Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A 2015!

 
Os tempos de perturbação generalizada com que encerramos o pretérito não auguram notáveis avanços de expectativa para 2015. Aceita-se, por isso mas com particular solidariedade, que haja um determinado (com alguma generosidade na observação!), isto é, um alargado espectro de pessimismo em cada pessoa a quem é pedida a opinião.
É constrangedor notar, para além das palavras, o olhar triste de quem se sente impotente para mudar o que quer que seja, tanto em coisas de relativa importância, coisas de somenos, como por exemplo o local onde é festejada a passagem de ano, como em coisas essenciais para uma vida com dignidade subalternizada ao altruísmo paterno/materno de prescindir de tudo para dar o mínimo aos filhos. A consternação sobre o sentimento que é emanado chega ao ponto de já nem serem relevantes os momentos, ritos e rituais de renovação, no caso do ciclo da vida, a passagem de ano.
Com janeiro, o Januarius em homenagem ao deus Jano, deus de duas faces, senhor dos solstícios, encarregado de iniciar o inverno e o verão, o nome deriva de “ianitor” que quer dizer porteiro, aquele que comanda as portas dos ciclos de tempo, abre-se um novo ciclo na cronologia dos tempos e é bastante expressivo, no ser humano, a abertura de si mesmo, a abertura aos outros, independentemente das configurações e disposição. Não havendo vontade de abertura à vida há indícios de que algo já está morto!
As Nações Unidas interpelam o mundo para o ano internacional da luz para celebrar a luz como matéria da ciência e do desenvolvimento tecnológico. Em 2015, completam-se 100 anos da teoria da relatividade geral, de Albert Einstein. E os 110 anos da explicação do efeito fotelétrico, também de Einstein e que lhe valeu o Nobel da Física de 1921, anunciado no ano seguinte (neste efeito, um fotão – uma partícula de luz –, ao incidir sobre certos metais, arranca eletrões que aí se encontram). Outra data, entre outras: em 2015 comemoram-se os 50 anos da descoberta da radiação cósmica de fundo, a radiação emitida no Big Bang (ocorrido há 13.800 milhões de anos) e que banha todo o Universo. Por esta descoberta, os norte-americanos Arno Penzias e Robert Wilson ganharam o Nobel da Física em 1978. Também, entre os organismos das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, Food and Agriculture Organization) propõe a implementação do Dia Internacional dos Solos (5 de dezembro) e em 2015 o Ano Internacional dos Solos para promover um aliança mundial consciencializadora da importância destes para a subsistência e segurança alimentar.
E 2015 será também o ano europeu para o desenvolvimento: o nosso mundo, a nossa dignidade, o nosso futuro. Uma oportunidade para sensibilizar os cidadãos europeus para as políticas de desenvolvimento da União Europeia e para o seu papel enquanto um dos principais agentes mundiais na luta contra a pobreza.
Partimos animados e crentes na interpelação do Papa Francisco. Cada um, segundo a respetiva missão e responsabilidades particulares, realizará gestos de fraternidade a bem de quantos são mantidos em estado de servidão. Enquanto comunidade e indivíduo, temos de nos sentir interpelados quando, na vida quotidiana, nos encontramos ou lidamos com pessoas vítimas de escravidão de qualquer natureza, quando temos de comprar, se escolhemos produtos que poderiam razoavelmente resultar da exploração de outras pessoas. Não podemos por indiferença, porque distraídos com as preocupações diárias, ou por razões económicas, fechar os olhos.
Venha 2015! Um ano também de confiança!






terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado

 

Num momento de grande esforço de diálogo político e criação de consensos, a Comissão Nacional Justiça e Paz, em parceria com a Cáritas e Rede Europeia Anti-Pobreza, organiza, no próximo dia 13 de dezembro, em Lisboa, a Conferência Anual. Sugerimos, como enquadramento e pertinência, um excerto do documento (Reflexões sobre a exortação apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco) recentemente publicado.

“(…) o sistema social e económico é injusto na sua raiz.” (EG 59) Importa registar as características «desta» economia, que a Evangelii Gaudium menciona expressamente e que ilustram alguns dos elementos estruturais do sistema económico vigente. “Hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata.” (EG 53) “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco.” (EG 53)

É conhecido o lugar que a «competitividade» ocupa na «corrida» para o «sucesso» (por vezes, para a sobrevivência), com manifesta vantagem dos «mais fortes». O resultado da livre concorrência é considerado como intrinsecamente «bom», independentemente dos critérios de justiça.

Naturalmente, uma das consequências de tal sistema é que “enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz.” (EG 56) É sabido como posições ideológicas podem ser vestidas de roupagens técnico-científicas, aparentemente neutras no campo dos valores. “Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira.” (Ibidem) O que está em causa é o princípio do liberalismo. “Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum.” (EG 56) “O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado. Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental – que não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral de todos.” (EG 240) “Quando estes valores são afetados, é necessária uma voz profética.” (EG 218). Aliás, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política económica.” (EG 203) “alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo.” (EG 54) “esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante.” (Ibidem) “não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado.” (EG 204) “O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo.” (Ibidem)

Além das recomendações respeitantes à economia em geral, é particularmente significativo que o Papa sublinhe o facto de que o combate à pobreza, se quiser ultrapassar os limites do assistencialismo, requer uma adequada política económica. Não se trata de abolir as práticas assistenciais – em si indispensáveis e cujo valor deve ser sublinhado –, mas de reconhecer que as mesmas não conduzem à «promoção integral dos pobres.»

(in Correio do Vouga, 2014.12.03)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O processo

 

Sem sabermos tudo – antes pelo contrário! Sem se saber nada! – vá lá saber-se porquê, deu-nos para uma pequena revisitação de “O processo”, de Kafka, claro.

Por uma questão de economia de tempo – é preciso estar atento aos “direto”: “a qualquer momento”… durante horas sucessivas… a ansiedade ocupou o espírito, esvaiu por completa a capacidade de ação e de reação.

Como é dia de fixar o olhar naquele cenário de fundo branco, do género de contraplacado lacado de branco, com uma cadeira antiga, de estilo imponente, forrada a pelo com elementos esculpidos, um ambão de acrílico, uma bandeira nacional que por tão deslocada no espaço parece descaída para meia haste… O cenário para a leitura das medidas parecia saído de um filme artesanal. Tudo deslocado!

- Um momento…!

Afinal ainda não foi desta. A montanha estava prestes a “deixar sair” qualquer coisa!

- É agora?!

Vamos pregar olho no que vai sair… a qualquer momento. Como é preciso terminar o apontamento, pedindo desculpa, recorremos a uma sinopse (da wikipedia, no caso) e aqui ficam algumas dúvidas, coincidências, pertinências ou nem por isso…

O romance conta a história de Josef K., bancário que é processado sem saber o motivo. A figura de Josef K. é o paradigma do perseguido que desconhece as causas reais de sua perseguição, tendo que se ater apenas às elucidações alegóricas e falaciosas vindas de variadas fontes.

Embora Kafka tenha retratado um autoritarismo da Justiça que se vê com o poder nas mãos para condenar alguém, sem lhe oferecer meios de defesa, ou ao menos conhecimento das razões da punição, podemos levar a figura de Josef K., bem como de seus acusadores, para vários campos da vida humana: trabalho (quem nunca se viu cobrado ou perseguido, sem que seus acusadores lhe dissessem em que estaria sendo negligente), religião (quem nunca se viu pego, de surpresa, como Josef K., por um fanático intransigente, dizendo que teríamos ferido as leis divinas, sem que nos fossem apresentados os motivos), na escola (quem nunca se viu como Josef K., ao ser criticado por seu desempenho, sem que soubesse em que havia falhado, com críticas vagas, por vezes de colegas, por vezes dos próprios mestres).

Muito embora se preste às mais diversas interpretações, desde aquelas fundadas nos axiomas filosóficos até a mais profunda radiografia feita pela sociologia, de fato, “O Processo” fornece farto material àquele que se debruça sobre o estudo para além da mera dogmática jurídica, de vez que, por meio de um conto que mais se assemelha a uma parábola, Kafka reproduz a negação do estado democrático de direito e, ao mesmo tempo, leva o leitor a perceber que, mesmo vivendo sob a égide da democracia "plena", há que se não perder de vista que as instituições não guardam a razão de ser na prestação de serviço público, mas na submissão ao poder e às camadas dominantes.

Nesta obra, o protagonista, atónito, ao ser informado que contra ele havia um processo judicial (ao qual ele jamais terá acesso e fundado numa acusação que ele jamais conhecerá), percorre as vielas e becos da burocracia estatal, cumpre ritos inexplicáveis, comparece a tribunais estapafúrdios, submete-se a ordens desconexas e se vê de tal modo enredado numa situação ilógica, que a narrativa aproxima-se (e muito) da descrição de confusos pesadelos.

Mas não distam muito de pesadelos os processos reais que tramitam nos vãos da estrutura pesada, arcaica, burocrática e surreal das instituições zelosas da Justiça, de modo que, por fim, Franz Kafka terá sempre o mérito de ter, no início do século passado, retratado a sociedade de muitos povos, com fidelidade e crueza dignos de alçar sua obra à imortalidade. Fim da citação.

Ah! Finalmente! O homem ficou preso. Que alívio! Estava-se mesmo a ver que ainda era colocado sob outra medida, que transtorno que isso daria!

E agora? A fasquia ficou bem alta. Queremos mais justiça assim!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Estado que não serve

 

Em regra estamos, as pessoas, sempre insatisfeitas! Não é necessariamente mau que assim seja!

É desejável que haja participação, preocupação com o que é comum e com o que, mesmo individual, é parte da comunidade humana que construímos, somos parte e corresponsáveis; e somo-lo em praticamente tudo – mesmo quando o individualismo, alicerçado numa interpretação errónea do “carpem diem” de Horácio, conduz à “satisfação do umbigo” sem haver compromisso com nada! Como é sabido, o poeta latino incita Leuconoe a colher o melhor do dia nas variantes do epicurismo e do estoicismo. Portanto, não é um apelo ao prazer pelo prazer, do hedonismo contemporâneo, mas viver cada momento com disciplina de vida, com a ideia de que apesar do futuro ser incerto é importante procurar a alegria de viver de forma ordenada, racional, que deve evitar tudo o que ponha em causa o prazer das alegrias futuras.

O estoicismo, por mais prazer moderado em que se deseje viver, também tem os seus limites; por mais que prometa a força humana.

É o que acontece, porventura, todos os dias quando os cidadãos procuram os serviços que garantem a existência do organismo a que vulgarmente denominamos por “Estado”.

Alguns serviços não servem! Não servem por natureza nem servem para nada.

Apontemos uma mera ilustração; uma ilustração vivenciada.

O horário da repartição de finanças coincide com a maioria dos horários de outros trabalhadores, apenas, e não é coisa pouca, encerra às 16.30.

Por erro da administração pública, repristinação ou labor legislativo, com datas de entrada em vigor verdadeiramente aberrantes, o cidadão, uma pessoa comum tem de, no caso inspirador da ilustração, devolver uma determinada quantia ao Estado. Os procedimentos são perfeitamente anedóticos: recebe a nota de cobrança em carta registada. Nada o opor a não ser esse pormenor hilariante de, para quem trabalha, o destinatário poder não estar em casa. Ato contínuo, tem uma semana para levantar a “encomenda”, não interessa a distância, a hora, a disponibilidade,… nada! Nada justifica, sem prejuízo agravado, que falhe nessa tarefa a que é totalmente alheio. Mas mesmo assim, sendo alheio ao processo, tem de cumprir ou fazer cumprir, pedir alguém que vá aos “Correios” – afinal, ninguém está cá sozinho, como se aludiu no início deste apontamento: necessitamos de outros!

De notificação na mão, mais uma etapa: a devolução, ou pagamento que seja, tem de ser efetuada presencialmente. (Que obtusidade!? Não há outra via?!) Novo problema! Mais um dia, uma manhã,… mais uma falta ao trabalho, com toda a burocracia que isso implica, sobretudo se for funcionário público, por mais estranho que pareça. Ah! Sem esquecer os prazos, isso é que não, os encargos podem chegar ao mirabolante!

E por fim,… cumprida a missão!

Quem ganha e o que se ganha com esta “neolítica” forma de gerir as coisas na administração pública?!

Aparentemente, com estes entraves todos, as delegações públicas deveriam estar abertas ao domingo num Centro Comercial, por exemplo. Passava-se por lá e resolvia-se estes imbróglios com outra predisposição: “carpem diem”!

É evidente que este Estado não serve, é servido! É mau! Devora e é devorador!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Muros há muitos

 
A 9 de novembro de 1989 houve, um pouco pela rua de cada cidade, a expectativa que uma nova era estaria a começar! A alegria que provinha dos rostos encavalitados da “Vergonha”  em Berlim era o sinal: o mundo poderia derrubar barreiras aparentemente intransponíveis. E durante horas esperava-se por notícias sobre coisas boas.
As Alemanhas fizeram o seu caminho; o Leste reconfigurou-se; o mundo mudou qualquer coisa nos alinhamentos pós II Grande Guerra; o resto permaneceu em mutação, como sempre!
A “agenda” – espreitando a teoria de Maxwell McCombs e Donald Shaw – foi mudando os interesses e os assuntos de interesse, novos olhares foram abertos noutras frentes onde o essencial não muda: o ser humano digladia-se um pouco por todo o lado! Berlim, em 89, apenas permitiu, porventura, outorgar o que “aconselha” Pessoa (Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'):
Cerca de Grandes Muros Quem te Sonhas
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
“Há muros não apenas entre povos e continentes, mas também muito perto de nós e até dentro do coração humano.” (Carta de Taizé 2012-15)






















segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O desenvolvimento que desce

 

Acompanhamos com regularidade o índice de prosperidade (http://prosperity.com/#!/ranking ) que o Legatum Institute (www.li.com) vem apresentando.

No passado dia 3 de novembro pulicou o ranking de 2014, tendo em conta oito fatores: economia, educação, empreendedorismo e oportunidades, governação, saúde, liberdade pessoal, segurança e capital social.

Portugal desceu de 33º em 2012 para 47º lugar no ano passado em Educação, estando agora abaixo de países como a Mongólia, Montenegro, Emirados Árabes Unidos ou Rússia.

Apenas 77% dos portugueses estão satisfeitos com a qualidade da educação e acreditam que as crianças estão a aprender na escola, o valor mais baixo de sempre.

Houve também um declínio na escolarização primária, de 99,2 para 98%, o que indica uma quebra no número de crianças que entram para a escola, apesar de a taxa nacional continuar elevada, e o rádio de professores por aluno aumentou de 10.

Por outro lado, o número de jovens no ensino superior cresceu, e Portugal teve em 2013 uma taxa de 69%, a maior de sempre no país registada pelo índice.

O Índice de Prosperidade compara os níveis de riqueza e bem-estar, cobrindo 96% da população e 99% do Produto Interno Bruto mundial.

Na economia, Portugal é agora o segundo pior classificado na Europa ocidental, atrás da Grécia, na área económica, e está agora atrás de países como Argélia, Colômbia, Marrocos ou Letónia.

Portugal tem também o nono pior valor global de sentimento quanto à existência de oportunidades de trabalho, tendo apenas nove por cento dos inquiridos respondido afirmativamente à questão "Pensa que é uma boa altura para encontrar emprego" - mesmo assim superior à Grécia e Itália (3%) e Espanha (4%).

Por exemplo, apenas 55% dos portugueses mostraram satisfação com a qualidade de vida, inferior à média global de 60%, e caiu de 91% em 2011 para 82% a proporção de pessoas com acesso a comida e abrigo, o valor mais baixo desde sempre.

Embora os portugueses sejam dos povos com maior sentimento elevado de desconfiança em relação às autoridades e empresas (88%), Portugal melhorou nesta categoria e voltou ao top 30 dos países com melhor governação, registando um aumento de pessoas que afirmaram ter apresentado reclamações junto de entidades oficiais.

O nível de confiança na justiça subiu para 33%, mas continua abaixo da média global de 54%, mas a sensação geral é que os portugueses estão mais inquietos com a situação pessoal e do país: 57% confessaram preocupar-se, contra uma média global de 36%.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O valor do tempo

 

Num tempo apressado e sem tempo para nada é frequente aparecerem sugestões, cada vez mais apelativas, para valorizar o tempo. Claro que estão implícitas as ideias de repouso, de dar a cada momento o que é necessário para a sua resolução, sem desgastar o humano; e depreende-se que, dadas as voracidade e velocidade para a realização do que é mais importante, é igualmente expressivo não desperdiçar energias com o irrisório, com o volátil ou, simplesmente, com o que um outro nível de responsabilidade pode resolver. O nosso tempo é o mais importante de todos os outros: em relação ao passado porque somos herdeiros e administrados; no presente porque é preciso dar a resposta agora sem destruir o que ainda existe; porque o futuro só existirá se não consumirmos nem nos esgotarmos no presente.

É com este cenário, e preocupação, que vemos os sinais dos tempos que a nossa comunidade, a sociedade, recria, pasma, anula, antagoniza, renova, implode, garante, multipartidariza, concorda e discorda: somos assim!

O que era certa passou a incerto (trabalho, vencimento, nascer, crescer, discernir,… ser protagonista. E na hora da partida, estar em paz)! Há realidades que se confundiam com valor (social, pessoal, empresarial) que passaram a ser algo estranho, bafiento, “démodé”: “Família”, por exemplo, parece ser um neologismo?! O ritmo de abuso à célula base da sociedade, as suas composições e reestruturação, como em qualquer corpo, estando a célula elementar a ser desestruturada, o tempo é de convulsão! Até na hora do Orçamento de Estado, num dos países com mais acentuada tendência de envelhecimento, de inverno demográfico, os solteiros e sem filhos constatam que os seus encargos fiscais serão menos abrasivos!

Poucos dias passados sobre a “Quinta-feira Negra”, 28 de outubro de 1929, em que de um dia para o outro, o mundo caiu em depressão porque, como vamos acompanhando, perante os valores do tempo, o que era certo ruiu, o incerto dominou o mundo. Na quinta-feira, dia 24 de outubro de 1929, aconteceu o inevitável, foi o “crash” do mercado de ações mais devastador na história dos Estados Unidos, levando em consideração a extensão e a duração das suas consequências, marcou o início de 12 anos da Grande Depressão, que afetou todos os países ocidentais industrializados.

O valor das coisas sucumbiu à perda de valores! Até já nem interessa bem a fundamentação de cada um dos elementares princípios para organizar o grupo, a espécie! O que importa é que cada tempo tenha valores!

Educar custa muito. O ser humano não aprende à primeira!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Qualidade do ar (Aveiro) e falta de verdade (UTMB)

 

Na cidade de Aveiro é cíclico encontrar mecanismos, testes, experiências e, pelo menos há já alguns anos, monitorização contínua da qualidade do ar. Desde há dias que faz-se notar um equipamento para esse fim junto ao Museu de Santa Joana, Museu de Aveiro. Trata-se, no caso, de uma ação que o Instituto de Ambiente e Desenvolvimento (IDAD), unidade de interface com a sociedade da Universidade de Aveiro (UA), está a promover: uma Campanha de Monitorização da Qualidade do Ar em Aveiro, no âmbito da ação “COST TD1105”. A campanha decorre com recurso ao Laboratório Móvel de Qualidade do Ar do IDAD e micro-sensores de várias equipas europeias. Também no âmbito da ação “COST TD 1105” decorreu, na UA, a 14 e 15 deste mês, o seminário “European Network on New Sensing Technologies for Air-Pollution Control and Environmental Sustainability”.

E quanto ao processo estamos tranquilos. A qualidade do ar está a ser monitorizada! Mas isto basta? Não, claro que não! Também queremos saber os resultados, como é que têm evoluído entre recolhas anteriores, medidas públicas que foram tomadas para resolver eventuais situações poluentes,… Isso é que torna importante estes episódios, não é?

Também seria de grande importância aproveitar a ação “COST TD1105” e estender a monitorização (e apresentação de resultados) um pouco mais para o sul do Concelho de Aveiro: está nauseabundo!

Segundo a propaganda da própria Unidade de Tratamento Mecânico e Biológico (www.ersuc.pt), “ é uma unidade industrial onde se efetua um tratamento aos resíduos sólidos urbanos (RSU), tendo em vista a sua separação por fluxos diferenciados, de modo a maximizar a recuperação de materiais recicláveis e valorizáveis.

A receção dos resíduos é feita através de um sistema de dupla porta que garante o confinamento dos odores no seu interior, sendo os RSU depositados em fossas e depois, através de garras montadas em pontes rolantes, encaminhados para o tratamento mecânico onde, através de múltiplas operações unitárias são divididos em vários fluxos: matéria orgânica, recicláveis (cartão, plástico, metais ferrosos e metais não ferrosos), CDR e refugos.

Estas operações são totalmente automáticas, incluem a crivagem dos RSU, abertura de sacos, separação balística, separação de ferrosos, separação de alumínios, separadores óticos por infra vermelhos e a preparação de suspensão orgânica. Os refugos são encaminhados para o Aterro Sanitário de Apoio, os CDR para as unidades de preparação de modo a serem utilizados como fonte de energia, em alternativa aos combustíveis fósseis. Os recicláveis são encaminhados para a indústria recicladora permitindo a sua transformação em matérias-primas para a produção de novos produtos. A matéria orgânica é transformada em suspensão aquosa, posteriormente afinada, através de equipamentos de depuração de onde são retiradas as impurezas (areias, vidro, pedras e outros). Depois de purificada esta suspensão segue para o tratamento biológico que consiste num conjunto de operações sequenciais, das quais se destacam a digestão anaeróbia e posterior valorização energética, a pré compostagem em túneis fechados, a compostagem em meseta e a afinação final, da qual se obtém um produto com propriedades adequadas ao enriquecimento do solo, o composto”

Porque é que por ali se sente que isto não é verdade? E não é só pelo odor….

domingo, 12 de outubro de 2014

Pela sua saúde

 

O jargão (pela sua saúde) funciona como o apelo-limite, a fronteira entre o argumento dos argumentos e a incredulidade. Quando se invoca a saúde, nesta tradicional forma de captar a anuência do interlocutor ou opositor, esgota-se a oportunidade; a parti daqui não há mais nada a dizer, a falar, a garantir como elementar fundamento para o que se defende ou pretende obter.

Porém, ainda há umas tantas preciosidades da atualidade que ajudam a entender o indício deste assunto. Aponte-se, a título de exemplo, quando hoje um utente do SNS (Sistema Nacional de Saúde) tem necessidade de recorrer a uma consulta com o médico de família, para coisas básicas, elementares (análises, receituário, estado gripal, constipação,… e eventualmente comprovativo de doença ou atestado médico para justificar a ausência ao serviço) é uma aventura de horas, burocracias,… teste de paciência levado ao limite! Sim, em outubro de 2014, em Aveiro… não adoeça, “pela sua saúde”!

É no estado limite dos argumentos que nos situamos em muitas coisas deste mundo que nos envolve, rodeia, atrofia. Entre nós… educação? Justiça?... “pela sua saúde”! São estas crises que não nos dão sossego, saúde! Será que não acertamos com nada que nos faça bem!?

No mundo, os casos do ébola estão, para além da dimensão trágica, objetiva, também é notório a displicência na abordagem ao problema na sua génese!… “pela sua saúde”!

Sinais de esperança: a educação!

A educação como sistema e a educação como processo de socialização atingiram o Nobel – mais uma vez, dir-se-á! Certo mas é preciso insistir tanto!... Há cada sentença em algumas cabeças que nada de novo entra! Portanto, “pela sua saúde”, insista, insista-se sempre na Educação.

Kailash Satyarthi (o oitavo indiano a receber este prémio) mostrou grande coragem na luta pela grave exploração infantil; é um dos promotores da Marcha contra o Trabalho Infantil e já resgatou mais de 60 mil crianças forçadas a trabalhar e também adultos mantidos sob regime de escravidão.

Malala Yousafzai, a primeira paquistanesa a ganhar o Nobel da paz, é sobejamente conhecida aos 17 anos. A mensagem desta jovem tronou-se rapidamente universal, depois dos talibã terem atentado contra a sua vida exatamente para a impedir de frequentar a escola: “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.”

Para ganharmos equilíbrio, sanidade, é necessário abrir horizontes, quer geográficos quer de participação cívica, para não acontecer o que constatamos das palavras de Platão (428-347 a.C): “o preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

FAM, Fundo de Apoio Municipal

 

Estamos metidos neste assunto, quer queiramos quer não!

Aparentemente isto pode parecer mais uma daquelas matérias de pouco interesse para as pessoas. É recorrente ouvir-se sobre as questões da gestão pública, de todos nós, “isso é coisa lá dos políticos; eles que se entendam. São todos iguais”.

Discordando em absoluto deste aforismo revelador da qualidade com que estamos no que é público – generalizando, como é evidente – é da máxima importância chamar a atenção para o que está subjacente e vai sobrecarregar os orçamentos familiares.

O Executivo Municipal tomou conhecimento do despacho conjunto n.º 12029-A/2014 do Secretário de Estado da Administração Local, do Secretário de Estado Adjunto e do Orçamento e da Secretária de Estado do Tesouro, publicado no Diário da República de 29 de setembro de 2014, que aprova o pedido de adesão ao apoio transitório de urgência do Município de Aveiro, com a concessão de um empréstimo de 10.526.250€ pela Direção Geral do Tesouro e Finanças (DGTF) e que define todas as condições de financiamento – lê-se no portal da online da Câmara Municipal de Aveiro.

Em síntese, várias Câmaras estão em rutura financeira, à beira do que vulgarmente denominamos bancarrota.

O termo é presumivelmente proveniente do italiano bancarotta ('banco partido'). Na Idade Média, com o aparecimento da burguesia, quem tinha excedente de dinheiro expunha-o num banco no meio da praça para despertar o interesse de quem precisasse dele, daí banqueiro. Quando não se honravam as transações, o banco era feito em pedaços e o próprio era impedido de continuar a exercer qualquer outro negócio.

O Estado (central) com a participação de várias entidades cria um Fundo financeiro para ajudar essas Câmaras, tentando evitar a falência, como aconteceu, por exemplo, em Detroit, nos Estados Unidos. A medida, sendo de recurso, é minimamente aceitável. Porém, a partir dali um Município, um Concelho, passa a ser governado por uma entidade que não foi eleita pelos cidadãos – trata-se de uma oligarquia?!

E se este é o problema de fundo em termos de verdade política, para cada pessoa o problema surge a partir do artigo 23 da Lei (53/2014), como vai a Câmara (de Aveiro, no caso) recuperar financeiramente? A problemática racionalização da despesa (vale quase tudo, apenas ficam os serviços mínimos, para já: despedimentos, revisão de contratos, …) e maximização da receita (IMI, IRS, IUC, …)!

Preparemo-nos para menos serviços e aumento das contribuições, sobretudo para taxas máximas!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Fratria

 

Nas voltas que a vida suscita, patrocina, obriga – sem ter de ser necessariamente por esta ordem nem cadência – encontramos tanta imprevisibilidade, vai-se constatando porque sabe-se desde o ato de nascer, que é altamente improvável que alguém se sinta seguro do desempenho que protagoniza durante mais tempo que o tempo que lhe é confiado. Portanto, a única certeza, a partir do início da função, é saber que vai sair dela (dela, função; dela, vida; dela, tudo o resto). Em suma, estando certos que tudo cessa, a principal missão é fazer o melhor para que prevalece a dignidade em todos os momentos: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, estava vigilante para evitar a intrusão e o dano!

Sobejamente avisados, por maior que seja o barulho da gritaria um facto sucederá a outro, a história seguirá o seu rumo com ajuda dos que fazem e dos que reclamam que fazem. Todos darão o seu contributo quando ao entardecer se chegar a qualquer porto!

E as voltas mais recentes da vida e da vida em Portugal fazem cruzar o pensamento político de Mário Sacramento (editado no volume Fratria) com a nova dinâmica social introduzida pelo movimento do universo político.

Mário Sacramento pensou na nova estrutura social baseada em três níveis, no período pre-homérico. Em primeiro lugar estavam os eupátridas (bem-nascidos), que por serem mais próximos no parentesco do chefe do antigo Genos ficaram com as melhores terras, monopolizaram os equipamentos de guerra e ficaram com todo o poder formando uma aristocracia baseada na terra. Em segundo lugar estavam os georgoi (agricultores), enquadrados em um patamar médio, ficaram com a periferia. E na camada mais baixa da nova sociedade estavam os Thetas (marginais), desprovidos de terras e completamente marginalizados. A nova aristocracia ficou com o poder e era denominada de fratrias, que formavam em grupo as tribos. A união destas tribos fez surgir as cidades-estado chamadas de Pólis. Nos século IX e VIII a.C. surgiram aproximadamente 160 pólis na Grécia, sendo que cada uma possuía seu templo em uma região elevada da cidade, o qual era chamado de Acrópole. Os Basileus eram os governantes da pólis, mas tinham o poder limitado pelos eupátridas. Tentaram dar um golpe para tomar o poder máximo, mas foram impedidos e substituídos pelos Arcondes, que eram indicados anualmente pelo Conselho dos Aristocratas.

Tantas voltas que o mundo deu… E agora tem de pular novamente e avançar!

terça-feira, 29 de julho de 2014

Insolvências

 

Aveiro vai em quinto lugar. Preocupante! Preocupante pelo país (2772 empresas no primeiro semestre) e preocupante por esta região cheia de potencial (6,6% destas empresas estão em Aveiro).

A entrar no período estival, de alguma descontração motivada pelos dias que passam vivos, claros, cheios de luz e sol, um estudo da COSEC (www.cosec.pt) ajudará a refocar os interesses sociais que o dinamismo económico e as suas consequências impactam na vida dos cidadãos, das pessoas. É uma sugestão de leitura, uma leitura com várias leituras. Estes números mostram pessoas, famílias.

A COSEC procede, diariamente, à consulta da Parte D da 2ª Série do Diário da República e ao registo informático, de todos os Atos dos Tribunais, do Ministério Público e dos respetivos Conselhos Superiores relativos a todas as entidades que sejam Pessoa Coletiva ou Empresário em Nome Individual. Em termos de tratamento da informação, e no que às situações de Insolvência diz respeito, é registada e sistematizada a “Sentença de Declaração da Insolvência”.

As Microempresas continuam a ser as mais afetadas, representando cerca de 68% das insolvências registadas. 26% do total das empresas insolventes são do sector da Construção e 20% do sector de Serviços.

A insolvência é uma situação em que o devedor tem prestações a cumprir superiores aos rendimentos que recebe. Portanto um insolvente não consegue cumprir as suas obrigações (pagamentos). Uma pessoa ou empresa insolvente poderá no final de um processo ser declarada em definitivamente insolvente, em falência ou em recuperação.

As pessoas em conversa coloquial costumam confundir os termos insolvência e falência. Estas palavras têm significados económicos e jurídicos distintos, sendo que falência é um estado em que o devedor é responsável por mais dívidas do que os bens que possui. Uma empresa ou pessoa falida não estão automaticamente insolventes e vice-versa.

Para completar esta nota antes da interrupção de férias do “Correio do Vouga”, sublinhe-se que o portal das insolvências (www.insolvencia.pt) tem por missão prestar informação e esclarecimentos sobre os processos em causa, reestruturação e hipóteses de recuperação.

Uma leitura com várias leituras, de facto.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Limites da (in)competência

 

O caso do dia é a prova dos professores.

Pensemos a circunstância com objetividade. Garantido o direito de acesso à educação para todos, para bem do país, para o seu desenvolvimento cultural e científico com consequências diretas em todas as outras áreas (económica, financeira, bem estar,… o que será de um país sem médicos, engenheiros, arquitetos,… profissionais qualificados!?), foi necessário aumentar a quantidade e melhorar a qualidade da preparação dos professores. Por isso, foram criados cursos via ensino nas universidades. Estava avalizada a qualidade dos docentes.

O que é que alterou este horizonte? Três domínios macro:

- não houve um plano (ou faltou coragem para ser aplicado) para evitar que a oferta viesse a ser maior que a procura. Com a curva descendente da natalidade de forma abrupta, o número de professores passou a ser elevado;

- depois surgem medidas de política educativa que continuam a fazer oscilar e a cair em ritmo acelerado de experimentação desmedida o currículo: à criação de mais disciplinas ou áreas curriculares não disciplinares e à escola com outras valências fundamentais (pré-escolar, inglês, expressões, informática,…), que implicaram mais docentes no sistema de ensino, mais qualidade, contrapôs-se a extinção e uns minutos de malabarista;

- surge a necessidade de cortar nos gastos…não se atacaram os gastos sumptuosos à vista nas Parcerias Público-Privadas, nas rendas de duvidosa transparência, os disparates e dislates bancários. E, o que aconteceu, cortou-se nos que menos podem (educação, reformados, saúde,…).

Ou seja, emagreceu-se o currículo, despediram-se professores, aumentou-se o número de alunos por turma, o suficiente para retirar a possibilidade a muitos de aspiraram à carreira docente. Portanto, já não é necessário mais nenhum atropelo, não havendo horários para a docência nas escolas não há professores a mais. Mas isto não bastou!

Foi criada uma aberração casmurra: uma prova! Uma prova que não serve para nada. O sistema já não consegue, como referimos, receber mais ninguém. Portanto, dá a ideia de ser, até pelos custos de inscrição na mesma, uma medida do género da taxa sobre os sacos plástico, mais uma fonte de receita para o Estado. Ridículo. Limite da (in)competência

Sempre que um professor ou uma professora se expõem na luta pela dignidade do sistema e políticas educativas está a lutar por melhor educação, pela melhoria do processo ensino-aprendizagem.

O professor é o último reduto de equilíbrio social e dos primeiros na vanguarda para o desenvolvimento de melhores condições de vida. O primeiro será, naturalmente, a base da proficiência, a família. Mas, depois, quem acompanha, faz suscitar, ajuda a desenvolver essa proficiência é o professor. Este laço fontal foi quebrado por um conjunto de agressões (políticas educativas) que fez crer que a escola passou de substantivo a adjetivo, isto é, de sebenta (com origem no particípio presente ‘sapiente’ de onde deriva ‘sabença’ ,‘sapientia’) para sebenta (imundo, sujo, sebento). Sem recursos, sem meios, sem condições o que é se espera?

É triste tudo isto mas “quem não sente não é filho de boa gente”! E os professores eram das profissões que mais confiança transmitiam; ajudavam a arrumar as ideias, a pensar, a ser! Portanto, para alguns “campos ideológicos dos corredores do poder” (pouco recomendável) uma frente de batalha que interessa dispersar, dominar, diminuir.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Lições de um Mundial: até parece que há vida!

 

A concluir a vigésima edição do campeonato do mundo de futebol entre seleções ou Taça do Mundo FIFA, genericamente designado por “Mundial de Futebol”, depreendem-se dados (curiosidades, porventura) já clássicos e emergem outros que ajudarão a redimensionar a compreensão do fenómeno futebol. O futebol nesta grandeza é algo que supera muitos modelos orgânicos e organizacionais, quase que se pode afirmar, com pouca margem de erro mas, com toda a certeza, abrindo espaço à discordância e exposição crítica, não há nada que se assemelhe a nível planetário.

O jogo em si mesmo não tem nada de especial. Vinte e dois indivíduos a correr atrás de uma bola, chutando-a de um lado para o outro, através de pequenas habilidades pessoais e combinações prévias ou fortuitas, com o objetivo de a fazer ultrapassar e evitar que ultrapasse uma determinada linha delimitada na sua extensão e altura. Lá pelo meio e à volta seguem os juízes. Têm um papel secundaríssimo para o jogo em si mas podem mudar a história de um momento para o outro sem que nada lhes aconteça (a não ser ficar na história por motivos pouco abonatórios).

Então, o que faz isto extraordinário?

Desde o início do futebol, o que se mantém, nota-se e amplia-se a escalada da projeção emocional sobre cada pormenor, sobre cada movimento, elevada à superação de cada interveniente e do coletivo sobre o antagonista. Ou seja, há algo de primitivo na glorificação que o humano concede a si próprio na criação de adversidades e adversários para os poder vencer e gloriar-se! (Os grandes felinos – também - preferem caçar as vítimas em corrida!?)

Depois veio o mediatismo que concentrou e concentra ainda mais os sentidos sobre o momento.

Exponenciou-se a tecnologia para valorizar o que os sentidos não captam.

E a tudo isto adicionou-se valor em dinheiro! A cereja no topo do bolo.

Não há nada no mundo com o mesmo impacto simultâneo. Nenhuma outra ação humana aglutina a força dos símbolos nacionais (a cor, a bandeira, o hino), a comunicação, a agitação social, o contraste de sentimentos antagónicos (alegria e tristeza), a alienação nutrida pelo próximo embate, sentimento coletivo… e tanto movimento económico-financeiro!

O Mundial de Futebol é também um Estado supra Estados. Chega, impõe as regras, provoca mudanças radicais em todas as áreas de mobilização (redes de toda a natureza) e edificação social (estádios, hotéis, acessos,… jardins) e depois ficam os destroços! Terminou, partiram. Para trás fica tudo como antes e pior que isso.

Há rostos sem responsabilidade de nada - os presidentes das entidades do futebol são uma espécie de relações públicas sem conhecimento e responsabilidade de nada. Tudo acontece, tudo passa, eles permanecem intocáveis.

Porém, quando acaba um Mundial, o mundo como que sai de um estado de letargia para voltar ao normal!

Depois do Mundial de Futebol até parece que há vida, não é?

Ah! Portugal fez história nos Europeus de canoagem! Conseguiu o seu melhor desempenho de sempre em Europeus de canoagem de pista, com seis medalhas. E Emanuel Silva e João Ribeiro juntaram, no passado domingo, o título Europeu ao Mundial conquistado em 2013!

Que coisa estranha que se entranha e mexe com as pessoas!

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Só, na precariedade

 

O seminário “Migrações. Que Perspetivas?, organizado em parceria com a associação portuguesa Mulher Migrante, enquadrado num ciclo de colóquios sobre a temática "O 25 de abril e a liberdade de emigrar", iniciada em abril no Palácio das Necessidades, em Lisboa, e que já passou pela Universidade de Berkeley, na Califórnia, pela Universidade Aberta, em Lisboa, chegou esta semana a Paris devendo continuar até outubro em instituições portuguesas e estrangeiras.

Na Universidade Sorbonne, sobre a nova diáspora portuguesa, Isabelle de Oliveira, diretora da Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas da Sorbonne, apontou "uma nova diáspora no limiar da precariedade, em condições péssimas", em que praticamente todas as semanas recebe doutorandos ou doutorados que vêm bater à porta do seu gabinete para pedir ajuda. Este é o novo rosto da emigração portuguesa. Na emigração dos anos 60 e 70 ainda havia um espírito de solidariedade. Neste momento, essa solidariedade acaba um bocadinho por se atenuar".

O colóquio aconteceu uma semana depois de o Instituto Nacional de Estatística ter revelado que Portugal perdeu quase 60 mil habitantes em 2013 por causa do aumento do número de portugueses a emigrar e da redução de nascimentos.

Este isolamento, provocado por diversas causas mas que se acentua com a diminuição de valores fundamentais da convivência entre os humanos, como a solidariedade, remete-nos, inspira-nos um certo revivalismo, a revisitação da única obra publicada em vida por António Nobre (Só, Paris 1892), as influências e o modernismo português de há um século. E, consequentemente, mergulha-nos no paralelismo asfixiante.

O modernismo em Portugal desenvolveu-se aproximadamente desde o início do século XX até ao final do Estado Novo, já por 70.

O Modernismo Português ocorreu num momento em que o panorama mundial estava muito conturbado, de maneira particular entre a Revolução Russa de 1917 e a Primeira Guerra Mundial de 1914-18. Em Portugal dá-se a implantação e lenta implementação da República.

Este período foi difícil, porque, com a guerra, estavam em jogo as colónias africanas que eram cobiçadas pelas grandes potências desde o final do século XIX. O marco inicial do Modernismo em Portugal foi a publicação da revista Orpheu, em 1915, influenciada pelas grandes correntes estéticas europeias, como o Futurismo, o Expressionismo, etc., reunindo Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros, entre outros.

A sociedade portuguesa vivia uma situação de crise aguda e de desagregação de valores. Os modernistas portugueses respondem a esse momento, deixando atrás o acanhado meio cultural português, entregando-se à vertigem das sensações da vida moderna, da velocidade, da técnica, das máquinas. Era preciso esquecer o passado, comprometer-se com a nova realidade e interpretá-la cada um a seu modo. Nas páginas da revista Orpheu, esta geração publicou uma poesia complexa, de difícil acesso, que causou um grande escândalo naquela época. Mas a revista Orpheu teve uma curta duração publicando-se apenas um número mais e não tornaram a haver novas edições da mesma.

São características de estilo deste movimento: o rompimento com o passado, o carácter anárquico, o sentido demolidor e irreverente, o nacionalismo com múltiplas facetas - o nacionalismo crítico, que retoma o nacionalismo em uma postura crítica, irónica e questiona a situação social e cultural do país, e o nacionalismo ufanista (conservador), ligado principalmente às posturas da extrema-direita.

O tempo de precariedade exige esperança solidária que não deixe cair cada um e cada uma num calvário de solidão.

“Moços do meu paiz! vereis então
O que é esta vida, o que é que vos espera...
Toda uma Sexta-feira de Paixão!” (António Nobre)

terça-feira, 1 de julho de 2014

Os ridículos do mundial

 

Os Ridículos é título de bissemanário humorístico, começado a publicar-se em Lisboa, em 1895. Foi seu diretor Cruz Moreira, que, dois anos depois, viria a ser substituído por “Antonito”, outro humorista muito popular. Do seu programa, “praxe da imprensa alfacinha” que não queria evitar, ficamos logo a saber ao que vinha o jornal: “A nossa missão é ridicularizar, apepinar, troçar a humanidade em geral, e os políticos em particular. Não nos movem ódios, nem malquerenças, nem é nosso intento ferir, ou molestar as suscetibilidades de alguém”, esclarecia na sua edição de 3 de Outubro, a primeira. Apesar do entusiasmo inicial, o jornal foi suspenso em 1898, devido à forte concorrência entre os jornais humorísticos e ao elevado analfabetismo existente no país.

Oito anos depois, em 1905, é retomada a publicação e, juntamente com Eduardo Fernandes, reeditam Os Ridículos, aproveitando a oportunidade que lhes oferecia a efervescência política que precedeu a implantação da República. A partir de 1906, o jornal conhece então uma fase de grande desenvolvimento, enveredando pela crítica política e social e pela sátira aos acontecimentos dominantes da época. Os seus jocosos comentários granjearam-lhe uma popularidade e expansão que se manteria praticamente até ao fim do jornal, em 1974, sendo, um dos mais importantes e duradouros títulos humorísticos publicados em Portugal.

Em 2014, sem publicação mas com muita publicitação, dá-se mais uma epopeia de ridículos – não está inerente o caráter ou as pessoas, trata-se unicamente de uma abordagem sobre os acontecimentos que são dignos de riso – com a participação portuguesa no mundial de futebol no Brasil.

Os (acontecimentos) ridículos da seleção portuguesa são dignos de extensa lista. Mencionamos apenas alguns, os que foram publicados na imprensa, na comunicação em massa.

O improviso português na planificação tentando sempre, até ao dia que não o é, contrariar o princípio de Peter (ou princípio da incompetência de Peter, ou simplesmente princípio da incompetência: num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência) e a lei de Murphy (se alguma coisa pode correr mal corre mesmo), triunfou em larga escala nesta tragédia: lugares de estágio, lesões, desarticulação de discursos, arrogância de protagonistas, cabeçadas, expulsões… tudo!

Metade dos golos “marcados” por Portugal foram na própria baliza, autogolos do adversário!

Recorde mundial – ironia não fundamentada! – de utilização de jogadores num campeonato do mundo. Dos 23 da comitiva só dois não entraram em campo!

Eliminação ao segundo jogo. As justificações dadas por diretores, médicos, técnicos, jogadores, antes do terceiro jogo até no tempo verbal usado apontavam para a descrença absoluta.

Vedetismo, tatuagens e penteados!

Relação com as pessoas que acolheram, apoiaram, estavam na rua horas e horas à espera. Nunca houve espontaneidade. Foi tudo muito rebuscado, de semblante carregado – a não ser que desse dinheiro, imagem, que alimentasse o ego de alguém! Pouca atenção aos pormenores.

Ignorância total sobre o uso de símbolos nacionais. Hoje que joga futebol numa seleção nacional tem de ter um grau de literacia em semiótica de topo mundial. Não no mundo ocidental algo tão profundamente representativo do querer de um povo que uma alegria coletiva que uma seleção de futebol pode dar. Mais nenhum desporto é tão transversal, tão nivelador de classes. Sob aqueles símbolos está mais do que “uma equipa”. O futebol de seleções, mesmo que exacerbadamente industrializado, é uma identidade!

Prémio de 800 euros por dia! Pelo menos façam como os gregos, deem o dinheiro para fazer algo pelo futebol, por solidariedade!

Por fim, a chegada. A chegada, que ridículo. Vedetas mimadas e sem paciência para dar um pequeno sinal de esperança a quem acredita na identidade-entidade-seleção nacional! Mais do mesmo.

Tinham tudo para correr mal!

Ridícula figura!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Condenados à pobreza?

É difícil percecionar a resposta que cada um de nós, cada português, dará quando olha para o horizonte e para o imediato das suas responsabilidades. Porém, pelos frutos se conhecerá a árvore – dir-se-á. No caso, recorrendo às virtudes do aforismo, há pouco fruto mas a árvore, a floresta que é o todo nacional, não é má. Portanto, não podemos assumir uma conclusão linear.
Vejamos. É lugar-comum que os portugueses são, por esse mundo fora, um povo dedicado, trabalhador. Às vezes cai-se, até, no campo da classificação, simpática mas pouco abonatória, de um “humilde” e trabalhador. Claro que a pouca simpatia pela classificação está no que se entende por isso (humilde) e no que se quer com isso (resignado, sem capacidade para ousar e ir mais longe, etc.). Por outro lado, os portugueses que se espalham pelo mundo têm globalmente um antagonismo crónico – como terão os emigrantes do mundo inteiro: são estrangeiros noutras paragens (cidadãos que estão vulneráveis porque precisam) e têm de aceitar o que existe partindo do princípio que é melhor do que Portugal lhes poderia oferecer.
Nos últimos anos, a situação alterou-se significativamente, como e sabido. Portugueses, genericamente mais preparados academicamente do que nunca, saem de Portugal. São ótimos profissionais e cidadãos com grande capacidade de trabalho e integração social.
Então, o que há em comum, transversal a todas as gerações?
Primeiro, para vingar na vida, têm de sair.
Segundo, todos demonstram que Portugal não responde aos seus anseios.
Com isto, o país fica cada vez pobre – perde recursos humanos fundamentais, desertifica-se. Não havendo pessoas estamos, logo à partida, mais pobres. Depois, com isso, tudo o resto é consequência.
Como inverter a situação?
Reorganizar a educação em Portugal. O sistema educativo, o currículo, os cursos e a forma como preparamos os jovens para a vida não estão a capacitar para o empreendedorismo, para combater a ideia e a prática de que o país não dá, não faz nada pelos seus filhos. A Educação em Portugal tem de ser orientada para as ciências humanas e sociais, para a capacitação de competências para que cada cidadão seja mais autónomo, ter capacidade para fazer cá dentro o que é capaz de empreender lá fora.
Novas parceiras no ensino superior que passarão seguramente por quadros de proximidade e estratégias para o desenvolvimento dos melhores recursos do país, em todos os setores, incluindo o primário, claro!
Já não conseguiremos – porventura?! - mudar para melhor os que estão no ativo?! Prepare-se um plano estratégico que mude as mentalidades, a cultura do despesismo, a dependência da máquina do Estado, daquilo que os outros podem fazer por nós em favor do que podemos fazer por nós próprios e, em consequência, recorrendo a JF Kennedy, o que faremos pelo país. Preparar um Estado forte com cidadãos empreendedores, autónomos, pragmaticamente visionários e profissionalmente como somos, globalmente, cada um de nós. Mas é preciso agir mais e reagir menos.
A pobreza combate-se com mais pessoas a eliminá-la!
Portugal é suficientemente grande para tão pouco.
NOTA POSTERIOR, d’ O Observador
Numa escala de um a 10, o estudo avalia individualmente os 41 países da OCDE com base em três pilares: o desempenho das políticas – económicas, sociais e ambientais -, a qualidade do sistema democrático e a capacidade do Governo para executar reformas. Segundo Daniel Schraad-Tischler, a educação foi o setor mais prejudicado em Portugal ao longo dos últimos três anos.
“Os orçamentos das escolas e das universidades caíram, as propinas aumentaram, perderam-se professores e, desta forma, a qualidade da educação piora de ano para ano”, sustenta o investigador, sublinhando que “cortar na educação, que é uma área em que se deve investir por ser voltada para o futuro, é um erro”.
De facto, Portugal foi avaliado apenas com 4,1 no desempenho do setor da Educação, a nota mais baixa de toda a União Europeia – só a Grécia teve a mesma cotação. Os restantes países do sul tiveram todos uma nota superior.













quarta-feira, 4 de junho de 2014

O trono e a tribuna

 

O trono (de Espanha) e a tribuna (em Portugal) reclamam mudança!

O “terramoto” – epíteto de vários comentadores e protagonistas políticas atribuído aos resultados inesperados das recentes eleições para o Parlamento Europeu – o “terramoto”, direta ou indiretamente, continua a provocar ondas de choque.

O caso de Espanha, a abdicação do Rei Juan Carlos, é uma alusão indireta. Porém, já provocou o ressurgir da divisão entre os espanhóis quanto à continuidade da Monarquia ou referendar a implementação da República.

A incidência direta, das ondas de choque, repercute-se nos vários países europeus. A França foi o berço da expressão, logo na noite eleitoral: “é mais do que um aviso, é um choque, um terramoto”, disse o primeiro-ministro francês Manuel Valls.

Do outro lado do Canal da Mancha outros fantasmas. O terramoto UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) nas eleições europeias mudou o tabuleiro político britânico. O partido eurocético thatcherista e anti-imigração, liderado por Nigel Farage ficou em primeiro lugar com 27,50% dos votos, deslocando a oposição trabalhista para um segundo lugar e os conservadores do primeiro-ministro David Cameron para o terceiro posto.

Pela primeira vez na história política moderna um partido, que não seja o conservador ou o trabalhista, ganha uma eleição nacional.

A extrema-direita vê reforçada a presença no Parlamento Europeu com a vitória dos partidos de extrema-direita em França e na Dinamarca e a eleição de um deputado neonazi na Alemanha e dois na Grécia. Sempre lá estiveram, mas agora ganharam força. As vitórias da Frente Nacional, do Partido Popular Dinamarquês e do UKIP, o terceiro lugar da Aurora Dourada e o segundo lugar do Jobbik vêm dar um novo cunho ao Parlamento Europeu que vê aumentar em muito o número de representantes da extrema-direita no hemiciclo (46, segundo as contas do Observador – um aumento de 20% em relação a 2009). Na Alemanha, os eurocéticos ganharam sete lugares, enquanto o Syriza na Grécia consegue eleger sete eurodeputados. O Observador previu os resultados e agora dá conta dos votos – comenta o Observador, jornal diário online, independente e livre.

Em Portugal, bem, em Portugal o caso é “sui generis” – como sempre! Fazemos as coisas de outra maneira. Os perdedores das eleições viram o caso como um mal menor, dada a tangencial nos resultados. Os ganhadores, em valores absolutos, como já aludimos no último número do Correio do Vouga, … mais uma vitória destas e a coisa estremecia, recordando as pelejas Pirro. Não foi preciso chegar a tanto, isto é, a mais uma vitória. Esta foi mesmo a última.

Mas o que pode um líder fazer quando acaba de ganhar? Normalmente, aconselha-se a moderação na vitória!

Por outras palavras, chamando à liça o “Crepúsculo dos ídolos”, de Nietzsche, não reagir às emoções. Porque uma reação forte conduz a desperdício de forças que mais transparece fraqueza.

E o individuo não gosta de um líder, mesmo que não o seja, que aparente fraqueza. Aliás, mesmo o fundador de uma religião, continua Nietzsche, está muito longe de dever necessariamente possuir uma imensa força – o seu papel é simplesmente o de um estímulo casual que dispara forças acumuladas, as quais, no entanto, cedo ou tarde haverão de explodir a atrair adesão. Quem o considera grande ou lhe atribui imensas forças confunde a faísca com o explosivo. Até podem terem sido ‘pessoas insignificantes’; mas a força estava acumulada e pronta para a explosão! Nessas condições, um estímulo casual que pode ser em si mesmo insignificante também conduz necessariamente a “grandes disparos de energia”.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Uma Europa pírrica

 
No rescaldo das eleições europeias, o Dr Mário Soares considerou os resultados (do Partido Socialista, presume-se) uma “vitória de Pirro”.
É uma observação clássica que nos remete para a antiguidade, para uma Era que pode inspirar o próximo futuro.
Olhando para esse tempo de abertura dos pilares das portas da Europa que somos, não deixa de ser extremamente pertinente recordar esta construção de construções. Os passos dados, os passos perdidos e até os “Passos” que, em Portugal, continuam a ver a causa pública como bando de malfeitores que importa castigar – como não sendo importante aprofundar a quem delegamos o poder de governar as nossas vidas?!
Pirro (318 a.C. — 272 a.C.), cujo nome provem do grego "cor de fogo", "ruivo", foi rei do Épiro e da Macedónia, tendo ficado famoso por ter sido um dos principais opositores a Roma. E era filho de Eácida do Épiro, e pai de Alexandre II do Épiro.
A infância e juventude de Pirro foram bastante atribuladas. Tinha apenas dois anos de idade quando o seu pai foi destronado. Mais tarde, aos 17 anos de idade, os Epirotas chamaram-no para governar, mas Pirro acabou por ser destronado novamente. Nas guerras entre os diádocos, após a divisão do Império de Alexandre III, tomou parte pelo seu cunhado Demétrio I da Macedónia e lutou a seu lado na Batalha de Ipso (301 a.C.). Mais tarde, tornou-se refém de Ptolomeu I do Egipto, num acordo entre este e Demétrio. Pirro casou com Antígona, filha de Ptolomeu I. Em 297 a.C. restaurou o seu reino no Épiro. De seguida, declarou guerra a Demétrio, seu antigo aliado. Em 286 a.C. depôs o seu cunhado e tomou o controlo do reino da Macedónia. Dois anos depois, porém, o seu ex-aliado Lisímaco expulsou-o da Macedónia.
Na idade adulta atacou Roma, com as campanhas militares na Sicília e norte de África.
Para obter marinheiros e soldados, chegou a agir, em vez de habilidade e brandura, com excessivo rigor, compelindo moradores e castigando com severidade os que não obedeciam às suas ordens. Adquiriu, em consequência de sua severidade, a reputação de homem ingrato e pérfido. Entretanto, por mais descontentes que os povos por onde passava estivessem, cediam à necessidade e forneciam-lhe tudo aquilo que lhes era exigido.
Por ter sido um homem impressionantemente belicoso e um líder infatigável, embora não tivesse sido um rei propriamente sábio, Pirro foi considerado um dos melhores generais militares do seu tempo. Aníbal considerou-o o segundo melhor, a seguir a Alexandre Magno. Como general, as maiores fraquezas políticas de Pirro eram a falta de concentração e apetência para esbanjar dinheiro (grande parte dos seus soldados eram dispendiosos mercenários).
O seu nome tornou-se famoso pela expressão "Vitória Pírrica". Aquando da vitória na Batalha de Ásculo deram-lhe os parabéns pela vitória conseguida a custo, diz-se que respondeu com estas palavras: "Mais uma vitória como esta, e estou perdido."
Na Europa de 2014 notam-se acentuadas e preocupantes semelhanças?!
E o futuro dirá onde estamos no presente.










terça-feira, 20 de maio de 2014

O “casamento” europeu

 

A Europa é um caldo de culturas? Uma União de diversidades? Cada um por si?

Em 2013, num artigo para Revista Lusófona de Estudos Culturais, Eduardo Lourenço ajuda a colocar o acento tónico na Europa como continente atual ou do passado. [http://estudosculturais.com/revistalusofona/index.php/rlec/article/view/3/28, consultado em 2014.05.20]

A filiação da Europa contemporânea em três matrizes possíveis (mitológicas e políticas): a matriz grega da filosofia e da democracia, a raiz judaico-cristã e a ciência. Porém, aparentemente nenhuma delas apresenta uma dimensão consensual, enquanto definidora da Europa. Não admira pois que, hoje, a Europa viva um niilismo subtil e uma espécie de reflexo masoquista. Este ensaio discute também a dificuldade em que a razão europeia vive a partir da filosofia grega, ao introduzir um questionamento radical que abala a verdade mítica, instituindo um discurso quase sempre problemático e até dramático. Esta falta de coerência interna também se repercute na forma como o Estado e o Poder foram pensados a partir da matriz judaico-cristã. Realizando hoje o quanto a Europa foi perdendo a sua centralidade.

A Europa pode hoje ser vista como tendo três matrizes. Quando, recentemente, na Comunidade Europeia se quis institucionalizar uma espécie de discurso europeu para europeus e para o mundo fora dele, procuraram-se as raízes da Europa. Começou por se considerar que a referência grega era incontornável. Foi precisamente aí que a Razão surgiu, enquanto modalidade de discurso que compreende o mundo, reconhecendo-se que, fora dela, todas as outras compreensões pertencem ao domínio do irracional, do sonho ou do inconsciente. Outra raiz seria a raiz judaico-cristã, um par, ele próprio, também problemático e até dilemático. E, finalmente, a terceira, naturalmente, a da ciência.

Nenhuma destas dimensões da cultura europeia foi aceite como fundadora de uma possível identidade europeia. Isto parece um paradoxo, mas revela o quanto a cultura europeia foi progressivamente ficando no vazio aniquilador. Recusa rever-se em qualquer discurso que reflita aquilo que nós pensamos ser a essência da cultura europeia.

A Europa, e não apenas ela mas também a humanidade como um todo, está sempre em mudança contínua. Uma das características da História europeia é a capacidade que ela tem de se reciclar continuamente. Recicla-se na Idade Média em função de um certo conhecimento da filosofia grega, com Platão e Aristóteles. Mas conhecerá um segundo nascimento pela mão dos descobridores portugueses. Nós fomos, de algum modo, os agentes desse segundo nascimento. Os descobrimentos portugueses (e depois os espanhóis, os franceses, os ingleses etc.), ao promoverem o encontro com o Novo Continente estabeleceram enfim a Europa numa diferença. A Europa passa a ser o Velho o Continente, ao encontrarmos um mundo ainda não conhecido e sem inscrição para nós, portanto ainda sem leitura.

Foi nesta segunda Europa pós-descobrimentos que nós, europeus, começamos a ter uma identidade que não tínhamos, quando eramos apenas nações com uma certa coerência de herança grega, latina, etc., pois a partir de então passámos a ser vistos de fora pela primeira vez.

E visto de fora, mas também vistos de dentro, inspirados na problematização de Eduardo Lourenço, tendo em consideração que no próximo domingo, dia 25 de maio, a União Europeia vai a votos, que Europa queremos ser?

A União, mesmo que subjetivamente, está criada. É uma união de direito. Mas será uma União de facto?

Ainda é possível se não ficarmos convencidos que outros virão resolver os nossos problemas e nos mobilizemos para as melhores opções! E essas são a da solidariedade, da igualdade, da fraternidade,… estamos de novo – afirma o ensaísta - num momento de reciclagem, como já vivemos outros no passado, mas desta vez vivemo-lo como uma espécie de velhice precoce e já estamos doentes dessa relativa fraqueza. De qualquer modo podemos sempre reciclar-nos, porque este é o continente do Platão, de São Tomaz de Aquino, das catedrais e de Galileu.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Carta aberta ao ex-meu Banco

 

Banco,

Em tempos cheguei a dirigir-me para as instalações de V/ Exª com multiplicado entusiasmo e expetativa.

O Banco não era qualquer coisa, era o “meu” Banco! Poucas instituições recebiam este epíteto. Não era pela presunção dominante, possuidora, tratava-se de uma pessoa (comercial, claro) que inspirava confiança! Ao Banco, na simpatia do acolhimento, na proximidade do trato, entregava-se o produto de passado e as garantias de futuro! O cliente tinha nome, era bem-vindo! A escolha do Banco até ficava condicionada as estes aspetos menos utilitários.

Ir ao Banco era essencialmente para adicionar valor – quantos sentimentos, quanta satisfação, eram depositados com aquele pequeno ou grande, periódico ou ocasional, pecúlio!?

Cheguei a receber uma mensagem no aniversário e, na adversidade ou na necessidade, ali estava o “meu” Banco, com o meu dinheiro!

Propuseram-me produtos que me faziam duplicar o investimento e eu recusei. Aquilo não podia ser bom negócio. Só quem não conhece o custo do trabalho e o valor das coisas, a honestidade, é que podia enveredar por riqueza tão célere.

Lá aceitei o cartão de crédito, para uma emergência – mas qual emergência? Aceitei umas viagens, e mais um conjunto de bens essenciais para os tempos que se avizinhavam a grande velocidade, tudo a crédito – o juro que tinha de pagar era baixo, mitigado, evitava gastar as minhas poupanças!

O tempo mudou! Diz-se que evoluímos. Chegaram os tempos modernos.

O que tinha direito, pensava, deixou de ser. O Banco já não tem vida, tem autómatos e máquinas que desconheço.

O balcão foi derrubado – como é que posso ir ao “balcão” onde já não existe? – surgiram aqueles atendimentos intimistas e intimidantes, conversas sussurradas com quem não conheço e que também não me conhece!

Tudo para poupar, para evitar despesas supérfluas! Cheguei a acreditar que era verdade!

Deixei de receber cartas, deixei de receber o extrato,… passei a ser um encargo! Surgiram taxas por todo o lado, manutenção de conta, custos indiferenciados! Manutenção de conta?! - Isto é que é de bradar! E tudo isto, diz-se, porque movimento poucos montantes!? Não é pouco, é tudo o que tenho! E foi este pouco-a-pouco que, em tempos, fizeram de Vª Exª grande! Estarei enganado?

O Banco já não é “meu”! Agora é de um grupo anónimo, distante, que não me diz nada!

Entrava confiante, com aquele ar de não dever nada a ninguém, agora sinto-me envergonhado. Até já ouvi propor que todos os meus movimentos bancários, sobretudo os levantamentos, sejam tabelados?! Parece surreal, algo louco.

Afinal, todos os cortes nos meus (supostos) direitos e serviços mais não foi que um aumento de lucros!

Lamento!

Chegou a agora de acertar as contas! Vou retirar os meus parcos valores daí. É o primeiro passo. Posteriormente, quanto ao que já devo, numa próxima correspondência, vou comunicar pelas vias que Vª Exª usa comigo, um corte unilateral nos juros que me impôs. Pagarei honestamente quanto devo, com um juro razoável.

É a vida! O meu patrão também cortou no meu salário e eu tenho de sobreviver!

PS: e se a ficção fosse materializada?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Limpinho… como na bola!

 

Tornou-se – limpinho - célebre na boca do treinador do Benfica, Jorge Jesus, quando há sensivelmente um ano, em abril de 2013, os “encarnados” ganharam ao Sporting deixando no ar a perspetiva de poderem conquistar o título nacional de futebol. Jorge Jesus reconheceu que o Sporting "esteve melhor organizado taticamente", mas "o Benfica fez a diferença", no dérbi no Estádio da Luz. O técnico encarnado rejeitou críticas quanto à arbitragem de João Capela, sublinhando que "o Benfica ganhou limpinho".

A este comentário ripostou Vítor Pereira "ainda é possível revalidar o título", desde que o campeonato seja decidido dentro das quatro linhas e não por fatores exteriores. Crítico em relação às arbitragens, o técnico portista sublinhou que "os três penáltis" do Benfica-Sporting "não podem ser branqueados" e contestou a qualificação de triunfo "limpinho, limpinho" dada por Jorge Jesus.

Na verdade, o Benfica acabou por perder tudo nessa época em pouco mais de uma semana, tendo o FC Porto ganhado o campeonato ironizando com um título “limpinho, limpinho”.

Se há coisas que não restam dúvidas a ninguém, no futebol poucas vitórias são limpas – direta ou indiretamente!

O Governo de Portugal, influenciado por esta convicção – só pode ser!? – declara que as finanças do país vão ficar libertas de qualquer espartilho dos credores, sobretudo depois da (suposta) saída do Programa da Troika, um saída limpa! Limpa?!

Pensemos com seriedade, diga-se a verdade!

De acordo com o 'Economic Outlook' da OCDE, divulgado na terça-feira, dia 6 de maio, a dívida pública portuguesa, segundo os critérios de Maastricht, deverá atingir os 130,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e voltar a subir em 2015, para os 131,8%.

Esta previsão contraria o otimismo do Governo, que espera que a trajetória em alta da dívida pública comece a inverter-se em 2015: no Documento de Estratégia Orçamental (DEO), divulgado na semana passada, o Executivo previa que, depois de chegar aos 129% do PIB em 2013, a dívida pública atingisse os 130,2% em 2014, recuando para os 128,7% no próximo ano.limpinho

A OCDE estima que o índice harmonizado dos preços ao consumidor (HIPC) recue 0,3% em 2014 e que aumente 0,4% em 2015.

Quanto ao défice orçamental, a OCDE estima que "as metas do défice [orçamental] de 4% e 2,5% acordadas com a 'troika' [Fundo Monetário Orçamental, Comissão Europeia e Banco Central Europeu] para 2014 e 2015, respetivamente, deverão ser alcançadas".

Portugal está no grupo de países que precisa de consolidação orçamental até 2030 para cumprir o objetivo de dívida pública, mas que já antecipou uma parte considerável dessa consolidação.

Isto é limpinho?!

O entusiasmo pela verdade desportiva é de tal ordem que até Medina Carreira - paladino da verdade nas contas públicas, do rigor orçamental, arauto da desgraça – considerou, cúmulo dos cúmulos, ser necessário ter alguém capaz de liderar o País como Pinto da Costa fez com o FC Porto. “O FC Porto devora tudo há cerca de 30 anos porque teve um dirigente capaz de pôr ordem no clube”, referiu, salientando a falta de dirigentes competentes a liderar Portugal, no programa ‘Olhos nos Olhos’, da TVI24, na segunda-feira dia 5 de maio!

Que grande confusão, Sr Primeiro Ministro!? Que diabo de recurso, Dr Medina Carreira?!

Agora é que nunca mais saímos desta situação imunda – no sentido mais profundo do étimo latino (arejado, limpo)!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Frei Tomás

 

O conhecido aforismo sobre a discrepância humana entre as palavras e os atos, ou a ação, é recorrente em todos os setores da vida. É certo que há diversas causas, interferências involuntárias, que podem suscitar os desencontros entre o ato de pensar, a comunicação expressa e a ação concretizada: a natureza da arte, a pressão mediática, o cansaço de um dia, “lapsus linguae”, ignorância no assunto, vontade ou obrigação de pronuncia sobre matérias não muito aprofundadas, etc.

Frei Tomás – não se sabe qual deles! – fica na história da dialética como incoerente, pelo menos é esse o sentido do adágio, que não será apenas para forçar a orientação da rima, "bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”, querendo demonstrar a contradição entre os atos e as palavras – coisa fácil e recorrente, porventura, para a maioria dos humanos! Porém, esta repercussão sobre Frei Tomás poderia ser de outra ordem, se essa ordenação fizesse sentido, se expressasse um outro todo; por exemplo, “"bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e o que ele faz”! Bastava retirar a negação, o advérbio, e “este” Frei Tomás bem podia colher o epíteto de “o coerente”!

Na vida pública, com maior relevo na política, pelas razões já aludidas, e sem querer escamotear a impreparação de alguns protagonistas, é recorrente a incoerência, a demagogia, a suposta mudança de opinião. Mas, a política, também tem esse pormenor do jogo, de não demonstrar tudo, de provocar a reação da opinião contrária. Contudo, neste caso, quando a retórica é arte, requer-se um alto nível de ciência política, de conhecimento de todos os domínios da arte de trabalhar o espaço publico – muito para além das conveniências do lugar de momento ou dos focos circunstanciais!

A “história” de Frei Tomás tem, como é facilmente admissível, muitos contornos. E, mais do que qualquer observação crítica, é reflexo do ser humano na sociedade, na tribo, a tribo plural que nos une e afasta, que destinge entre iguais e distingue entre diferentes e diversos. Mais do que juízo moral ou ético, são as máscaras que obrigatoriamente são colocadas para que a verdade não mate, a convicção não separe, a determinação não apoquente! E a máscara (do rosto, das palavras, das ações) tem sentido biunívoco, inverso e paralelo, conforme as certezas e as circunstâncias: a criança diz à mãe que fez uma asneira grave, para a sua idade, como? Um governante, perante a tragédia, transmite ao país a notícia, como? O médico, ao lado do leito do paciente com doença terminal, comunica o diagnóstico, como?

Mesmo consideração, portanto, estas incoerências como próprio às delimitações da espécie, fazendo uma espécie revisitação de “Freud: a presença da antiguidade clássica” (Ana Lúcia Lobo, São Paulo), há ilustrações recentes que sugerem este apontamento.

Jerónimo de Sousa, o dirigente comunista, no caso mais recente, assacou ao Presidente da República o aforismo – a propósito do discurso nos quarenta anos do 25 de abril!

Um outro caso, porventura mais ou menos prosaico, é também destes dias de Tríduo Pascal. Semana Santa, sexta-feira, procissão do enterro do Senhor – lenta, circunspecta, penumbrante! O percurso, em Aveiro, vai da igreja da Apresentação para a de Nossa Senhora da Glória. As Irmandades ladeiam os andores, um simbolizando o esquife de Jesus e outro o de sua Mãe, na evocação de Nossa Senhora da Soledade. Ato profundamente introspetivo, pela memória, pela sacramentalidade, pela Mensagem. Chegados à igreja de Nossa Senhora da Glória, no epílogo desta liturgia, não é que os Irmãos (da Irmandade) debandam antes de terminar? O Administrador Diocesano, pela Sé Vacante, vai proferir as palavras finais, algumas dirigidas aos próprios, mas o Senhor já não tem lá os seus Irmãos!? Serão seguidores… de “Frei Tomás”!?

terça-feira, 8 de abril de 2014

Desemprego jovem

 

Numa ação concertada da Justiça e Paz Europa, uma rede Justiça e Paz que congrega 30 comissões nacionais de toda a Europa, mandatadas pelas respetivas Conferências Episcopais para se pronunciarem e agirem nas áreas da justiça social, paz e desenvolvimento, há um pronunciamento sério, estudado, na Quaresma de 2014, sobre desemprego jovem, uma crise que ameaça o nosso futuro!

É imperioso realçar a reflexão (excertos) da Justiça e Paz Europa.

Os jovens europeus estão a pagar um preço caro pela crise económica que atravessa a Europa. Embora o problema do desemprego existisse já antes da crise financeira e económica, a taxa média nos países da União Europeia (UE) é cerca de duas vezes superior à da restante população, com vários países a registarem taxas acima de 50%. É importante juntar todas as vozes aos apelos por uma estratégia que combata esta situação de injustiça.

Hoje, a realidade para muitos dos nossos jovens é a de que se encontram excluídos do mundo do trabalho, em resultado das condições económicas e sociais dos seus países e da falta de oportunidades adequadas às suas capacidades e qualificações. As consequências, tanto a nível pessoal como social, são devastadoras. A atual geração jovem pode tornar-se numa geração perdida e o risco de exclusão social associado à idade jovem constitui um sério desafio para as nossas sociedades europeias.

As necessidades do mercado e do setor financeiro foram colocadas à frente das necessidades da sociedade e em particular dos jovens. Eles representam o futuro da nossa sociedade, mas as suas perspetivas de vida têm sido diminuídas e a sua dignidade desrespeitada, correndo o risco de se tornar uma geração perdida. O impacto desmoralizante do desemprego desencoraja muitos jovens de investir na sua formação e de empreender. Outros decidem emigrar procurando melhores oportunidades. Se a liberdade de deslocação de pessoas entre países é certamente bem-vinda, as consequências para as comunidades que perdem um número elevado de jovens, como a portuguesa, poderão ser devastadoras.

É necessário o envolvimento dos empregadores para que se criem genuínas oportunidades de emprego para os jovens. Igualmente importante é a existência de regulação que previna a exploração dos trabalhadores jovens, garantindo que o seu trabalho é remunerado de forma justa e que quaisquer oportunidades de formação e estágio são enquadradas de forma adequada.

É necessário reconhecer que muitos jovens estão desiludidos com as lideranças e processos políticos, que consideram terem ignorado as suas necessidades e preocupações. A generalização desse descontentamento é perigosa para a democracia e ameaça a estabilidade futura da nossa sociedade. Assistimos a nível europeu a manifestações desse desencanto e revolta de forma diversas, incluindo protestos violentos e apoio a movimentos políticos extremistas. Paralelamente a uma estratégia para o emprego, os líderes políticos devem investir na democracia, utilizando mecanismos de consulta que envolvam os cidadãos e os jovens em particular nos processos de solução desta crise.

Neste contexto, os valores que comunicamos aos jovens relativamente ao trabalho e ao emprego são importantes. Os valores fundamentais da solidariedade, bem comum e serviço aos outros podem perder-se na nossa sociedade crescentemente materialista.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Revolução social

 

 

Neste último ano encruzaram-se vários elementos essenciais à ponderação de um pensamento mais social. A vida das pessoas mudou radicalmente. Crescem as tensões. Há sinais de esperança?!

A mediatização do factual, do local, do pontual torna universal o que não o é; confunde-se muitas vezes a parte com o todo ou, numa inspiração comparativa, a árvore com a floresta. Pese embora esta premissa, há em muitos setores da atividade humana a preocupação pelo bem comum. Será por isso a insistência oportuna e importuna, a repreensão, ameaça e exortação com toda a paciência e empenho para instruir, para elevar para patamares de qualidade o que, simples ou complexo, tende-se a vulgarizar – coisas simples, como a produção agrícola, os serviços de proximidade, a energia, a justiça distributiva, o desempenho das instituições, a seriedade dos protagonistas e atores sociais e políticos, os agentes económicos, o bem comum. Provavelmente, chegou o tempo em que os homens e as mulheres já não suportam o que é essencial para a sobrevivência e todos. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustam mestres para si. Apartam os ouvidos da verdade e atiram-se às fábulas: a perspetiva iluminista de uma atitude de vida voltada para a procura egoísta de prazeres momentâneos, o sentido pejorativo de "hedonismo", sinal de decadência.

Neste ano (13.03.2013 – 13.03.2014) o mundo – quem, no mundo, o quer ver para além do umbigo, claro – foi impelido a não se contentar de si e a encontrar o outro, numa rede de relações cada vez mais autenticamente humanas. Apesar dos sinais de discórdia e separação, houve sinais novos, os homens e as mulheres do início de XXI são capacitados a transformar as regras e a qualidade das relações, inclusive as estruturas sociais: pessoas capazes de levar a paz onde há conflitos, de construir e cultivar relações fraternas onde há ódio, de buscar a justiça onde prevalece a exploração do homem pelo homem. Porque somente o sentido do outro é capaz de transformar de modo radical as relações que os seres humanos têm entre si. Inserido nesta perspetiva, todo o homem de boa vontade pode entrever os vastos horizontes da justiça e do progresso humano na verdade e no bem.

O Papa Francisco está a ser um expoente de esperança: vai materializando a Primavera da Igreja Católica protagonizada pelo Concílio Vaticano II e propõe, incentiva, empele, convida, revoluciona (com obras!) todos os homens e mulheres com um humanismo à altura do desígnio de amor de Deus sobre a história, um humanismo integral e solidário, capaz de animar uma nova ordem social, econômica e política, fundada na dignidade e na liberdade de toda a pessoa humana, a se realizar na paz, na justiça e na solidariedade.

terça-feira, 11 de março de 2014

Invasões e evasão

 

O cidadão comum – aquele cuja vida é orientada por processos simples alicerçados em valores, com olhar atento à realidade que o rodeia e participação ativa na transformação do mundo – fica estupefacto com estes movimentos de invasão; chegam a provocar urgência de evasão, de fuga do mundo – dando razão, porventura, mais uma vez, a Rosseau e à “teoria do bom selvagem”: o homem por natureza é bom, nasceu livre, mas sua maldade advém da sociedade que, com a sua presunçosa organização, não só permite mas impõe a servidão, a escravidão, a tirania e inúmeras outras leis que privilegiam as elites dominantes em detrimento dos mais fracos, reiterando assim a desigualdade entre os homens, enquanto seres que vivem em sociedade.

O cidadão comum compreende a antiguidade, com territórios sem Estado, construída ao fio da espada, de ambições tirânicas, sem uma organização e uma sociedade de nações, sem protocolos estabelecidos baseados na construção da paz e do bem comum!? O cidadão comum resigna-se perante as invasões helénicas (no século XX, a. C), dos Celtas (480 a.C.), do Império Romano (218 a.C.), dos Bárbaros (entre 300 e 800), das invasões muçulmanas (a partir de 711). Até compreende as invasões mongóis no oriente Japão (1274-1281)!

As invasões francesas e napoleónicas, do século XVIII-XIX, bem mais perto no tempo, como consequência da Revolução Francesa e início da luta entre a França revolucionária e a Europa conservadora levantam estupefação!

Mas passado este período, já cria assombramento como a opulência, soberba, cegueira e ambição desmedida de uns conduziram à Primeira Grande Guerra (de 28 de julho de 1914 até 11 de novembro de 1918).

E a Invasão da Polónia em 1 de setembro de 1939!? – assustador tanta semelhança com o tempo presente!

E as coincidências continuam! Quando um grupo de separatistas de uma província – uma província?! – resolve rebelar-se contra o governo central conduzindo à Guerra do Kosovo (24 de março a 3 de junho de 1999), à intromissão da NATO e à consequência geoestratégica que mais interessava à mesma organização, sem medir o alcance do disparate!

E depois surgiu a Guerra na Ossétia do Sul em agosto de 2008…

A Crimeia!

Com tantos cenários complicados de entender, num mundo que tem a Organização das Nações Unidas como “mesa” de encontro, o cidadão comum deseja a evasão! Mas para onde?

O mundo terá de cuidar do trigo e não perder a paz por causa do joio.

(in Correio do Vouga, 2014.03.12)

terça-feira, 4 de março de 2014

Crimeia

 
O traço comum (mais comum!) deste apontamento, desta nota semanal, tem sido baseado na atenção às situações de conflito ou geradoras de conflito. É verdade que há outros aspetos que consideramos mas, com maior frequência, olhamos para o mundo, para as  situações, os cenários, as ideias, as ações e protagonistas que podem ajudar, ou têm obrigação de ajudar, decidir sobre esta "casa comum", esta Terra que é a nossa casa, para que seja um pouco melhor para todos.
É preciso equidade, paz social, igualdade de oportunidades, solidariedade, e, superlativando, acima de tudo, vontade e determinação para atingir esta utopia: vivermos bem onde quer que estejamos com a diversidade que faz de todos a humanidade! Não deixa de ser verdade que esta reflexão é mais intencional do que real mas, recorrendo a metáfora, não podemos ficar calados, temos de agir; não podendo ir para a "frente", reforce-se a retaguarda. A melhor defesa é o ataque!? Então, até para defender o que há de melhor na humanidade é preciso atacar "se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito." - citando Luther King.
Os últimos temos na Ucrânia são conturbados! As tensões atingiram todos, quem esteve na Praça da Independência e quem esta pelo mundo a acompanhar, como filme, cenas de há cem anos - a evocação simbólica do ano em que começou a I grande Guerra.
A fronteira, aquele confim de mundos - significado de Ukraina  - pode abrir novamente imensas caixas de pandora com muitas Matryoshkas: o enclave geopolítico, entre ocidente e leste; a multiculturalidade inicial dos povos, na cultura, na religião, nas precedências seculares; a tensão do mundo entre pobres e ricos, entre oportunidades e oligarquias; o lado pior do ser humano!
A Crimeia é nome de muitas preocupações ao longo da história, de guerra também. Agora estamos - estamos todos- novamente lá, na Crimeia! Fez-se da Crimeia nome de guerra, ainda vamos a tempo de lhe dar um nome de paz?!
Será que o mundo não se farta deste carnaval?!
(in Correio do Vouga, 2014.03.05)





terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Dignitário no serviço aos outros

 
D. António Francisco foi nomeado pelo Papa Francisco para Bispo do Porto!
A sociedade aveirense manifestou elevada estima por este momento histórico na vida da cidade e da região, da Diocese também!
De todos os quadrantes – de todos não será, há sempre uma zona neutra, um pouco acinzentada que nunca está bem com nada nem com ninguém – surgiram manifestações públicas do reconhecimento do exercício do alto cargo e do título proeminente que representa ser chamado (eleito) para Bispo do Porto o Bispo de Aveiro!
O processo tem muitos meandros, desde a sucessão apostólica à separação da Igreja do Estado, da profundidade eclesiológica à luta pela dignidade humana, da compreensão do papel essencial da Igreja no seio da comunidade humana à laicidade do Estado e da Sociedade. Mas não há outros bispos que também são escolhidos e eleitos, outras pessoas que assumem cargos importantes?! Sim, claro. Contudo, este regozijo deve-se à pessoa e ao exercício do ministério que D. António Francisco dos Santos soube e sabe cumprir entre as pessoas, as instituições; a cultura e os métodos de inculturação que assume; a atenção e a compreensão que dedica; a vida que faz dom para os outros.
Teologicamente cumpre-se o que não temos memória, sendo assim a missão de um Bispo (de um missionário!) no ministério que lhe é confiado desde a era apostólica, VAI! - "quando os evangelizadores saem de Jerusalém, o Espírito assume ainda mais a função de « guia » na escolha tanto das pessoas como dos itinerários da missão. A Sua ação manifesta-se especialmente no impulso dado à missão que, de facto, se estende, segundo as palavras de Cristo, desde Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e vai até aos confins do mundo." (RM, 24).
Habituados a ver chegar para ficar, vemos D. António Francisco a partir! Aveiro torna-se ainda mais autêntica como comunidade evangelizadora!
Ora, "a comunidade evangelizadora jubilosa sabe sempre «festejar»: celebra e festeja cada pequena vitória, cada passo em frente na evangelização". (EG, 24).
Não faz sentido, por isso, que a afetividade humana tolde a dimensão universal da Missão.
Este é mais um passo evangelizador da Igreja de Aveiro!
Obrigado, D. António Francisco.
(in Correio do Vouga, 2014.02.26)








quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Infraestruturas de elevado valor acrescentado (IEVA) em Aveiro

 
Por despacho do gabinete do Secretário de Estado respetivo (das Infraestruturas, Transportes e Comunicações) foi constituído o Grupo de Trabalho para elaborar um relatório que consubstanciasse um conjunto de recomendações sobre IEVA quanto à priorização de investimentos para a Consolação e desenvolvimento das infraestruturas de transportes; eliminação de constrangimentos na rede de infraestruturas de transportes, apresentação de propostas de natureza não- infraestrutural que eliminem bloqueios e constrangimentos existentes nos setores dos transportes. O objetivo da missão deste grupo, tendo em consideração um horizonte de sete anos, visa definir um conjunto prioritário de projetos e recomendações que contribuam para potenciar a competitividade da economia nacional e do tecido empresarial, sem negligenciar a coesão territorial considerando as limitações orçamentais, a intermodalidade dos investimentos e o timing de execução.
O grupo, sob a presunção de ser a primeira vez que aconteceu algo do género – uma reflexão conjunta entre os vários atores que interagem nas áreas cooptadas – durante três meses desencadeou as metodologias necessários, nomeadamente 36 reuniões, como se pode ler no Relatório produzido e publicado.
O estudo aponta quatro domínios fundamentais: ferroviário (trinta projetos), rodoviário (vinte e três), marítimo-portuário (trinta e três) e aeroportuário (três).
A região de Aveiro é contemplada com algumas infraestruturas. Não é surpresa, dados os domínios. Inserida no “corredor-chave” das redes produtiva, económica e mobilidade do país (Setúbal-Porto), Aveiro estaria sempre em três domínios.
O Porto de Aveiro, as linhas do Norte e do Vouga, a ligação ferroviária para Vilar Formoso são prioridades!
Vamos acreditar que estes pressupostos, que já eram óbvios, serão materializados em projetos concretos.
E, a propósito destes, haja uma reabilitação urbana, cultural e empresarial de Aveiro; a circular externa de Aveiro, mobilidade sustentável, transportes urbanos e plataformas intermodais sejam reerguidos; apareça a ligação rodoviária a Águeda; os pórticos sejam eliminados (pelo menos desativados!); a Estrada Nacional 235 e a ligação sul de Aveiro às Autoestradas obtenham uma solução; terminem os bloqueios à EN 109, de Espinho a Calvão, sobretudo para a circulação de pessoas e veículos não poluentes; os acessos à Estação de Tratamento Mecânico-biológico vejam a luz do dia;… tantas oportunidades que não vão ser perdidas, adiadas, ignoradas ou pura e simplesmente embrulhadas nas teias da demagogia e populismo saloio!
As pessoas e desenvolvimento humano podem ser esquecidos nesta “frame” de infraestruturas?!
(in Correio do Vouga, 2014.02.19)








quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Liberdade, razão, belicosidade

 
A liberdade conquista-se pela força – recorrendo novamente a Maquiavel -, pela força dos argumentos ou pela força das armas!
Estamos a viver um tempo em que os argumentos são violentos, belicosos, armas letais, arremessados, rebatidos, assassinados “sem dó nem piedade” – salvaguarda-se já que “dó” e “piedade” são usados como metáfora. Dada a violência puritana no léxico moderno, qualquer palavra pode ser usada contra quem a profere passando o emissor a ser um crápula retrógrado, um ser bafiento, desprezível, opositor do avança civilizacional – seja lá isso o que for!
Adiciona-se, a este descarado turbilhão de verborreia, os meios disponíveis e a penumbra de um apelido (nickname!), qual máscara de um elmo protetor, que as ferramentas de comunicação proporcionam na sua riqueza de diversidade!
A educação da razão é cada vez mais esparta – à semelhança de Esparta. Esparta, Cidade-Estado, tinha como principal característica um Estado oligárquico e militarista, em que os principais objetivos projetavam fazer dos seus cidadãos modelos de soldados, fortes, corajosos, bem treinados e obediente as autoridades.
A educação espartana estava voltada para o caráter militarista, sendo a criança, desde pequena, preparada para ser soldado.
Começava por ser observada por um grupo de anciãos quanto à robustez física, para não possuir problemas de saúde e ter boa estampa física. Até aos sete anos de idade ainda ficava à guarda da mãe mas, após esse tempo, o responsável pela criança era o próprio estado.
Depois, aos sete anos, “entrava” para o exército, onde permaneceria até aos dezanove anos, onde recebia, nesta fase, alguns ensinamentos para que conhecesse a dinâmica do estado Espartano e principalmente as tradições de seu povo. Aos dezanove anos passava para o treino militar contínuo.
Aprendiam a combater com eficácia, eram testados fisicamente, resistência física e psicológica, sobrevivência em condições extremas e diversas, e principalmente aprendiam a obedecer aos seus superiores.
Perante a força dos argumentos que diariamente são apresentados, estamos em crer que está em marcha a mudança do sentido da força, da razão para a belicosidade da razão. Tudo, claro, em nome da liberdade! Liberdade de quem?!
Este valor absoluto não pode ser individualizado, privatizado, monopolizado, ou pode?