 466, do ano de 1964, onde ficou durante 18 dos 27 anos que esteve detido. Entretanto "46664" surge como um ícone permanente dos sacrifícios que Mandela estava disposto a fazer pela justiça social e humanitária.
Nos dias que passam, enquanto o mundo presta homenagem a África do Sul celebra – por muito que possamos ficar surpreendidos na diferença, manifestar estranheza, porventura, trata-se de uma celebração contínua, típica dos países de África, da generalidade das tribos africanas – a África do Sul e toda a África celebra as diversas atitudes que o homem tem adotado frente à morte ao longo da história têm contribuído para formar um imaginário coletivo expresso através da elaboração de símbolos, atribuição de representatividade de alguns materiais ritualísticos e a incorporação de rituais macabros, no intuito de conduzir aquele que jaz de forma pacífica e livre de punições para além da morte. Assim, morrer não significa pura e simplesmente deixar o mundo dos vivos, e não se resume ao momento da passagem desta para outra esfera transcendental. Mais do que isso, é uma construção social que assume um papel de evento importante na própria existência do indivíduo, ainda que por vezes esse aspeto possa parecer contraditório, isto é, como o aprofundou com sentido antropologista Philippe Ariès, deve-se pensar na morte para bem viver.
A construção social continuará a exigir muito mais dos vivos.
Enquanto o mundo evoca Mandela, como refere Pulido Valente esta semana no Público (2013.12.08), convém lembrar que em 2013 a África do Sul continua dividida entre brancos ricos e pretos pobres, que sofre de uma criminalidade nos limites do intolerável e de uma epidemia de sida, que nenhum governo foi capaz de travar ou de atenuar. Com ou sem Mandela, não é um sítio recomendável.
Próximo de nós, há manifestações na rua contra a austeridade, o “Relatório Edite Estrela” coloca, na essência, a debate a dialética entre direito positivo e direito natural; a Ucrânia promove a “marcha de um milhão”; a Cáritas Portuguesa lançou, em Portugal, a campanha da confederação internacional "Uma só família, alimento para todos", que apela à erradicação da fome no mundo até 2025; o Papa Francisco afirma preocupado "Estamos perante o escândalo mundial de mil milhões, mil milhões de pessoas que ainda hoje têm fome. Não podemos virar as costas e fazer de conta que isto não existe. Os alimentos que o mundo tem à disposição podem saciar todos"!
Também é na vida que preparamos a morte, quando se completam 65 anos sobre a adoção – melhor seria a assinatura da assunção! – da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que delineia os direitos humanos básicos, proclamada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948!
Continuamos prisioneiros, seja ele qual for o nosso número!




terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Perigosas proximidades

 
É notícia da semana. E como temos prestado alguma atenção ao assunto, anualmente voltamos a ele. Portugal manteve, em 2013, o 33.º lugar no Índice de Perceção da Corrupção da organização Transparência Internacional, mas perdeu pontuação numa lista que este ano inclui mais um país do que em 2012.
Para elaborar o índice, empresários e analistas de diversos países são convidados a dar a sua opinião sobre o grau de corrupção em cada país. Assim, o índice não mede objetivamente a corrupção, mas sim como o conjunto da sociedade percebe subjetivamente a corrupção em cada país.
No "ranking" divulgado na terça feira, dia 3 de dezembro, Portugal apresenta uma classificação de 62 pontos (63 no ano passado), numa escala de zero a cem, que vai de muito corrupto (zero) a livre de corrupção (cem).
Na mesma posição de Portugal encontram-se Porto Rico e São Vicente e Granadinas (um pequeno país das Caraíbas localizado nas Pequenas Antilhas).
Mais de dois terços dos 177 países incluídos no "ranking" obtiveram uma pontuação inferior a 50, assinala a Transparência Internacional.
Numa análise aos países da União Europeia (UE), Portugal surge este ano em 14.º lugar (15.º, no ano passado), acima da Polónia, Espanha, Itália, Grécia e da maioria dos países de leste.
O conjunto dos países da UE e Europa Ocidental é liderada pela Dinamarca (91 pontos em 100 possíveis), seguindo-se a Finlândia e a Suécia (com 89 pontos), enquanto o último lugar é ocupado pela Grécia (40 pontos).
O índice revela ainda que 23 por cento dos 32 países da União Europeia e da Europa Ocidental, obtiveram pontuação abaixo de 50.
Entre os 177 países classificados, a Dinamarca e a Nova Zelândia ocupam o 1.º lugar, com 91 pontos, enquanto a Somália, o Afeganistão e a Coreia do Norte são os piores da lista com apenas oito pontos, em cem possíveis.
Dos 177 países incluídos na lista, dois não forneceram informação.
O Índice de Perceção da Corrupção é composto por índices de corrupção de entidades internacionais consideradas credíveis, como o Banco Mundial.
Numa primeira análise, com a nossa tradicional magnanimidade, poder-se-á dizer “não está mal”. No entanto, aprofundando a questão, considerando o impacto na vida interna do país, a dimensão do territorial, a credibilidade, os nossos índices de produção, a considerável supervisão externa, é preocupante.
Continuamos enraizados em lógicas de favorecimento, de proximidade, de “desenrascanço” que impedem a implementação de fatores determinantes para o desenvolvimento do país como são o mérito, a justiça, a igualdade, a equidade.
(in “Correio do Vouga”, 2013.12.04)













terça-feira, 26 de novembro de 2013

Pontapé pela escada acima

 
Quando alguma organização, minimamente distribuída, quer desenvencilhar-se de um colaborador, de um ativo, é corrente despedi-lo. Porém, também há casos em que o custo do despedimento pode ser muito elevado. É aí que surge a hipótese de resolver o assunto através da promoção, contrariando o princípio (da incompetência) de Peter – em síntese, um bom quadro inferior não quer dizer que o seja numa função superior. A isto chama-se o “pontapé pela escada acima”.
Este recurso de administração está em voga no nosso país. E, como se não bastasse ser algo de pernicioso, alastrou como virtude. Tudo em nome da austeridade, do “perde-pagas” no jogo dos movimentos financeiros internacionais.
Um caso ilustrativo está nas contas do Governo do país, espelho do nosso próprio governo – do governo das famílias portuguesas na generalidade, bem se vê. Há, no entanto, uma ligeira diferença que faz toda a diferença: enquanto as famílias portuguesas têm de ser criativas, organizadas, empreendedoras, rigorosas,… as contas do país são monótonas, de merceeiro, no sentido mais pejorativo do termo, abusivas, deprimentes.
Por tanto se promover pela “escada acima”, chegamos a este cenário de desassossego, de preocupação, desespero. Só pode ser por isto, pela promoção escada acima! Não se vislumbra outra razão. Há pouca consistência. Qualquer cidadão que fale mais alto, mesmo não tendo bases para sustentar uma posição consequente, substancialmente estruturada, corre o risco de chegar longe na carreira (seja ela qual for); é um perigo! Mas nem sempre se quer ver…
Para concluir, esperamos que a manifestação das forças de segurança, a semana passada, não tenha sido provocada por esta visão peregrina de “ir pela escada acima”. Se assim for, estão à porta de atingir o patamar mais alto da administração. Depois do Parlamento o que resta? Acima mesmo… pensamos que Belém, não é?
Com este Orçamento, até Belém pode não chegar ao Natal, aqueles muritos do Jardim Colonial sobem-se num instante!
 
(in Correio do Vouga, 2013.11.27)








terça-feira, 19 de novembro de 2013

Conhecer as pessoas

 
Nos domínios das ciências sociais e humanas, isto é, do estudo sobre os aspetos sociais do agir humano, na vida social de indivíduos e grupos humanos o mais importante é que nunca está terminado o processo de estudo. Ter-se-á de aceitar que em nenhum estudo o conhecimento encerra na exploração de uma tese. Porém, o objeto de estudo sobre a pluralidade da ação humana está em constante mutação, interação, comunicação. Sujeito e objeto, aprendido e aprendente, substantivo e predicado têm interesses diretos sobre si mesmos. Somos assim: complexos e interessantes!
Estes dias têm servido para aprofundar este complexo mundo da nossa coexistência. Entre todos os aforismos trazemos dois mediados no tempo em mais de vinte séculos: “ Conhece-te a ti mesmo” (Sócrates, 469-399 a.C. ) e “o homem é ele e as suas circunstâncias” (José Ortega y Gasset ,1883-1955). Com isto, queremos refletir sobre a realidade relativa em que raramente somos o que pensamos ser! E, acresce, para se conhecer alguma coisa teremos de começar cada um por si próprio; depois no que o rodeia, sem necessariamente ser esta a ordem dos fatores. E, se cada um é um mundo complexo, mais complexo fica com o mundo existente à sua volta.
Extraordinário “nós” esta pessoa que cada um é!
Por fim, para encerrar este “breve “, como organizar as circunstâncias para que as pessoas sobrevivam entre si?
A pergunta tem tantas possibilidades de resposta quanto o número de pessoas que se predispõem a fazê-lo. E apesar de ser ideia de conclusão, é ponto de partida perante o que convivemos todos os dias. A liberdade de pensamento, expressão e ação fomentam novos meios, novos processos, o que faz das pessoas, enquanto conjunto orgânico, uma realidade em permanente mudança. Portanto, conhecer as pessoas será uma apropriação interesseira?
Será que conhecer é condicionar?! – visitando William Hamilton e a doutrina lógica da quantificação dos predicados.
Mobilizar para um projeto não deverá ser, por isso, uma forma de acomodar, de condicionar, de reduzir as potencialidades de cada um para o proveito de todos. Um projeto comum será sempre uma nova abertura, nunca o encerrar de nada. Construir em comum é uma constatação de dupla interpretação: conheço, apreendo; motivo, incondiciono.
(in Correio do Vouga, 2013.11.20)







quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os buracos

 
Todos os dias somos confrontados com esta realidade: buracos!
Num país de brandos costumes – não vemos grande dificuldade na matéria, desde que brando seja sinónimo de responsabilidade e compromisso social! – um país de brandos costumes e pobre, pobre financeiramente mas também pobre na gestão dos direitos e deveres, na participação das ocorrências, facilmente é encontrado o movimento desculpabilizante. Isto é, aceita-se com relativa bonomia e docilidade que tudo esteja estragado, inoperacional, atrasado,…esburacado!
“Que culpa tenho eu?!”
“Que culpa teve o pobre coitado?!’”
“Que culpa temos nós?!”
É recorrente esta retórica de admiração-interrogativa. Começa logo á saída de casa com o elevado avariado por falta de pagamento da manutenção ou de uma das parcelas dos condóminos; na passagem impedida por qualquer obstáculo pouco cívico; pela estrada esventrada;… nos buracos!
A aceitação dos buracos é incomodativo mesmo quando os portugueses, como é noticiado pelo jornal “Público”, não estão satisfeitos com a vida que levam. Esta é uma das conclusões do Índice da Melhor Vida relativo a 2013, divulgado na terça-feira, 5 de novembro, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Entre os 36 países avaliados, Portugal é o segundo pior no que diz respeito à satisfação dos habitantes. Para avaliar a qualidade de vida dos países, a OCDE tem em conta indicadores que considera indispensáveis ao bem-estar: habitação, salário, emprego, comunidade, educação, ambiente, envolvimento cívico, saúde, satisfação, segurança e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. No índice em geral, Portugal está no 23.º lugar e apresenta alguns indicadores particularmente negativos. É, por exemplo, o quinto país com a pior classificação na educação, cuja análise é feita a partir do número de anos passados na escola, das habilitações literárias da população ou das capacidades demonstradas nos testes PISA, feitos pela OCDE.
Há também o caso do político que, em campanha, promete mudar o mundo mais ou menos no mesmo tempo em que Phileas Fogg, de Júlio Verne, deu a volta ao mundo (oitenta dias). Depois de se sentar na “cadeira do poder” – é automático, conhecimento instantâneo, inspiração fulminante – afinal, há um buraco (nas contas) que vai atrasar essa mudança! Maldito buraco. Mais uma vez impede o desenvolvimento. Resta-nos esperar contemplativamente que isso mude!
O Orçamento de Estado para 2014 é aprovado na generalidade. Nos dias imediatamente seguintes, a Comissão Europeia encontra uma falha equivalente a 820 milhões de euros na execução orçamental deste ano, noticia a rádio TSF, citando as previsões de Outono divulgadas por Bruxelas. Uma 'falha' que obrigará Portugal a aplicar medidas adicionais. Maldito buraco.
Será acaso, como referimos, sermos o quinto país com a pior classificação na educação, cuja análise é feita a partir do número de anos passados na escola, das habilitações literárias da população ou das capacidades demonstradas nos testes PISA, feitos pela OCDE!?
 
(in Correio do Vouga, 2013.11.06)











quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Reis na República


Recorremos a um título antagónico mas sugestivo dada a intenção objetiva: trazer à colação o debate acerca da educação das crianças; das crianças de tenra idade! Estas – aqueles pequenitates - são a geração tecnológica, a “geração-indivíduo”, a geração “Rei” do espaço, do tempo, da condução das circunstâncias, das estâncias e das instâncias!
O Debate Nacional sobre a Educação suscitou a abordagem - entre outras matérias relevantes para a educação que, aparentemente, “ganham bolor” no fundo das gavetas. Destacamos o Estudo “A Educação das Crianças dos 0 aos 12 Anos” para o Conselho Nacional da Educação, coordenado pela Profª Isabel Alarcão.
Há muito que seguimos com particular interesse o debate. Preocupa-nos a passagem à ação, isto é, a inação!
Entretanto, o mundo avança – já avançou! O que há seis anos seria o início do debate hoje é uma realidade incontornável. Nas escolas estão crianças donos do mundo. São monarcas, oligarcas, ditadores. São autónomos na sua “razão” – ainda bem! Porém, o que podemos fazer para vivermos juntos?
Naquele tempo, apontavam-se “reflexos de uma série de factores sociais como o desemprego, os baixos níveis de escolarização dos pais, a maior taxa de mulheres trabalhadoras a tempo inteiro na Europa, factores que, aliados à crescente multiculturalidade, às transmutações da família tradicional com muitas situações de famílias mono-parentais e de crianças sem pais, tornam os contextos educativos muito vulneráveis. Mudanças de comportamentos com tendência para o sedentarismo e a passividade perante a televisão ou o fascínio do entretenimento com jogos informáticos levaram à reorganização dos espaços, dos tempos e das vivências da infância e a um novo relacionamento com o mundo, provocando um modo diferente de apreender e conviver com o real. Vivências em culturas multireferenciais, disparidade de informações e diversidade de solicitações transformaram a criança num consumidor precoce, alvo de processos de marketing desenfreado”. (Alarcão, 2008. 22-23).
No que conhecemos, junto das crianças que entram na idade da razão, não lugar para mais ninguém nem para mais nada. Apenas elas. A ditadura é uma coisa séria!
(in Correio do Vouga, 2013.10.30)





terça-feira, 15 de outubro de 2013

Uma vida que se lê


D. António Marcelino é um itinerário de leitura permanente.
Depois de uma vida intensa e atenta, partiu. Confia-nos um vasto património espiritual, intelectual, pastoral, social,… esteve onde foi preciso e foi além de sim mesmo para quebrar inércias, marasmo, lentidão.
Ficam as primeiras fontes de evidência de uma vida enorme nas páginas do Correio do Vouga, nas edições de “Pedaços de vida que geram vida”, na copilação “A vida também se lê”.
“Há acontecimentos e situações que vivemos, mas não nos pertencem só a nós. Há vidas destinadas a ser berço de acolhimento de graças para as repartir pelos outros.
Para este livro, escolhi vivências provocadas por gente que passou pela minha vida ou dela fez parte. Por vezes, gente simples e anónima, aquela que julgamos que nada tem para nos dar ou ensinar… Gente experiente de Deus com a qual me foi dado cruzar, nos caminhos da missão, e já neste longo tempo do meu peregrinar» destaca o Sr D. António Marcelino nesta nota-síntese para Pedaços de vida que geram vida.
Valorizava tudo o que era seguir em frente; destacava, enfatizava, discutia, dava melhor sugestão, envolvia-se e envolvia. Ao ponto de, pela força de convocar todos para ir mais longe, assumir “não morro nem que me matem”!
O respeito pelo Ministério e pelo Múnus impõem decoro, reverência nas referências connosco. Porém, não fossem esses imperativos, dir-se-ia que D. António Marcelino era uma pedrada no charco (evocando o título do registo com que denunciava as injustiças encontradas), uma força da natureza! Profundo em tudo, até nas coisas simples.
Ler a vida de D. António Marcelino, na profundidade de uma vida doada aos outros, à Igreja, é encontrar sementes do Verbo disseminadas por ele em nós, é reler o nº 33 da Lumen Fidei: no diálogo entre a fé e a razão, em D. António Marcelino, também Bispo para nós, como Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a busca da razão, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da fé, do qual recebeu uma nova compreensão. Acolhe a filosofia grega da luz com a sua insistência na visão: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz, que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um símbolo de Deus. Desta maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcendência divina e descobriu que todas as coisas possuem em si uma transparência, isto é, que podiam refletir a bondade de Deus, o Bem.




terça-feira, 8 de outubro de 2013

O fim deste Estado

 

As contas públicas, as políticas do Governo para as tratar e, a montante desse exercício contabilístico, a espiral de pobreza em que são colocados os portugueses... é aterrador. Um apelo à insurreição. Tudo isto aponta para um cenário “tuberculoso” , que nem o Príncipe de Maquiavel seria capaz de ousar: “todo o Príncipe inteligente deve fazer: não somente vigiar e ter cuidado com as desordens presentes, como também com as futuras, evitando-as com toda a cautela porque, previstas a tempo, facilmente lhes pode opor corretivo; mas, esperando que se avizinhem, o remédio não chega a tempo, e o mal já então se tornou incurável. Ocorre aqui como no caso do tuberculoso, segundo os médicos: no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade não foi conhecida nem tratada, torna-se fácil o diagnóstico e difícil a cura”.

É inacreditável!

Não há uma medida propalada, para o Orçamento do Estado, que seja equitativamente transversal. Só se verifica o linear, o corte horizontal, entre os que têm pouco ou nada. Agora, mais cortes nos serviços que garantem alguma qualidade de vida (educação e saúde), cortes nos salários e pensões; elaboração do plano tíbio de incapacitar, pela diminuição da possibilidade do acesso, os serviços passam a ser menos utilizados; como não são utilizados, pode-se fechar!

Quebrou-se o princípio basilar das organizações: a confiança.

A confiança formal, aquela que precisa ser vinculada contratualmente, é imprescindível. Mas com recurso a instrumentos vinculativos não deixa de ser um ato de apreciável valor o respeito recíproco pelos termos que se firmaram. Com as medidas aplicadas, esta dimensão deixou de fazer qualquer sentido. Se o Estado não cumpre os contratos, altera-os, rompe-os como é que as pessoas podem manter a coesão social?!

A confiança informal, a gerada no caráter dos interlocutores, também já não existe…

E a confiança como elã para o futuro, geradora de esperança?! Está devastada. Este país é mesmo para velhos, apreciados Ethan Coen e Joel Coen!

Nada! Quem lança o olhar em frente tem de focar muito para ver algo de bom no horizonte. Um horizonte perdido, com uma única ideia: estes pobres são muito ricos! Portanto, forte com os fracos!

 

(in Correio do Vouga, 2013.10.09)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Areópagos da vida comum

 

Terminada uma etapa determinante da vida coletiva, as eleições autárquicas, os resultados sugerem-nos três eixos de ilação.

O debate.

Há uma tentativa de manietar o poder político e os seus representantes. E também há um interesse dos representantes, a troco de notoriedade, de enveredarem por trajetos demagógicos, ilusórios, descredibilizantes do caráter e dos projetos. A procura da mensagem subliminar provoca a deturpação do essencial e a mensagem deixou de ser a arte do conteúdo. “O meio é a mensagem”! Triunfaram os meios, não só meio - Marshall McLuhan, na sua obra Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem, preocupou-se em mostrar que o meio é um elemento importante da comunicação e não somente um canal de passagem ou um veículo de transmissão.

Os meios, bons ou maus, escondem o conteúdo, declinam-no para segundo plano; relevam-se areópagos e areopagitas dotados de uma retórica tendenciosa porque faz juízo próprio sobre matérias sem direito ao contraditório, o que confunde, distorce, provoca insídias.

"Areópago" é a adaptação de areopagus (ou Areios Pagos, de "Ἄρειος πάγος"), que significa algo como "Colina de Ares", em referência ao deus da guerra grego. Tal referência deve-se ao fato de os membros do Areópago, por serem aristocratas, cumprirem em geral a função de guerreiros de elite em tempos bélicos, responsáveis pela proteção da cidade. Normalmente funcionavam como Tribunal supremo de Atenas, composto de 31 membros, antigos arcontes, e encarregado do julgamento das questões criminais mais graves. Alcançou reputação de equidade e sabedoria e, por isso, areópago passou a significar, figuradamente, assembleia ou corte de justiça augusta, imparcial e soberana.

A distância.

As pessoas estão, muito pela consequência dos efeitos dos meios que são mensagem, longe de tudo. Particularmente longe dos que se candidatam honestamente à representação das próprias no governo da “cidade”! Não há interesse sobre os programas de governo, sobre os protagonistas. Aos candidatos, a todos os candidatos e parte dos candidatos entre si, mormente os que menos ideias têm sobre o fundamental, colou-se o rótulo de sinuoso, ardiloso, etc. – com conotações não transmissíveis em espaço público. “São todos iguais” – não haveria nenhum problema se isto não quisesse dizer o pior do ser humano.

A fase do imaterial.

A vida das pessoas vai entrar no momento de viver mais com menos. A fase das engenharias, das construções, terminou. Terminou por não haver fundos e por não haver fundos para mais. Agora o essencial está no “pão de cada dia”, na edificação da pessoa como cidadão comprometido e responsável pelo seu futuro. Os próximos tempos são os da maturidade social: mais conhecimento, mais cultura, melhor investimento, seriedade, responsabilização.

O futuro só é possível sem demagogia e interesses primários!

 

(in Correio do Vouga, 2013.10.02)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Os homens não se medem aos palmos

 

Timothy Hatton, professor na Universidade de Essex, no Reino Unido, liderou um estudo, publicado pelo jornal Oxford Economic Papers, onde demonstra que os aumentos na estatura humana são um indicador chave das melhorias nas condições de saúde das populações.

O estudo mostra que a altura média dos homens europeus subiu de 167 cm para 178 cm em pouco mais de um século, o que sugere que um ambiente de melhor saúde e menos doenças é o fator mais importante que origina um aumento na altura.

A média de alturas dos homens europeus subiu 11 centímetros entre 1870 e 1980, graças a melhorias nas condições de saúde no continente. No caso dos portugueses, dos quais só há dados a partir de 1911, a subida foi de cerca de 8 cm. Os homens portugueses mediam em média 164 cm em 1911 e 172 cm em 1980.

O estudo analisa dados de 15 países europeus sobre a altura média de um homem aos 21 anos. Os primeiros dados são da década de 70 do século XVIII. Só foram analisados dados dos homens porque informações históricas sobre as mulheres são mais difíceis de encontrar.

Contudo, apesar da relevância sobre as causas deste crescimento, o provérbio português, sobejamente citado, é conhecido pela força intencional que quer transmitir sobre a real dimensão do ser humano. A dignidade dos comportamentos é superior a todas as outras formas de medida.

E quando o mundo, por consciência moral, evoca, ou deveria evocar, os 50 anos do discurso histórico “Eu tenho um sonho”, que Martin Luther King Jr. proferiu durante a Marcha pelo Emprego e Liberdade, em Washington, a 28 de agosto de 1963, recordamos que "a verdadeira medida de um Homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio" (MLK).

Temos urgência em crescer em dignidade (emprego, serviços, educação, visão plural do mundo), temos urgência em manter as razões (saúde, nutrição, condições de vida) que levam os homem e as mulheres do nosso país a ter um crescimento sustentável!

É urgente mudar! Mudar sobretudo na capacitação para cada um e cada uma poder alterar o unanimismo trágico que se abate sobre nós: resignação! Foi assim ao longo da história, estamos a vivê-lo novamente. Basta!

Assistimos, mesmo que indignados mas permanecemos a assistir, à destruição de tudo o que pode ajudar o país, cada pessoa, a ter esperança… e nada fazemos?!

É evidente que, com os aumentos dos preços de contexto do trabalho, sobretudo da energia, que inclui os transportes, interessa aos países ricos ter mão-de-obra barata mais perto do que a Ásia. É nisso que o neoliberalismo transformará o sul da Europa, onde a luminosidade, o clima temperado e quente, a falta de recursos naturais e dimensão territorial aliados à escravatura provocada com aliciantes financeiros em empréstimos bancários, criaram a ilusão de ser grande (rico, porventura). Agora, dependentes desses países, vem cobrar com juros elevadíssimos, os míseros euros que nos emprestaram. E não fazemos nada? Pagamos sem discutir o preço? Aceitamos o desemprego? Deixamos que se venda tudo, que sejam fechados hospitais, correios, escolas, empresas,… somente porque estamos a viver acima das nossas possibilidades?! Quem é que vive assim com 500€ ou pensões de 250€?!

Recuperando Protágoras, a dignidade humana é a medida de todas as coisas!

(in Correio do Vouga, 2013.09.04)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Quintas e leiras

 

Voltámos, depois da interrupção para férias do “Correio do Vouga”.

Neste regresso, como em todos os bons regressos, há um novo fulgor, a vontade renovada em fazer melhor. Olhamos para o mundo com esperança. Afinal, esse será o primordial objetivo das férias, do descanso.

É mesmo inevitável olhar para o mundo com esperança; o tempo é de desespero, de acusação, de sofrimento. Um país pobre que vê os seus bens a arder não pode ficar insensível ou na insensatez de ser discreto na hora da solidariedade. Cada um a seu modo, limitado porventura na amplitude dos meios que tem ao seu alcance para ser diretamente ativo, cada um e cada uma tem de procurar ser tudo para o bem comum!

Um outro aspeto a considerar nas férias, é o tempo propício para boas leituras: um livro, uma pintura, uma paisagem, uma obra de arte, um percurso, um momento, as notícias,… tantas leituras possíveis para ajudar a interpretar o nosso papel na história!

Sublinhamos ainda outro aspeto, que nunca é suficiente tudo quanto se possa dizer sobre ele, o desenvolvimento de Portugal.

Ao percorrer alguns trajetos interiores encontramos aldeias sem ninguém – uma constatação! É verdade que é verão mas pelo abandono de tudo há muitos verões que deixou se ser verão.

O que pode fazer um país que aponta novamente as suas sinergias para a agricultura, para voltar aos campos, à floresta, ao mar?!

A administração do território é feita em “quintas” – com aspas para vincar o sentido pejorativo da expressão. Cada estrutura da administração centra-se nos seus interesses particulares e nos dos seus sequazes. O bem comum é menosprezado.

A par com isto, vemos à volta e só encontramos pequenas “leiras” – pequenas extensões de terreno de tal maneira exorbitadas na sua importância que os proprietários julgam possuir ali uma fortuna. Mas sejamos justos. Estas leiras, para além de representarem sempre muito trabalho para as possuir, são o único bem que pode garantir um parco sustento.

Como voltar para a agricultura fora do Alentejo e do Ribatejo?!

Só com grande solidariedade entre todos os proprietários, dando escala ao pouco de cada um, só com menos exploração por parte do Estado (impostos, burocracia, planos diretores municipais pouco esclarecedores,…) é que se pode pensar em produzir para além da economia de subsistência ou extensão do conceito de horta urbana para o campo agrícola.

Como olhar para a floresta quando todos os anos, infelizmente à custa do sangue e suor de muitos bombeiros, é posto a nu a insipiente capacidade de gestão da mesma?

É preciso ver o país como um todo, nas suas realidades concretas. Aí ganha espaço o papel dos autarcas, dos que podem e devem ajudar localmente a governar o que é de todos.

É tempo de novas mentalidades, novos recursos com menos dinheiro. Para desenvolvermos os recursos que temos não os podemos entregar à especulação e sofreguidão da pasta de papel e da indústria do fogo… e ficar adiados entre “quintas” e “leiras”!

sexta-feira, 19 de julho de 2013

À Beira Mar

 

O tempo está propício para banhos!

Verão, férias, descontração (apesar de toda a contração!), … o país, que pode, vai a banhos. Quem não pode chegar à beira do mar, fica pelos recantos mais próximos, pelos lugares aprazíveis que o tempo e a natureza, a criatividade local, os apoios comunitários, a ousadia dos atores foram dando escala, beleza, acesso, sustentabilidade.

Este apontamento centra-se na reflexão sobre os esforços continuamente feitos para que seja possível usar e fruir destes pequenos, e outros maiores, investimentos na vida.

Há diversas oportunidades exploradas e a explorar; umas e outras podem ser equipamentos que trazem conforto, bem-estar social - a corrente de pensamento e modelo socio-político iniciada no tempo da grande depressão, dos anos 30 do século XX, e desenvolvido no pós guerra, “welfare” e “welfare state”.

Com a generalização do conceito de cidadania, com o fim dos governos totalitários da Europa Ocidental (nazismo, fascismo etc.) com a hegemonia dos governos sociais-democratas e, secundariamente, das correntes eurocomunistas, com base na conceção de que existem direitos sociais indissociáveis à existência de qualquer cidadão, o princípio que todo o indivíduo tem o direito, desde seu nascimento até sua morte, a um conjunto de bens e serviços que deveriam ter o seu fornecimento garantido direta, através do Estado, ou indiretamente, mediante o seu poder de regulamentação sobre a sociedade civil, passou a ser algo que se pensava adquirido para sempre. Esses direitos incluiriam a educação em todos os níveis, a assistência médica gratuita, o auxílio ao desempregado, a garantia de subsídio mínimo de subsistência, recursos adicionais para a criação dos filhos, etc.

A realidade atual vem consumar o que vinha sendo discutido desde meados da última década do século passado: tudo a maré levou! Uma maré que se carateriza pelo poder da especulação do dinheiro em detrimento das pessoas.

Empobrecer, perder a dignidade pessoal e social, deixar de existir com direito a serviços suportados por quem mais pode e por parte do valor do trabalho, dos lucros e transações são cenários que não se devem admitir, nem com hipótese.

E neste tempo de esforço hercúleo não podemos deixar de associar, por força intencional na analogia semântica, todos os que também lutam por outro Beira Mar – emblema, ícone, bandeira, estrutura de formação desportiva e valores socias.

Empobrecer, perder a dignidade pessoal e social, deixar de existir… nunca! É preciso lançar o olhar para o clube e para quem luta por ele. Estas instituições fazem-nos comunidade, representação, coletivo.

A maré o trouxe, a maré… o pode levar!

 

(in Correio do Vouga, 2013.07.17)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Revogável (a insensatez e o alarido inócuo) e reprovável

 
O maior lapso da semana esteve no prefixo!
A vida dos portugueses, na última semana, sofreu contornos irrevogáveis! Isto é, com um modelo de exercício de funções públicas, ao mais alto nível na responsabilidade mas de rarefeito elevo na ação, pouco recomendável em qualquer circunstância, até no tratamento das coisas numa “loja de ocasião” (tratar na praça pública os entendimentos e desentendimentos internos), conduziu um povo para o precipício.
E agora, quem paga o equívoco (amuo, brincadeira, folia, jogo, galhofa,…)?
Há funções na vida para as quais não há lugar para o dislate, para o erro, nem para a hesitação. Reveja-se (na televisão) a reportagem desta semana sobre os cuidados dos trabalhadores da manutenção da Ponte 25 de Abril; por exemplo também, a circunstância de ser cirurgião,  anestesista,... médico na sala de operações; o bombeiro na frente de incêndio;… terão hipótese de experimentações superficiais?!
Vemos a bandeira nacional a arder pelos países da América Latina, por causa do ainda por explicar caso “Evo Morales”, Presidente da Bolívia; vemos o país também a arder; e vemos o governo impávido e sereno, fechado em si mesmo; vemos um discurso de quem não se ouve nos corredores do Palácio de Belém,… tudo isto é altamente revogável!
Mas seria nestes momentos que se tornaria importante ser irrevogável: garantir o sucesso dos encargos assumidos; dar oportunidade às pessoas de vencer as limitações; enfrentar os interesses dos mais poderosos para que pudesse ser atendida a igualdade na dignidade; ganhar credibilidade! Viver e fazer viver no essencial: qualidade de vida, felicidade das pessoas e sustentabilidade de meios e nos recursos.
Porém, isto até soa a discurso panegírico!?
Perante tanta convicção, o melhor é adicionar alguma contingência; flexibilizar as hipóteses; não vá dar-se o caso de existir necessidade de mudar de opinião e depois surge uma colossal descredibilização.
Em suma, isto não se faz!
A tensão alastra e, entre os senhores do mundo, aqueles a quem poderíamos chamar “Estadistas” que, na verdade não o são, nenhuma voz silenciosa mas politicamente eficaz se faz ouvir.
São necessárias mais vozes de silêncio! O mundo precisa de quem se entenda com um olhar, com um gesto simbólico. É urgente o discurso simbólico!
(in Correio do Vouga, 2013.07.09)











terça-feira, 2 de julho de 2013

Swap (trocar) de ministros

 

Estamos perplexos pela inculturação portuguesa deste inglesismo! Três meses foi o tempo necessário para conhecer, adotar, aplicar nas mais altas instâncias da nação: o Primeiro Ministro “swapou” o Ministro das Finanças!

É caso para dizer que o desgaste de tudo e dos contratos “swap” consumiu o governo, provocou a erosão.

Foi um preço demasiado elevado para todos nós! E, muito provavelmente, ainda não está tudo descoberto.

Progredindo em espanto tomámos conhecimento da dimensão desta tática do jogo do dinheiro – mais uma estratégia que se revelou perniciosa!

Posteriormente foram surgindo novas “swaps” (trocas) de acusações – afinal quem fala verdade sobre o assunto?!

E, em plena crise de “swap”, até o Ministério das Finanças vai com “a água do banho”! Triste cenário este!

O Económico online publicou um pequeno artigo elucidativo. Partilhamo-lo.

“Parece um conceito complicado, mas na verdade é muito mais simples do que pensa. Saiba o que é um contrato de 'swap'.

É talvez uma das expressões mais usada por estes dias e que envolve milhões. Muitos milhões de euros.

Mas afinal o que são estes instrumentos complicados chamados 'swap'?. Na verdade são simples.

Imagine que pediu um empréstimo ao banco para comprar uma casa. Ou seja, contraiu um crédito à habitação. Esse empréstimo, na maior parte das vezes, é acordado tendo por base uma taxa de juro variável. E que sobe ou desce consoante a variação da Euribor.

Agora imagine que acredita que os juros vão subir muito nos próximos anos. O melhor, seria fixar essa taxa, travar essa subida. É exatamente isso que um contracto de 'swap' permitiria que fosse usado num crédito à habitação.

Como a própria palavra indica, 'swap' é uma troca. Neste caso uma taxa de juro variável por uma fixa.

O pior é se ao contrário do que pensava as taxas de juro em vez de subirem, descerem. Então nesse caso fica a pagar o valor fixo.

Imagine 5%, quando no mercado o preço do dinheiro já só custa 2%. Foi exatamente isso que aconteceu no caso de algumas empresas públicas. Acordaram contratos numa altura em que as taxas de juro estavam a subir, pensando que iriam subir ainda mais e tentaram trancar essa valorização.

Mas a realidade nem sempre é o que nós pensamos que vai ser. E neste caso não foi. As taxas de juro desceram e agora as perdas potenciais podem chegar aos 3 mil milhões de euros.

No fundo é como no casino. Apostamos no vermelho mas às vezes sai o preto. Há sempre alguém que ganha.”

Com tudo isto, mais uma despesa social (também na credibilidade!) para liquidar…

(in Correio do Vouga, 2013.07.03)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Coimbra é uma canção

 

Quem passou por lá, sabe que é verdade!

Também será verdade que todos os locais de “verdes anos”, de emancipação, rebeldia, iniciação à vida autónoma, de responsabilização pelos atos praticados e pela ausência a atos que deveriam ser praticados,… todos esses locais e tempos são uma doce canção, um canto à idade da juventude!

Coimbra sempre foi diferente, agora é mais igual ao seu valor e importância.

Em cada ano que passa esse património material e imaterial, colhido sob os percursos feitos durante o curso, ganha maior expressividade, dá razão à saudade e saudade à razão, ao conhecimento, ao momento, ao tempo, ao acordar de cada manhã de esperança.

A UNESCO reconhece-a naquilo que já o era há séculos: Património da Humanidade! Isto mesmo é sublinhado pelo Magnífico Reitor João Gabriel Silva na nota informativa sobre o momento "mais do que o reconhecimento do valor arquitetónico do complexo universitário de Coimbra, esta decisão da UNESCO sublinha o valor universal da cultura e da língua portuguesas e reconhece o papel central que Portugal teve na formação do Mundo, tal como hoje o conhecemos".

Neste reconhecimento estão todos os mundos, sem dúvida. Concordamos.

Agora, segundo as diretivas da UNESCO, importar dar expressão maior ao que acaba de começar. Coimbra fica a representar uma obra-prima do gênio criativo humano; a mostrar um intercâmbio importante de valores humanos, durante um determinado tempo ou em uma área cultural do mundo, no desenvolvimento da arquitetura ou tecnologia, das artes monumentais, do planeamento urbano ou do desenho de paisagem; um testemunho único ou excecional, de uma tradição cultural ou de uma civilização que está viva; a ser um exemplo de um tipo conjunto arquitetónico, tecnológico, de paisagem, que ilustra significativos estágios da história humana; será reconhecida também como um exemplo destacado de um estabelecimento humano tradicional representativo de uma cultura (ou várias), especialmente quando se torna(am) vulnerável(veis) sob o impacto de uma mudança irreversível; estará diretamente ou tangivelmente associado a eventos ou tradições vivas, com ideias ou crenças, com trabalhos artísticos e literários de destacada importância universal.

O património de Coimbra valoriza-nos a todos. É conhecimento – já o era! – e destino de muitos itinerários. Sê-lo-á ainda mais: uma nova ancoragem para a Região. Haja capacidade decisória para o potenciar!

( in “Correio do Vouga”,  2013.06.26)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Justo, legal, inoportuno, irónico. Artigo 57: nova redação

 

“A partir de hoje fica decretado: todas as greves são legais desde que justas!” – o Príncipe!

A Lei fundamental terá oportunidade de ser melhorada, de se aproximar da perfeição. Basta, para isso, acrescentar algumas explicitações.

1. É garantido o direito à greve.

Desde que não perturbe nada nem ninguém; preferencialmente serão nas férias e/ou tempo de descanso – a rever - de cada trabalhador; concretizada com escalas de serviço, com direito a descontar, se necessário for, o dobro do dia de salário e o próprio subsídio de férias (caso haja) para robustez do orçamento! Este direito, agora aceite, não pode colidir com nenhuma disposição superior; onde tal não se verifique, não há problema, resolve-se arbitrariamente para que não haja choque de interesses. A greve, afinal, é um privilégio concedido; nesta condições nunca será a última fronteira do diálogo, antes da desobediência civil.

2. Compete aos trabalhadores definir o âmbito de interesses a defender através da greve, não podendo a lei limitar esse âmbito.

Pode, porém, tudo isto ser alterado pelos governos de qualquer organização ou entidade, sempre que lhes convenha e sem qualquer esclarecimento ou concertação para quem ninguém saia prejudicado.

3. A lei define as condições de prestação, durante a greve, de serviços necessários à segurança e manutenção de equipamentos e instalações, bem como de serviços mínimos indispensáveis para ocorrer à satisfação de necessidades sociais impreteríveis.

Quando tal convier, leia-se: todos os grevistas deverão estar no local de trabalho e cumprir o seu horário ou mais sem pestanejar.

4. É proibido o lock-out.

Mas, em compensação, é autorizado o blackout, o silenciamento, a distorção da informação para não perturbar nem a ordem nem a opinião públicas. E serão, ainda,  representantes das classes trabalhadoras, preferencialmente, as opiniões concordantes.

Aproxima-se uma nova aurora, radiante, que nos libertará!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Aliados naturais

 

O período que estamos a viver, acerca dos malefícios cometidos contra a “res” (“coisa”) pública, é algo impudente. Não há critérios sustentados nem sustentáveis, não há princípios minimamente ancorados no debate, na discussão de ideias para ganhar escala participativa, tudo é altamente mutável; participamos, por inação, na destruição de tudo o que faz ser um Estado: conjunto de instituições e serviços de harmonização e equidade social que regulam e apoiam o exercício da soberania e a consolidação de um território.

O que se vê no exercício da soberania? As funções do Estado estão a ser perigosamente conotadas, pelo poder Executivo e, indiretamente, pela base de apoio Parlamentar do mesmo, como veículos coercivos de expolição dos cidadãos: coimas, multas, autos, taxas moderadoras, emolumentos,… desacreditam-se as instituições, desativam-se os serviços, descredibiliza-se o serviço público, mata-se o Estado. Assiste-se à implosão.

Por que razão não atende o Ministério da Educação e Ciência às mais elementares recomendações do Conselho Nacional da Educação, OCDE, UNESCO,… em matéria didático-pedagógica? Isto é, o desenvolvimento económico esta intrinsecamente ligado aos índices de literacia, escolaridade e conhecimento.

Conseguiu-se essa coisa notável, vilmente notável, de descredibilizar as pessoas que tanto fazem para que o Estado cumpra os seus pilares essenciais: educação universal e plural, cultura e ciência. 

Até a greve parece ser algo que se deseja como maldito, proibido.

A greve é nas suas causas em consequências um apelo à consciência coletiva. No caso dos professores, nada que seja da sua responsabilidade ficará por cumprir, com grave prejuízo (tempo, vencimento, acumulação de serviço, serenidade, realização, família) para si próprios, sobretudo do tempo do silêncio – aquele em que no recato de sua casa permite criar, sonhar, planear, fazer auto crítica e auto motivação. Portanto, se fazem greve é porque têm consciência da  mensagem que é preciso anunciar: o futuro está comprometido. Para além do acessório, no serviço docente é feito sem planificação e objetivo pedagógico! A greve dos professores é também um grito para um rápido despertar de educadores e educandos, sejam pais, filhos, profissionais de qualquer área.

Está orquestrada uma mudança radical no direito das pessoas e das instituições: ter cidadãos preparados para responder às necessidades de qualificação do país, da sua sustentabilidade económica, social, ética.

A escola é um espaço didático de interação e aprendizagens, de realização serena e confiante. A escola não é um espaço murado onde uma mole de seres humanos coabita de forma mais ou menos organizada!

Os professores são os aliados naturais dos pais na educação dos jovens!

(in “Correio do Vouga” 2013.06.12)

terça-feira, 4 de junho de 2013

O poder (local)

 

Em democracia o poder do governo dos Estados, das Nações, o poder na Polis, na cidade, é do povo.

Nas democracias representativas os cidadãos elegem representantes em intervalos regulares, a quem confiam o governo de todos em ordem ao bem comum.

Este princípio fundamental de igualdade, mesmo com o debate aceso sobre a natureza e origem do poder, passando pela originalidade dada pela antiguidade clássica, com alguns cidadãos a serem mais iguais do que outros, assumiu particular destaque a partir do século XV.

Daí para cá aperfeiçoou-se, à custa de muitas diatribes e sangue derramado, um modelo menos mal.

Esta década de XXI tem despertado, sem ser necessário esgotar as causas, um novo interesse sobre a pertença do poder! Os movimentos informais de cidadãos vão ao encontro dessa preocupação: participar na construção do que é comum, da resolução dos problemas.

O partidarismo, em sentido pejorativo; as teias de interesses privados à custa do bem comum; as novas redes de interação e comunicação; a democratização do conhecimento – duas condicionantes e duas virtudes – provocam a motivação, o engenho e a arte. A voz dos cidadãos ganhou expressão, escala, sentido, profundidade.

O serviço público parece fixado em meros atos administrativos. A burocracia, a ferramenta útil que deteriorou as vantagens e transfigurou-se em monstro, ou seja, recorrendo a um previsível étimo derivado de “burrus” (usado para indicar uma cor escura e triste), voltou às origens!

Os problemas das pessoas e as ideias para o futuro emaranharam-se em complexidade.

Agora, quando se aproximam novos atos eleitorais, porque é que os cidadãos, desde o recanto mais remoto e simples à elite mais instruída, não dizem aos putativos candidatos o que querem para si e para os seus em vez de ser ao contrário (escolher de um menu proposto pelos candidatos)?!

Voltar à fundação: nós queremos isto! Quem oferece a melhor solução?

Mesmo assim, é garantido, ainda não é perfeito. Porém, será menos mal. E no dia em que o caminho é desviado do trilho,… rua! Venham outros.

(in “Correio do Vouga”, 2013.06.05)

JNNF - 426

 

jnnf, ano XLVII, nº 426  (maio-junho 2013)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O cume do Evereste e o iceberg

 

Há pessoas, situações, momentos que nos deslumbram profundamente. Maria da Conceição, ao chegar ao topo do Evereste suscitou a descoberta da imensa obra que parecia submersa. Afinal, aquele momento, no Evereste, não é mais do que a ponta de um iceberg.

Fascinante!

Maria da Conceição queria ser a primeira mulher portuguesa a escalar o Evereste. E conseguiu. A hospedeira de bordo alcançou o cume da montanha mais alta do mundo na terça-feira, 21 de maio, às 9h13m locais (4h28m em Portugal). A iniciativa tinha um objetivo principal: angariar um milhão de dólares (cerca de 800 mil euros) para a Fundação Maria Cristina (, que ajuda famílias carenciadas no Bangladesh.

Maria do Céu da Conceição nasceu no concelho de Vila Franca de Xira onde viveu os seus primeiros dois anos de vida. Até aos doze anos esteve em Avanca, altura em que voltou ao concelho da sua naturalidade e onde esteve até emigrar.

No seu itinerário enquanto emigrante esteve em Itália, na Suíça, em Inglaterra e nos Emirados Árabes Unidos, na cidade do Dubai. Durante três anos e meio esteve a viver clandestinamente na Suíça, onde foi vítima de um grande acidente, tendo por isso sido 'amigavelmente' expulsa para o país de onde tinha saído, a Inglaterra.

Foi no Brasil, por onde passou, que experimentou o voluntariado com adolescentes das favelas em ambiente considerado violento, experiência curta devido à falta de preparação. Ficou no entanto tocada pelo entusiasmo de vir a fazer algo na tentativa de ajudar os mais necessitados.

No ano de 2003 a trabalhar por turnos e em Inglaterra, recorreu ao Centro de Emprego com a pretensão de ter um trabalho das nove às cinco! Um funcionário do mesmo centro propôs-lhe que concorresse à Emirates Airlines como hospedeira de bordo, tendo-lhe tratado de tudo sem a ter deixado pensar bem no que ia fazer. No entanto seria uma oportunidade para viajar por muitos lugares, o que certamente terá contribuído para que tivesse depreciado o horário de tal emprego. Com uma proposta irrecusável, a Maria emigrou para o Dubai onde permaneceu até hoje.

Os primeiros dois anos foram marcados por muitas viagens a passar férias em ilhas paradisíacas.

Em Abril de 2005 fez um voo em serviço Dubai - Dhaka, com uma escala de vinte e quatro horas passadas nessa cidade. Guiada pela curiosidade de conhecer os lugares por onde passava, resolveu sair do hotel Sheraton onde a companhia aloja as tripulações. O porteiro do hotel sugeriu a visita a orfanatos e hospitais, ideia que ela aceitou tendo ido visitar um orfanato. Enquanto estava no Orfanato, umas irmãs desafiaram-na a visitar um Hospital onde encontrou uma menina adolescente, que estava muito doente e que tinha acabado de dar à luz gémeos. A menina estava praticamente abandonada à sua sorte. As condições do hospital e a precariedade dos tratamentos fizeram com que Maria saísse de lá chocada! Aquela imagem não lhe saiu da mente. Só recuperou a paz quando decidiu voltar a Dhaka para ajudar aquelas pessoas.

Em Maio, mês do seu aniversário, a Maria resolveu fazer uma mudança radical no seu modo de vida, vendeu todos os objetos, roupas e ornamentos supérfluos que tinha no seu apartamento, levantou as suas economias do banco, pediu a amigos e colegas que lhe doassem tudo o que já não lhes fosse necessário, pediu ajuda a outros e partiu para Dhaka com toda a carga e com dinheiro para iniciar algo que contribuísse para aliviar as pessoas daquele horror.

Aparentemente, vislumbrámos a ponta do iceberg!

terça-feira, 21 de maio de 2013

Paternidades e filiação

 

Lendo a atualidade interna, há três referências essenciais que justificam a escolha do tema que encima este apontamento.

A mais expressiva: um filho que regressa!

O Patriarcado de Lisboa vê chegar, à casa Natal, D. Manuel Clemente.

Nascido em Torres Vedras a 16 de julho de 1948; após concluir o curso secundário, frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa onde se formou em História antes de entrar no Seminário Maior dos Olivais em 1973.

Em 1979 licenciou-se em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, doutorando-se em Teologia Histórica em 1992, com uma tese intitulada “Nas origens do apostolado contemporâneo em Portugal. A ‘Sociedade Católica’" (1843-1853).

O 17.º patriarca de Lisboa foi o vencedor do Prémio Pessoa 2009, o qual evocou a sua obra historiográfica, intervenção cívica e “postura humanística de defesa do diálogo e da tolerância, de combate à exclusão e da intervenção social da Igreja”.

As mais controversas: a co adoção.

O Parlamento aprovou o projeto de co adoção, entre casais homossexuais. No Parlamento a votação foi muito equilibrada, depois de um debate pouco esclarecedor, muito ruidoso, inflamado e, às vezes, proverbial. Na sociedade a discussão também sobe de tom. "É uma má medida desta maioria circunstancial, algo oportunista, que  se formou na Assembleia da República", disse Marinho Pinto à Lusa, em Barcelos,  à margem da sessão solene do Dia do Advogado. 

Para o bastonário, o projeto de lei retira às crianças o direito de  "poderem formar a sua identidade num quadro familiar biológico ou adotivo  em que existam sólidos referentes masculinos e femininos, que lhes permitam  um desenvolvimento harmonioso da sua personalidade". 

"Há um terceiro elemento neste triângulo que não foi ouvido e que foi  de alguma forma maltratado, desrespeitado, que são as crianças a adotar".

Por fim, o que o F.C.Porto fez ao título de campeão nacional em futebol, adotado há duas semanas pelo Benfica,… co adotou-o!

(in “Correio do Vouga”, 2013.05.22)

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Todos seríamos poucos

 

No ano passado realizaram-se em Portugal 18 408 interrupções voluntárias da gravidez. De acordo com os dados da Direção Geral da Saúde, publicados esta segunda-feira, em comparação com 2011 houve uma descida de 7,6% de abortos (menos 1513).

A natalidade em Portugal está baixíssima! Mesmo com as crianças que ficaram por nascer vivas, o equilíbrio dos ratios fatores geracionais era insuficiente!

A economia, o Estado Social, na sua matriz genuína de solidariedade inter-geracional, demorará meio século a ser encontrado.

Quando nos preocupamos com o futuro é aqui que também devemos centrar a nossa atenção, na vida, nas consequências reais da vida e da falta dela.

A larga maioria das situações de interrupção da gravidez (IG) aconteceu por decisão da mulher. A lei permite a IG até às dez semanas. Com a devida vénia ao tratamento dado pelo Diário de Notícias, a descida que refere o relatório espelha o decréscimo de abortos realizados em mulheres mais jovens. " A IG em mulheres com menos de 20 anos mantém uma tendência decrescente (11,7% em 2011 e 11,2% em 2012) à custa da diminuição de casos observados nos dois grupos, 15-19 anos e menores de 15 anos", aponta o documento. Já 63,9% das interrupções foram feitas por mulheres entre os 20 e os 34 anos.

No ano passado, mais de metade (51,5%) das mulheres que efetuaram uma IG até às 10 semanas de gestação, por opção própria, disseram ter um a dois filhos e 40% não tinham filhos. "Estes dados são muito semelhantes aos verificados em 2010 e também em 2011. Entre as mulheres que efetuaram uma IG em 2012, 73,9% nunca tinham realizado anteriormente uma interrupção, 20,4 % realizaram uma, 4,3 % tinham realizado duas e 1,5% já tinham realizado três ou mais no decorrer da sua idade fértil (independentemente da data de realização)", refere o relatório. Entre as interrupções realizadas durante 2012, 306 (1,7%) ocorreram em mulheres que já tinham realizado um aborto nesse ano.

A grande maioria (69%) das intervenções foram realizadas em unidades do Serviço Nacional de Saúde, "o que constitui um aumento de 1,8% em relação a 2011".

De acordo com o documento da Direção Geral da Saúde, das interrupções realizadas no SNS 49,3% decorrem por iniciativa própria das mulheres a uma unidade hospitalar, 36,8% foram encaminhadas por um centro de saúde" e 6,3% por outras unidades hospitalares públicas. "Ou seja, em relação a 2011 aumentou o número de mulheres que recorreram à consulta de IG por iniciativa própria e diminuiu a referenciação prévia dos cuidados de saúde primários".

Já no que diz respeito às unidades privadas, 52,4% das mulheres foram encaminhadas por unidades hospitalares públicas, 26% a partir dos cuidados de saúde primários e 20,2% procurou estas unidades por iniciativa própria e não ao abrigo de encaminhamento do SNS.

É urgente ser mais!

(in Correio do Vouga, 2013.05.15)

terça-feira, 7 de maio de 2013

Literacia digital

 

É noticiado na nossa região a formação para o uso crítico e esclarecido dos meios de comunicação, quer dos tradicionais quer dos que resultam das novas tecnologias. Depois de garantir o acesso praticamente livre e universal às novas tecnologias, às redes mundiais, tornou-se uma preocupação (ou pos-ocupação?!) explorar um novo conceito, um imperativo de cidadania, como é designado, a exploração e uso das ferramentas e conteúdos digitais. Surge, assim, o Grupo Informal sobre Literacia Mediática - GILM, constituído pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho, Comissão Nacional da UNESCO, Conselho Nacional de Educação, Entidade Reguladora para a Comunicação Social e Gabinete para os Meios de Comunicação Social.

Trazer para a agenda pública esta dimensão da formação dos cidadãos, promovendo a consequente definição e aplicação de políticas coerentes de literacia e educação para os media é o objetivo partilhado por várias instituições para aprofundamento de conhecimentos e para o debate sobre as múltiplas questões que integram a aldeia global sobre o “pensar e agir digital”.

Com tantos assuntos pertinentes, trazemos este para assunto deste apontamento porque é da mais elementar justiça realçar o trabalho que as escolas já fizeram antes deste (meritório) movimento.

Ainda a internet não era “net”, blogue, rede social, e as escolas ensinavam o seu uso numa luta de David contra Golias! As empresas envolvidas na exploração dos conteúdos digitais fizeram tudo para vender os seus produtos, raramente manifestaram preocupação, sim, “pre-ocupação” (prevenir antes de agir a qualquer preço), para que as gerações mais suscitáveis de assimilarem o digital, como espaço de vida concreta, também denominada, menos bem, como vida real, “cavalgassem” na ilusão e no acessório.

Agora, e por isto mesmo, tardiamente, aí vêm as “trancas à porta”! Espera-se que seja pelo menos autêntica esta mobilização de vontades e não mais um meio para conquistar novos mercados.

O marketing comercial tem várias faces!

(in Correio do Vouga, 2013.05.08)

terça-feira, 30 de abril de 2013

Queremos trabalho

Há 123 anos que celebramos a festa do dia do trabalhador como sinal de solidariedade com todos os trabalhadores e trabalhadoras do mundo. Será que de um mundo do trabalho centrado no capital e na mecanização teremos, por fim, chegado a um mundo centrado na pessoa humana?

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), estamos ainda longe de atingir esse horizonte, e a situação agrava-se com o que se está a passar nestes últimos tempos. Uma média de 49% dos empregados em todo o mundo ainda ganham menos de 2 dólares por dia e, entre eles, 39% menos de um dólar! Duzentos milhões de homens e mulheres estão desempregados!

Hoje, a pobreza agravou-se ainda mais no mundo. Segundo um relatório da OCDE, 60% dos trabalhadores ou trabalhadoras no mundo não têm um contrato e estão mais expostos à insegurança do trabalho – refere a Mensagem do Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos, 1º de Maio de 2013, “Todos pela justiça e pela dignidade humana”.

A título ilustrativo, nesta procura pelo mundo de encontrar melhores condições de vida, chega a notícia que o Governo canadiano anunciou medidas que poderão dificultar a entrada no país de trabalhadores estrangeiros temporários, a fim de evitar que as empresas substituam os trabalhadores locais por mão-de-obra mais barata.

O programa atual permite a chegada ao país de mais de 300 mil trabalhadores estrangeiros temporários por ano e tem contribuído para a substituição de canadianos por imigrantes.

O programa de trabalhadores estrangeiros temporários tinha a intenção de responder a uma grave escassez laboral apenas temporariamente e não de deslocar os trabalhadores canadianos.

Mas a partir de agora, as empresas que solicitem trabalhadores estrangeiros para preencher vagas terão de pagar para que o seu requerimento seja considerado. O montante que os trabalhadores estrangeiros terão de pagar para obter a autorização de trabalho também vai ser revisto em alta. Atualmente a taxa cobrada é de 150 dólares canadianos (cerca de 114 euros). Porém, a alteração mais importante prende-se, segundo analistas, com a eliminação da disposição que permitia às empresas pagarem a trabalhadores estrangeiros temporários salários cerca de 15% inferiores ao vencimento médio correspondente a esse posto de trabalho.

Os Sindicatos e partidos da oposição têm apontado que a autorização para pagarem menos aos trabalhadores oriundos de fora fomentava a redução dos salários dos canadianos e a importação de mão-de-obra barata. Em março, a economia do país terá perdido 54.500 postos de trabalho.

Uma investigação jornalística indica que muitas empresas do sector de serviços e alimentação estavam aproveitar-se do programa de trabalhadores estrangeiros temporários ao preencherem postos em que não faltavam candidatos locais. Contudo, parece óbvio que as mudanças não vão afetar diretamente os milhares de trabalhadores estrangeiros temporários que todos os anos chegam ao Canadá.

O trabalho é cada vez mais tratado como um valor precioso, quando é um direito – insistimos. O nosso mundo, apesar de ser cada vez mais pequeno, está inclinado, precisa de reequilíbrio! Vamos trabalhar isto!?

(in Correio do Vouga, 2013.05.02)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Informal, formal, não formal

 

Um pouco por todo o lado é comum ouvir, e sentir, os pares manifestarem apreensão, preocupação, perante a debaque instalada na sociedade, na vida das pessoas. Efetivamente a coerência entre o compromisso assumido e a alteração de trajeto até o ver concretizado, podendo mesmo faltar sem explicação ou com uma mensagem aparentemente rebuscada, passou a ser uma experiência comum. Já é raro, tão raro que já se desconfia de quem cumpre, encontrar coerência entre intenção e execução!

O êxito do meio sobre a mensagem, a aceleração do tempo, a comunicação em massa, o legítimo acesso ao limite do conhecimento, etc. suscitaram o triunfo da informação que, explorada nas suas enormes potencialidades, provocou uma revolução silenciosa de ideias e práticas: a desestruturação (do exigente, do vigente), o hábito informal.

O informal marca, como processo diluído, circunstancial, que se desenrola no decurso, ao ritmo do factual, a atividade, a vida.

Assiste-se à queda do formal, do raciocínio e do conhecimento; à eliminação da progressão cronológica, confundida com institucionalizado, graduado hierarquicamente num sistema articulado de causas e consequências; confunde-se temperança com tibieza; quer-se para já o que demora o seu tempo.

Quando atingirmos esta prática generalizada, emerge o não formal, uma outra forma, portanto! A negação da atividade organizada, sistemática, executada fora do quadro do sistema formal para oferecer outro tipo de ordem!

Voltando à ideia inicial, parece que querendo não ter tempo para nada, tudo é justificável pela falta de tempo. No fundo, parece, mas não passa de uma perceção, o que está em causa é o encontro com quadro de referências que fazem de um conjunto de pessoas um grupo; de uma massa uma obra de arte (renascentista, moderna ou contemporânea) – até aqui, a anarquia só tem sentido quando lhe é dada uma forma!

O compromisso é dar forma ao sentido das ideias, das coisas, do tempo!

(in Correio do Vouga, 2013.04.24)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Geografia do mundo.

 
Não, não se diga mais nada!
É muito provável que o êxtase com que a maioria das pessoas contempla uma bonita paisagem, como cada um se deixa transportar para uma estância exótica, sempre que é solicitado o destino de férias ideal, e em tantas outras circunstâncias idênticas que se torna fastidioso enumerar, pode indiciar – estamos convictos da certeza – que há no ser humano um desejo de harmonia e de contemplação que impele à superação da rotina, à abstração, à extensão do olhar para além do pontual, medíocre, banal.
Os acontecimentos recentes convidam a rasgar o horizonte. Às tensões que têm vindo a emergir e que, nos últimos apontamentos aqui fazemos referência, junta-se o atentado de Boston.
Se colocados numa montanha imaginária e olharmos a geografia do mundo; se, utilizando as novas tecnologias, rodarmos sobre nós próprios na plataforma 3D do Google Earth; se lermos os jornais; se fizermos uma retrospetiva histórica;… constataremos que há qualquer coisa de estranho à nossa volta: tão belo na harmonia global, tão estragado sob os nossos pés! A geografia do mundo pode ganhar em harmonia mas perde para a assimetria. Já cansam as palavras para tantos dislates!
Relendo o Cancioneiro de Fernando Pessoa…
Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
















terça-feira, 9 de abril de 2013

O precipício

Conta-se, em tom jocoso, anedótico, que no momento de início de funções, em jeito de balanço do trabalho produzido pelo executivo anterior, um determinado líder terá prometido: “amigos, com a direção anterior, a nossa organização chegou à beira do abismo!” – apesar de pouco elegante, percebe-se a análise no entusiasmo do momento.
A completar a ideia, veio o remate final, a chave apoteótica – aquela ênfase que espera um encerramento alegre, grandioso, normalmente a culminar com uma estrondosa salva de palmas: “… comigo, vamos dar um passo em frente!”
Ou seja, uma promessa tão esperançosa conduziu os presentes para o receoso precipício!
É aqui que estamos: à beira do abismo! Será que vamos dar um passo em frente?
Tudo nos sugere que, pela forma e fórmula expostas, valerá muito mais dar um passo à retaguarda para poder dar o salto para um futuro melhor.
É urgente dar ferramentas aos criativos e aos jovens para patentearem as suas ideias e fomentarem novas oportunidades.
O jornal Expresso, no âmbito dos seus quarenta anos, dedicou a Aveiro a última edição. Fez manchete com o facto de estarmos perante um caso de esperançoso sucesso: Silicon Valley. Tanto mais que a Universidade de Aveiro fez a apresentação pública e divulgação de finalistas dos Projetos empreendedores a caminho de Silicon Valley.
Neste evento de encerramento dos quatro concursos promovidos pelo Aveiro Empreendedor (CMA|AGIR, AIDA, UA|AAAUA e IEUA Start), os 15 projetos finalistas apresentarão as suas ideias através de um pitch. Os quatro projetos vencedores, irão usufruir de um Programa de Imersão em Silicon Valley.
Como não faltam ideias para pantear, apenas faltará “engenharia financeira” para transformar estes projectos em produto de mercado e com isto… saltar o precipício.
Em boa verdade, também serão necessárias outras estratégias e outros decisores para da dificuldade fazer oportunidade.








terça-feira, 26 de março de 2013

Ar fresco


Um pouco por todo o lado, de uma forma mais acentuada e conhecida nos últimos tempos, devido ao desenvolvimento das redes de comunicação e universalidade de acesso às mesmas, o espaço público, em termos de opinião e decisão, assumiu praticamente o que pejorativamente se intitula “lavadouro de roupa suja”.
Há tensões por todo o lado. Uma frase, uma árvore que se plante, uma ideia que se tenha, tudo, rigorosamente tudo, é extrapolado, distorcido, empolado,… colocado no “altar dos sacrifícios”, se possível, “queimado vivo” – o mesmo será dizer, destruir.
Há um clima de crispação sobre a terra! – relembramos o assunto da semana passada, ergam-se novas lideranças.
A título exemplificativo – como se tal fosse necessário?! - O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, disse, durante uma entrevista televisiva, citada pela agência AFP, que as críticas feitas à Alemanha se devem "à inveja" dos outros países.
“Sempre foi assim. É como numa turma [na escola], quando temos os melhores resultados, os que têm um pouco mais de dificuldades são um pouco invejosos”, afirmou o ministro, na cadeia de televisão pública ZDF, em resposta a uma questão sobre as críticas que se multiplicam contra a Alemanha, em particular na Europa do Sul.
Será que um estadista pode ter comentários de colegial, de aluno de escola, de “delegado de turma”?!
É este o ar que se respira pela Europa, um pouco pelo mundo: confronto! Sempre em confrontação.
Nesta semana e quadra, é necessário recuperar uma nova Páscoa, inspirada e respirada!
Os odores da urze, do alecrim, da alfazema,… também podem ser recuperados. Compete a quem pode, acredita, vive, proporcionar uma renovação deste clima pestilento. Onde não houver lugar para o Cristo que se encontre Jesus. Este calvário tem de chegar à ressurreição! Se não for pela fé que seja pelas obras de um humanismo cada vez mais solidário!





quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma nova primavera quando se mata para comer

 
O mundo é conduzido, pese o facto do realismo talvez exacerbado, nomeio de muita bruma. Bulcões ameaçadores erguem-se no horizonte. – E não é caso para menos!
Sobre esta ditadura da “Finança”, dominada por agiotas que liquidaram a democracia e a legitimação do poder pelos cidadãos, tudo é taxada, sob e sobretaxado em nome das metas do deficit. É necessário pagar a quem se deve mas será legítimo matar (tudo) apenas para alguns comerem?! É imperioso colocar a questão, tal como temos insistido. Isto está a fazer lembrar uma caçada do tempo do Absolutismo!?
Às vezes, dados os rumos protagonizados, somos levados á tentação de pensar nos alertas de Eisenhower “Nas assembleias parlamentares, devemos ter cuidado com o crescimento da influência, tanto clara quanto oculta, do complexo militar-industrial. Há um risco de que cresça desastrosamente o poder nas mãos de pessoas erradas, e esse risco continuará a existir no futuro. Não devemos permitir que o peso dessa mistura de poderes ponha em perigo as nossas liberdades ou os processos democráticos. E não devemos achar nada óbvio: apenas cidadãos vigilantes e bem informados podem impor um equilíbrio adequado entre a enorme máquina militar-industrial e nossos métodos e objetivos pacíficos, a fim de que a segurança e a liberdade possam prosperar juntas.” (17 de janeiro de 1961). É a primeira vez que se utiliza a expressão “complexo militar-industrial” para indicar um agregado de interesses capaz de influenciar a política interna e externa dos Estados Unidos da América.
O complexo militar-industrial gera receitas, dinheiro que escraviza, mata, atrofia, esgota recursos, cria tensões sociais, anula a legitimação do poder, … tudo em nome do lucro!
Entre vários cúmulos, está (agora) o caso cipriota: uma taxa especial sobre as poupanças?! É uma vergonha. Trata-se de ir roubar aos pobres o pouco que conseguem poupar. Os que têm muita “poupança” já fizeram as acauteladas deslocações para os “paraísos” do mundo!
Contudo (se é mesmo com tudo?!), na introdução a este período “antes do verão” consolida-se a primavera, tanto mais que quando a 8 de Dezembro de 1965 se celebrava, na Praça de São Pedro, em Roma, sob a presidência do Papa Paulo VI, o encerramento do Concílio Vaticano II, considerado o maior acontecimento eclesial do século XX, despertou uma nova primavera na Igreja, reconduzindo-a à frescura da fonte original do cristianismo e, por outro lado, abriu-a à novidade da cultura do mundo moderno. Desde essa data, os documentos conciliares, tem sido a bússola que guia a ação da Igreja – aludiu então José Luis Martín Descalzo. A primavera de então, pelo equinócio, pelos resultados do Conclave, pelos gestos iniciais do Papa, pela natureza que inspira o nome escolhido (Francisco) dão indicações de estarmos perante uma nova era; que o seja!
(Jornal “Correio do Vouga”, 2013.03.18)






terça-feira, 5 de março de 2013

Os números e o descontentamento

O país saiu à rua!
Mas terá sido todo o país? Terão estado dez milhões de pessoas a marchar contra a troika? “Que se lixe isso” – parafraseando um eventual cartaz.
O essencial está nas ideias para o governo, segundo alguns, ou desgoverno, segundo a maioria, do país. É óbvio que a grande maioria das pessoas quer apenas ter condições para honrar os seus compromissos!
Salvo raras exceções, todos os anos, em janeiro, esperavam-se (sempre) novos aumentos: nos salários, nos combustíveis, nos transportes,… em tudo mas sobretudo nos salários, no poder de compra. Subiu-se tanto, sobretudo em qualidade de vida e na dívida da mesma, nos últimos trinta anos, que obrigar as pessoas a perderem tudo o que acreditaram, lutaram e, justamente, atingiram não pode ser feito num ano ou dois e, de maneira particular, à custa de juros sobre dívidas que, apesar de indiretamente partilhadas, teria sido mais prudente ter acautelado evitando loucuras: submarinos, autoestradas, “intoxicação subsidiária” do tecido produtivo…
Como está até parece claro que só duas dicotomias na orientação dos atuais governantes europeus: trabalhadores mais pobres – maiores margens de lucro; austeridade (para as massas) – oligocracia (no poder).
Mas isto das dívidas dos países não é contabilidade de merceeiro ou agiota, são acordos de solidariedade soberana e interdependências.
Todos sabemos, com os devidos ajustes aos contextos atuais, mas Sérgio Aníbal recorda-o, num artigo no “Público”, há 60 anos, 70 países decidiram perdoar quase dois terços da dívida externa alemã. O país duplicou o seu PIB na década seguinte.
Com a troika em Portugal e com o Governo, os partidos da oposição e os parceiros sociais a pedirem uma melhoria das condições dos empréstimos que foram concedidos ao país, uma efeméride registada na passada semana dificilmente poderia passar em claro. Na quarta-feira, concluíram-se 60 anos desde que foi assinado o acordo de perdão de dívida entre a República Federal da Alemanha e os seus credores, onde se destacavam os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, mas onde também surgia a Grécia.
A 27 de Fevereiro de 1953, a economia alemã, que tinha atingido o fundo após a II Guerra Mundial, deu um passo decisivo para uma recuperação classificada por muitos como milagrosa. Desembaraçou-se de quase dois terços da sua dívida externa e iniciou uma década em que conseguiu duplicar o seu PIB.
Haja quem explique quando e como, num país como o nosso, com um PIB na ordem dos 160 mil milhões de euros, podemos desembaraçar-nos deste peso da dívida e recuperar a soberania? – basta de engodos e demagogias, razão do nosso descontentamento.
( in “Correio do Vouga”, 2013.03.06)






terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

À sétima é de vez?

 
Começou na passada segunda-feira mais um exame – da “troca”, mais do que “troika” (trocam umas migalhas por uma grande fornada de pão, aquele que está a faltar à mesa de todos nós)!
Fica-se com a impressão, apesar dos propalados bons resultados, que isto é circo mediático. Ninguém explica e poucos perceberão em que se baseiam para atribuir as classificações, sempre com notação qualitativa – deve ser para aumentar a margem subjetiva ao assunto! Serão umas ideias anunciadas em papel de jornal!? Talvez haja uma “checklist” de indicadores onde os governantes e a “troika” verificam se está tudo em ordem! Porém, a lista é em dimensão “short”, qualquer coisa como “nós demos, vocês estão a ir buscar a todo o lado, nós vamos dar mais qualquer coisa; é seguro que, até voltarmos, somos ressarcidos”!
O assunto é demasiado sério para a coesão social do País, da Europa, do Mundo. Esta linha de atuação causa perplexidade por todo o lado.
A sétima avaliação fica marcada pela recente revisão das previsões para a economia portuguesa, feitas pela Comissão Europeia, que colocam agora a economia a recuar 1,9%, contra uma previsão anterior (partilhada pelo Governo) de uma recessão de 1%, o que fará disparar o desemprego para uma taxa de 17,3%.
Perante estes números, também os dados da consolidação orçamental ficaram comprometidos sendo de esperar, tal como o ministro das Finanças afirmou na quarta-feira, dia 20, no Parlamento, que Portugal possa vir a beneficiar de mais um ano para atingir um défice inferior a 3% do Produto Interno Bruto (PIB).
Para já, as previsões da Comissão Europeia continuam a apontar para que esse objetivo venha a ser alcançado em 2014, com o défice a fixar-se nos 2,9% do PIB e não nos 2,5% anteriormente previstos.
A Comissão reviu ainda os números para 2013 e, em vez de apontar para um défice de 4,5%, aponta agora para um valor de 4,9% do produto.
Estas fórmulas estão a dar muito mau resultado, tanto aqui como noutras latitudes: pobreza arrasta pobreza. O custo do desenvolvimento será a pobreza?
O Presidente dos EUA afirma que os cortes na despesa, que poderão ser implementados na próxima semana, “não são inteligentes” e podem pôr em causa empregos.
Paul Krugman, Nobel da Economia diz que defensores da austeridade estão a parecer cada vez mais "insolentes e delirantes". Não percebe a "paixão europeia" pela austeridade a vontade de prosseguir uma austeridade sem limites é o que define a respeitabilidade nos círculos políticos europeus. Seria ótimo se as políticas de austeridade estivessem efetivamente a funcionar - mas não estão.
As teorias do pleno emprego e do valor-trabalho, preço dos bens essenciais de consumo (principalmente alimentos) é determinado pela quantidade de trabalho necessário para a produção), apesar das limitações e críticas no seu tempo, voltam a ganhar atualidade porque, por culpa de uns poucos que tudo querem (eles comem tudo, Zeca Afonso!), estamos à beira da ruptura, do desastre.
Com toda a vontade de andar por diante, estas contas dão cabo da paciência a qualquer cidadão.
O enunciado do exame da “troika” – inspirado, com devida vénia a Almeida Garrett e quem o atualiza, logo se vê - só tem uma pergunta: quantos pobres são necessários para se produzir um rico?
(in Correio do Vouga, 2013.02.26)












sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Carnaval e Pagode

 
É voz corrente que não é com atos carnavalescos, no sentido popular da expressão (coisas burlescas que se toleram em nome da diversão, do convívio social), que o país recupera a sua competitividade laboral e força produtiva. É óbvio que com a justiça mais eficiente, a administração (pública e privada) menos burocrática e “garantivista” (é necessário provar tudo porque não há prática de cruzamento de dados dentro dos mesmos serviços, muito menos em rede entre serviços diferentes), incentivos e supervisão eficaz à produção, o país seria mais rico num ano do que em toda a vida a brincar ao carnaval e feriados!
Neste tempo, como se constata, sendo o Carnaval uma festa de grande interesse nas sociedades, relevante na economia local e nacional, em alguns países, em nome do crescimento económico e consolidação orçamental, faz-se de conta que não é feriado mas no dia as instituições fecham, dão tolerância de ponto e, mesmo quem tem de cumprir os mínimos para não sofreram represálias ou assegurar o serviço, acabam por viver em carnaval no posto de trabalho.
É um pagode!
Um pagode em toda a sua latitude etimológica (consulte-se um lugar em rede e procure-se “pagode”: templo ou monumento memorial budista, composto por uma torre com múltiplas beiradas; moeda de ouro utilizada no Sul da Índia no século XVI; estilo musical, variedade do samba; festa, por extensão, roda de samba, reunião de sambistas; pagode de viola, também conhecido como pagode caipira ou pagode sertanejo - estilo musical, variedade da música sertaneja, inventado e difundido por Tião Carreiro – impactos do Brasil).
Em síntese, para o Carnaval, com toda a preparação e expressão, demora tempo a ser organizado e vive-se em três dias, como é facilmente constatado.
É por compreendermos a longa preparação destes três dias, até exige tentativas empíricas sobre o que fica melhor, que se percebe a troca do hino português pelo espanhol, no brasil, quando todos esperavam pelo hino espanhol, no início de uma partida de basquetebol entre o Brasil e Espanha, foi o hino português que se fez ouvir; e o momento insólito quando António Félix da Costa subiu ao pódio, depois de ter conquistado a Taça Intercontinental da FIA em Fórmula 3, quando tudo esperava ouvir «A Portuguesa», e tocou o hino da Suécia; a inversão da bandeira portuguesa no hastear do “5 de outubro”; os pagodes chineses estampados na Lusa Bandeira, entre as que estão alinhadas às portas do Conselho Europeu; as loucuras orçamentais para gastos de algumas “ Castas” superiores do nosso Estado;…. São coisas inerentes aos preparativos de Carnaval!
Sem um certo pagode, isto não seria tão carnavalesco.






segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Obreiros da paz


Quando chega o verão, é recorrente ouvir o elogio a quem acorre a socorrer aqueles que mais precisam. Também aqui, neste apontamento, já fizemos referência aos soldados da paz, aos Bombeiros.
Em pleno Inverno as coisas são diferentes, algumas vezes indiferentes.
Neste Inverno, os Bombeiros Velhos de Aveiro apresentaram novos veículos na celebração dos seus 131 anos de corporação. Um veículo tático urbano avaliado em 115 mil euros e uma ambulância de transporte de doentes não urgentes orçada em 35 mil euros foram as prendas mostradas no dia de festa. Os Bombeiros Velhos assumem que os tempos de crise dificultam a ação mas não perdem de vista novos projetos e a data foi aproveitada para reafirmar a vontade de construir novas soluções no domínio social com a criação de uma cantina e uma biblioteca - noticia a Rádio Terra Nova.
E tomando apenas como exemplo esta cooperação, vimos a referência à realização das “II Jornadas Técnicas de Emergência e Intervenção na Crise, subordinadas ao tema “Catástrofe” na parte da manhã e a “Intervenção Psicológica” durante a tarde.
Também são noticiados torneios e outras atividades de motivação e fortalecimento do sentido de corpo!
Estas notícias conduzem-nos à necessidade de uma visão mais alargada sobre a ação dos bombeiros, a diversidade de solicitações a que ocorrem.
É impressionante, só estes dias em Aveiro, quantas ocorrências, por acidente, crime ou indigência?! Acidentes de gravidade e dimensão diversas, homicídios, tempestade, doentes, mergulho,… uma obra social com contornos humanitários incomparáveis!
Tomámos um exemplo, os Bombeiros, mas queremos ter no horizonte o “efeito icebergue” de praticamente todas as ações humanitárias, com valor filantrópico, fundamento cristão: o que se vê é apenas a ponta de um volume enorme de pessoas, de tantas outras ações que dão suporte, sustentabilidade ao plano de intervenção!
Quando se discute o papel social do Estado e a sua sustentabilidade, perante tantas redes sociais de emergência, quase que somos a suspeitar que o que encarece essa dimensão dos Poderes Públicos não serão as limitações orçamentais das suas ações mas os privilégios dos que estão ao seu serviço!

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A voz do vento


A experiência sentida e partilhada por milhares de portugueses dá uma dimensão da incapacidade humana perante a força da natureza, onde nos inserimos mas da qual, se dúvidas persistissem, não somos senhores, donos, proprietários.
Estes dias de janeiro até podem ser (deverão ser mesmo!) de poderoso apelo ao discernimento, tal como é cantado nas últimas décadas: se ouvires a voz do vento, chamando sem cessar. Se ouvires a voz do tempo, mandando esperar,… se ouvires a voz do mundo, querendo-te enganar,… a decisão é tua.
Não faltam expressões de espanto perante a força dos elementos. O mesmo espanto é estupefação vistas as consequências: a natureza exprime a sua força e os homens e mulheres do século XXI nada podem! Ficam em casa mas até a casa é arrancada do chão; querem água e nada têm para além da que cai sem cessar; querem o conforto do aquecimento mas até este é retirado; querem comunicar, divertir-se, alimentar-se, cinema,… não têm energia! Reféns frágeis domesticados em conforto, presos a uma linha simples de uma rede, fica-se aturdido quando esta falha. O mais importante da vida, tal como a própria vida, são pequenos filamentos que nos unem.
NB: ainda na “noite das trevas” um canal de notícias transmita o drama humano provocado pela cobiça, instalada no Mali e outros países do Magreb, na exploração do Urânio para as Centrais Atómicas de França e gás natural para “confortar” a Europa.
A obra humana soçobrou! E agora?
Se é aceitável que “palavras leva-as o vento” não deixa de ser importante considerar que há palavras que são obra. Portanto, podem galvanizar, dinamizar o coletivo. É isso que se espera, por exemplo, das palavras de governo, de liderança. Seriam as palavras feitas presença, solidariedade. Não houve ou não se ouviram! Até se percebe, no meio de tantas tempestades estas até podem ser consideradas como menores! Coisas que passam. Seria aqui que, outrora, entravam os Governos Civis… a palavra, a presença dos Representantes junto de quem mandatou para o exercício da governança para dar coesão ao território e a quem o constrói. Tudo o vento levou!
Enquanto o vento varre o país, outras vozes reassumem o comando do mundo. Obama jurou servir a América e, pela influência que detém, também um pouco de cada um de nós. Sopram ventos de mudança na imigração, alterações climáticas, justiça social e política externa assente na paz.
O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amor,
A tua voz tortura toda a gente! ...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim ! ... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir pla vida fora!! ...
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"
(in Correio do Vouga, 2013.01.23)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Melhores do mundo

Em regra, há um reconhecimento generalizado pela competência dos cidadãos Lusos nos desempenhos a que são chamados ou tomam a iniciativa.
Num tempo de alguma, estudada, apreensão coletiva pelo futuro, surgem enumerações de personalidades, estudos, relatórios, descobertas, ideias,… casos de sucesso, de muito sucesso. E não são casos ímpares, situações de exceção; são sistemáticas demonstrações e reconhecimento de práticas consolidadas.
Num país com as características de Portugal, o sucesso deverá ser enfatizado. O triunfo individual é relevante para estimular o coletivo. Até há determinadas situações de agraciamento devidas às características geo-periféricas do país (pequeno, com parcos recursos energéticos,…Portanto, há um mundo de oportunidades que galvaniza, projeta os portugueses.
Por estes dias, o desporto trouxe mais alguns exemplos Ronaldo, Mourinho, Pedro Proença. Também António Félix da Costa, no desporto automóvel esteve em destaque.
Mas as seleções de futebol, de rugby, andebol,... hóquei em patins, claro, grandes prestações.
Na ciência, destaque para Mónica Bettencourt-Dias, investigadora principal do grupo de Regulação do Ciclo Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência. Recebeu a bolsa "Keith R. Porter" da Sociedade Americana de Biologia Celular (ASCB). Este prémio anual, foi estabelecido em 1999 e reconhece a excelência do trabalho de um biólogo celular no inicio ou meio da sua carreira científica e tem como objetivo encorajar outros jovens e cientistas a prosseguir os estudos nesta área. Portugal é dos países do mundo com maior taxa de participação feminina em tarefas de investigação científica.
No Campeonato do Mundo de Debates Universitários 2013 (WUDC), que decorreu durante os dias 27 de Dezembro e 3 de Janeiro em Berlim, patrocinado pela Universidade Técnica de Berlim, McKinsey, entre outros, saiu vencedora a Sociedade de Debates da Universidade do Porto.
Também podemos falar de enormes projetos singulares, emblemáticos: Centro de investigação Champalimud, o Aquário de Bacalhaus do Museu Marítimo de Ílhavo.
As referências são diversas e extensas, o que nos obriga a abrir apenas a base remota do espectro.
Falta-nos reconhecer o que somos para conseguirmos avaliar a nossa dimensão! Reduzindo tudo a pó e cacos nunca conseguiremos sair dos Relatórios do FMI ou outros pareceres técnicos que nos reduzam a números, por sinal bastante ridículos.
No ano europeu dos cidadãos e o ano internacional da cooperação da água abrem-se outras oportunidades para vencer.
(in Correio do Vouga, 2013.01.15)