Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 31 de julho de 2012

Atletas ocasionais. Otília Martins

 
Os Jogos Olímpicos estão a decorrer, bem o sabemos, e as expetativas sobre o êxito luso estavam à partida muito minimizadas pelo próprio Comité Nacional. Acreditamos que seja uma jogada de marketing, uma estratégia comunicacional bem urdida. Não nos parece, nem gostaríamos de crer que, a este nível, estas mensagens não façam parte de um plano delineado; se assim não fosse, estaríamos perante uma situação pouco recomendável, pelo grau de amadorismo que revelaria.
A comunicação de que "Esta missão é de longe a mais bem preparada de sempre para entrar nos Jogos Olímpicos. Em 100 anos nunca houve nenhuma equipa portuguesa com tão boa preparação"- Vicente Moura, presidente do COP - e "Estamos otimistas, bem-dispostos, foram quatro anos de trabalho aplicado, toda a gente trabalhou, o Comité, as federações, os técnicos e atletas. Estamos com bom espírito e estou convencido que os resultados vão prestigiar Portugal" revela que houve seriedade de processos, mesmo com cortes orçamentais, e que o país pode e deve exigir… resultados que o prestigiem! Boa mensagem.
Nos jogos, em Londres, verificámos que as condições e instalações para alojamento e provas são ótimas. Ficámos a saber, também pela voz do chefe da missão portuguesa, que tem "boa impressão da organização".
Então, o que são resultados que prestigiam Portugal?
Parece que a resposta é óbvia para qualquer cidadão interessado no assunto e para além dele: resultados pessoais, de cada atleta, em média, para usar de alguma generosidade, iguais ou melhores que os atingidos anteriormente nas provas e especialidades próprias! Parece claro.
Qualquer coisa acima disto é sinal de evolução, de melhoria, de trajeto para o topo, conforme o próprio lema dos Jogos!
Tudo o que seja aquém disto deve ser estudado, investigado em ciências do desporto, em ciências sociais, contextualizado, alterado, explicado para apurar as causas da falha sistemática em momentos decisivos.
Sem um estudo desta constante nacional, a falha nos momentos difíceis, farão passar a ser uma metáfora da vida olímpica portuguesa as palavras de Vicente de Moura, mesmo que queira ficar mais vinte anos, como o próprio parodiou, "Levámos algum tempo a chegar do aeroporto, acho que a pessoa que conduziu o nosso carro não sabia muito bem o caminho”! Portanto, perante resultados abaixo do que cada atleta já atingiu, é muito provável que o condutor não saiba bem o caminho?!
Portugal tem de mudar! Se assim não for, continuará o perdão para os incumpridores e a tolerância para o laxismo, para o insípido, para o aturdido, para o marasmo na vida. Em contraponto, corre-se o risco de quem quer fazer mais e melhor acabar por ser afastado, acusado por querer ser mais do que deve, por estar a querer subir,… no fundo por trabalhar (aspirar) a ser mais!
Enquanto ficarmos anestesiados e enternecidos pela ousadia do fortuito, continuaremos a ser como a Dª Otília Martins, “quem não tem cão, caça com gato”, ou seja, à falta de melhor toma-se o que se tem mais à mão e sai manga para triunfar perante a adversidade, isto é, o larápio indesejado. E o mundo aplaude maravilhado a atleta ocasional!
Mais um ícone ao desenrascanço luso!
(in Correio do Vouga, 2012.08.01)











terça-feira, 24 de julho de 2012

Do Olimpo não muito distante


Inspirados pelo acontecimento, Londres 2012, apontamos três pequenas glosas que podem parodiar o momento.
Cerca de 776 antes de Cristo, a data mais aceite para o início dos Jogos Olímpicos antigos, baseada em inscrições, encontradas em Olímpia, acerca dos vencedores de uma corrida a pé realizada em cada quatro anos, os Jogos Antigos tinham características muito próximas das atuais, em Londres 2012. Rezam as crónicas que se destacavam e provas de corrida, pentatlo (que consistia em saltos, lançamento do disco e dardo, uma corrida a pé e luta), boxe, luta livre e eventos equestres.
Analisando as provas, constata-se que todas tinham o epicentro das causas e consequência na funcionalidade: preparar homens (na altura as mulheres não entravam sequer, como é sobejamente conhecido) para o combate, para a ascendência de uns sobre os outros em caso de guerra entre as Cidades-Estado península helénica.
Hoje, ao preço que estão os combustíveis e a energia, um das vertentes mais relevantes dos jogos é a mesma: preparar os melhores para enfrentar um mundo necessitado de mais exemplos, em que os melhores eduquem e sensibilizem para a sustentabilidade. Trinta e seis modalidades, apenas com energia limpa, para ser cada vez mais longe, mais alto e mais forte.
Há um mito que aponta Coroebus, um cozinheiro da cidade de Elis, como o primeiro campeão olímpico.
Com as dificuldades que a maioria do mundo enfrenta em 2012, como no início das Olimpíadas, quem ainda consegue ter algo para cozinhar… já é um campeão!
Por fim, os primórdios: as Olimpíadas foram inicialmente uma significação religiosa, com acontecimentos desportivos ao lado de rituais de sacrifício em honra de Zeus e todos os deuses, o panteísmo!
Londres está rendida ao mesmo feito, não é Zeus que “panteistica” o firmamento mas o Euro! O pobre, literalmente pobre, Euro tenta suportar uma economia que outros deuses menos solidários já não concorrem para a sua salvação. Assim, nem ao Olimpo consegue chegar.
A Europa, berço de tantas coisas boas da humanidade (até há quem protagoniza ser aqui o berço da civilização!?), não poder ser cadafalso de si própria.
(in Correio do Vouga, 2012.07.25)








segunda-feira, 16 de julho de 2012

Carreiras e classe

 
Muitas vezes somos confrontados com algumas expressões que, usadas na oralidade das conversas, até soam a sinónimos. Porém, quando refletidas na escrita, rapidamente sentimos que há divergências indissociáveis.
Carreiras há muitas, enquanto que para haver classe, quer no sentido mais prosaico quer na significação mais nobiliárquica do termo, é preciso muita elevação, conhecimento dos pormenores, competências profundas para discernir o essencial do acessório sem perder a visão do conjunto e as finalidades do todo, mesmo quando, em alguns momentos, seja necessário conter a disponibilidade para a satisfação da parte, de um indivíduo, para não baquear em arbitrariedades.
O que se vem a notar é a opinião do indivíduo a turvar o coletivo, a distorcer a realidade por mecanismos de projeção de frustrações próprias ou vontade deliberada de satisfação do próprio ego. Portanto, até para destruir uma simples carreira é preciso muita classe! A melhor medida para a compreensão destas coisas serão sempre os factos, a evidência, mesmo quando deliberadamente se tenta distorcer ou ignorar.
Dado que os canais de difusão da opinião estão abertos ao mundo e, sabe-se lá com que interesses, em vez de possuírem estatuto de autenticidade, assumem logo à partida “estatutos editoriais”, chamemos-lhe assim, que favorecem aquilo que recentes programas de humor chamaram (ou denominariam) achincalhamento!
Uma ilustração, “por opção editorial, o exercício da liberdade de expressão é total, sem limitações, nas caixas de comentários abertas ao público disponibilizadas pelo … [nome do meio de comunicação]. Os textos aí escritos podem, por vezes, ter um conteúdo suscetível de ferir o código moral ou ético de alguns leitores, pelo que [nome do meio de comunicação] não recomenda a sua leitura a menores ou a pessoas mais sensíveis.
As opiniões, informações, argumentações e linguagem utilizadas pelos comentadores desse espaço não refletem, de algum modo, a linha editorial ou o trabalho jornalístico do [nome do meio de comunicação]. Os participantes são incentivados a respeitar o Código de Conduta do Utilizador e os Termos de Uso e Política de Privacidade […].
O [nome do meio de comunicação] reserva-se o direito de proceder judicialmente ou de fornecer às autoridades informações que permitam a identificação de quem use as caixas de comentários em [nome do meio de comunicação] para cometer ou incentivar atos considerados criminosos pela Lei Portuguesa, nomeadamente injúrias, difamações, apelo à violência, desrespeito pelos símbolos nacionais, promoção do racismo, xenofobia e homofobia ou quaisquer outros”.
Portanto, até porque estamos no verão, em vez de se prevenir o “incêndio” abrem-se as portas a tudo. Depois, se houver problemas, cada um tratará por si a desgraça!
Voltando ao assunto, é preciso ter classe até no uso que se faz do bom nome da liberdade; caso contrário, continua a valer tudo para assegurar as carreiras! E tudo isto porque continua válida a máxima, considerada de autor anónimo, há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.
(in Correio do Vouga, 2012.07.18)









terça-feira, 10 de julho de 2012

A partícula redimida


A partícula redimida
A origem do apelido “a partícula de Deus” terá início numa circunstância meramente acidental?! É provável.
Nos anos 90, Leo Lederman, um Prémio Nobel, decidiu escrever um livro de divulgação sobre a física de partículas. No texto, Lederman referia-se ao bosão de Higgs como “The Goddamn Particle” (“A Partícula Maldita”) pela dificuldade em ser detetada.
O editor do livro decidiu, sabe-se lá porquê, mudar o termo “The Goddamn Particle” para “The God Particle” e assim “A Partícula Maldita” converteu-se na "Partícula de Deus”.
Esta particula começou a ter expressão na investigação quando, em 1964, uma equipa liderada pelo físico inglês Peter Higgs, propôs a seguinte solução: todo o espaço está cheio de um campo, que não podemos ver, mas que interage com as partículas fundamentais. O eletrão interage muito pouco com esse campo e, por isso, tem uma massa tão pequena. O quark “cimo” interage muito fortemente com o campo e, por isso, tem uma massa muito maior.
Entre as analogias mais comuns para fazer compreender o conceito, dá-se a comparação entre uma sardinha, por exemplo, e uma baleia. A sardinha nada muito rapidamente porque é mais pequena, tem pouca água ao redor. A baleia é muito grande, tem muita água ao seu redor e, por isso, move-se mais devagar. Neste exemplo, “a água” tem um papel semelhante ao “campo de Higgs”. Esta teoria, entre outras hipóteses de estudo que abre à investigação, vem trazer mais um contributo para a compreensão da massa de todas as partículas, originada por um campo que enche todo o Universo.
Esta massa, que não se vê, permite colocar o acento noutras massas que também não se veem mas sabemos que são poderosas e interagem condicionando ou querendo condicionar a existência humana.
Em termos sociais é um expressivo caso de estudo: as massas! A energia que é necessário para as mover.
Cada vez mais torna-se importante estar atento aos pormenores para descortinar por onde se movem as forças do universo!
Nunca é suficiente o que já se fez. O mais importante é o que ainda não está feito, nomeadamente encontrar espaço para a Memória.
Parece claro que o equilíbrio de forças está muito tendencioso, e nem sempre pelas melhores motivações.
(in Correio do Vouga, 2012.07.11)