Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 26 de março de 2013

Ar fresco


Um pouco por todo o lado, de uma forma mais acentuada e conhecida nos últimos tempos, devido ao desenvolvimento das redes de comunicação e universalidade de acesso às mesmas, o espaço público, em termos de opinião e decisão, assumiu praticamente o que pejorativamente se intitula “lavadouro de roupa suja”.
Há tensões por todo o lado. Uma frase, uma árvore que se plante, uma ideia que se tenha, tudo, rigorosamente tudo, é extrapolado, distorcido, empolado,… colocado no “altar dos sacrifícios”, se possível, “queimado vivo” – o mesmo será dizer, destruir.
Há um clima de crispação sobre a terra! – relembramos o assunto da semana passada, ergam-se novas lideranças.
A título exemplificativo – como se tal fosse necessário?! - O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, disse, durante uma entrevista televisiva, citada pela agência AFP, que as críticas feitas à Alemanha se devem "à inveja" dos outros países.
“Sempre foi assim. É como numa turma [na escola], quando temos os melhores resultados, os que têm um pouco mais de dificuldades são um pouco invejosos”, afirmou o ministro, na cadeia de televisão pública ZDF, em resposta a uma questão sobre as críticas que se multiplicam contra a Alemanha, em particular na Europa do Sul.
Será que um estadista pode ter comentários de colegial, de aluno de escola, de “delegado de turma”?!
É este o ar que se respira pela Europa, um pouco pelo mundo: confronto! Sempre em confrontação.
Nesta semana e quadra, é necessário recuperar uma nova Páscoa, inspirada e respirada!
Os odores da urze, do alecrim, da alfazema,… também podem ser recuperados. Compete a quem pode, acredita, vive, proporcionar uma renovação deste clima pestilento. Onde não houver lugar para o Cristo que se encontre Jesus. Este calvário tem de chegar à ressurreição! Se não for pela fé que seja pelas obras de um humanismo cada vez mais solidário!





quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma nova primavera quando se mata para comer

 
O mundo é conduzido, pese o facto do realismo talvez exacerbado, nomeio de muita bruma. Bulcões ameaçadores erguem-se no horizonte. – E não é caso para menos!
Sobre esta ditadura da “Finança”, dominada por agiotas que liquidaram a democracia e a legitimação do poder pelos cidadãos, tudo é taxada, sob e sobretaxado em nome das metas do deficit. É necessário pagar a quem se deve mas será legítimo matar (tudo) apenas para alguns comerem?! É imperioso colocar a questão, tal como temos insistido. Isto está a fazer lembrar uma caçada do tempo do Absolutismo!?
Às vezes, dados os rumos protagonizados, somos levados á tentação de pensar nos alertas de Eisenhower “Nas assembleias parlamentares, devemos ter cuidado com o crescimento da influência, tanto clara quanto oculta, do complexo militar-industrial. Há um risco de que cresça desastrosamente o poder nas mãos de pessoas erradas, e esse risco continuará a existir no futuro. Não devemos permitir que o peso dessa mistura de poderes ponha em perigo as nossas liberdades ou os processos democráticos. E não devemos achar nada óbvio: apenas cidadãos vigilantes e bem informados podem impor um equilíbrio adequado entre a enorme máquina militar-industrial e nossos métodos e objetivos pacíficos, a fim de que a segurança e a liberdade possam prosperar juntas.” (17 de janeiro de 1961). É a primeira vez que se utiliza a expressão “complexo militar-industrial” para indicar um agregado de interesses capaz de influenciar a política interna e externa dos Estados Unidos da América.
O complexo militar-industrial gera receitas, dinheiro que escraviza, mata, atrofia, esgota recursos, cria tensões sociais, anula a legitimação do poder, … tudo em nome do lucro!
Entre vários cúmulos, está (agora) o caso cipriota: uma taxa especial sobre as poupanças?! É uma vergonha. Trata-se de ir roubar aos pobres o pouco que conseguem poupar. Os que têm muita “poupança” já fizeram as acauteladas deslocações para os “paraísos” do mundo!
Contudo (se é mesmo com tudo?!), na introdução a este período “antes do verão” consolida-se a primavera, tanto mais que quando a 8 de Dezembro de 1965 se celebrava, na Praça de São Pedro, em Roma, sob a presidência do Papa Paulo VI, o encerramento do Concílio Vaticano II, considerado o maior acontecimento eclesial do século XX, despertou uma nova primavera na Igreja, reconduzindo-a à frescura da fonte original do cristianismo e, por outro lado, abriu-a à novidade da cultura do mundo moderno. Desde essa data, os documentos conciliares, tem sido a bússola que guia a ação da Igreja – aludiu então José Luis Martín Descalzo. A primavera de então, pelo equinócio, pelos resultados do Conclave, pelos gestos iniciais do Papa, pela natureza que inspira o nome escolhido (Francisco) dão indicações de estarmos perante uma nova era; que o seja!
(Jornal “Correio do Vouga”, 2013.03.18)






terça-feira, 5 de março de 2013

Os números e o descontentamento

O país saiu à rua!
Mas terá sido todo o país? Terão estado dez milhões de pessoas a marchar contra a troika? “Que se lixe isso” – parafraseando um eventual cartaz.
O essencial está nas ideias para o governo, segundo alguns, ou desgoverno, segundo a maioria, do país. É óbvio que a grande maioria das pessoas quer apenas ter condições para honrar os seus compromissos!
Salvo raras exceções, todos os anos, em janeiro, esperavam-se (sempre) novos aumentos: nos salários, nos combustíveis, nos transportes,… em tudo mas sobretudo nos salários, no poder de compra. Subiu-se tanto, sobretudo em qualidade de vida e na dívida da mesma, nos últimos trinta anos, que obrigar as pessoas a perderem tudo o que acreditaram, lutaram e, justamente, atingiram não pode ser feito num ano ou dois e, de maneira particular, à custa de juros sobre dívidas que, apesar de indiretamente partilhadas, teria sido mais prudente ter acautelado evitando loucuras: submarinos, autoestradas, “intoxicação subsidiária” do tecido produtivo…
Como está até parece claro que só duas dicotomias na orientação dos atuais governantes europeus: trabalhadores mais pobres – maiores margens de lucro; austeridade (para as massas) – oligocracia (no poder).
Mas isto das dívidas dos países não é contabilidade de merceeiro ou agiota, são acordos de solidariedade soberana e interdependências.
Todos sabemos, com os devidos ajustes aos contextos atuais, mas Sérgio Aníbal recorda-o, num artigo no “Público”, há 60 anos, 70 países decidiram perdoar quase dois terços da dívida externa alemã. O país duplicou o seu PIB na década seguinte.
Com a troika em Portugal e com o Governo, os partidos da oposição e os parceiros sociais a pedirem uma melhoria das condições dos empréstimos que foram concedidos ao país, uma efeméride registada na passada semana dificilmente poderia passar em claro. Na quarta-feira, concluíram-se 60 anos desde que foi assinado o acordo de perdão de dívida entre a República Federal da Alemanha e os seus credores, onde se destacavam os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, mas onde também surgia a Grécia.
A 27 de Fevereiro de 1953, a economia alemã, que tinha atingido o fundo após a II Guerra Mundial, deu um passo decisivo para uma recuperação classificada por muitos como milagrosa. Desembaraçou-se de quase dois terços da sua dívida externa e iniciou uma década em que conseguiu duplicar o seu PIB.
Haja quem explique quando e como, num país como o nosso, com um PIB na ordem dos 160 mil milhões de euros, podemos desembaraçar-nos deste peso da dívida e recuperar a soberania? – basta de engodos e demagogias, razão do nosso descontentamento.
( in “Correio do Vouga”, 2013.03.06)