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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Frei Tomás

 

O conhecido aforismo sobre a discrepância humana entre as palavras e os atos, ou a ação, é recorrente em todos os setores da vida. É certo que há diversas causas, interferências involuntárias, que podem suscitar os desencontros entre o ato de pensar, a comunicação expressa e a ação concretizada: a natureza da arte, a pressão mediática, o cansaço de um dia, “lapsus linguae”, ignorância no assunto, vontade ou obrigação de pronuncia sobre matérias não muito aprofundadas, etc.

Frei Tomás – não se sabe qual deles! – fica na história da dialética como incoerente, pelo menos é esse o sentido do adágio, que não será apenas para forçar a orientação da rima, "bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”, querendo demonstrar a contradição entre os atos e as palavras – coisa fácil e recorrente, porventura, para a maioria dos humanos! Porém, esta repercussão sobre Frei Tomás poderia ser de outra ordem, se essa ordenação fizesse sentido, se expressasse um outro todo; por exemplo, “"bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e o que ele faz”! Bastava retirar a negação, o advérbio, e “este” Frei Tomás bem podia colher o epíteto de “o coerente”!

Na vida pública, com maior relevo na política, pelas razões já aludidas, e sem querer escamotear a impreparação de alguns protagonistas, é recorrente a incoerência, a demagogia, a suposta mudança de opinião. Mas, a política, também tem esse pormenor do jogo, de não demonstrar tudo, de provocar a reação da opinião contrária. Contudo, neste caso, quando a retórica é arte, requer-se um alto nível de ciência política, de conhecimento de todos os domínios da arte de trabalhar o espaço publico – muito para além das conveniências do lugar de momento ou dos focos circunstanciais!

A “história” de Frei Tomás tem, como é facilmente admissível, muitos contornos. E, mais do que qualquer observação crítica, é reflexo do ser humano na sociedade, na tribo, a tribo plural que nos une e afasta, que destinge entre iguais e distingue entre diferentes e diversos. Mais do que juízo moral ou ético, são as máscaras que obrigatoriamente são colocadas para que a verdade não mate, a convicção não separe, a determinação não apoquente! E a máscara (do rosto, das palavras, das ações) tem sentido biunívoco, inverso e paralelo, conforme as certezas e as circunstâncias: a criança diz à mãe que fez uma asneira grave, para a sua idade, como? Um governante, perante a tragédia, transmite ao país a notícia, como? O médico, ao lado do leito do paciente com doença terminal, comunica o diagnóstico, como?

Mesmo consideração, portanto, estas incoerências como próprio às delimitações da espécie, fazendo uma espécie revisitação de “Freud: a presença da antiguidade clássica” (Ana Lúcia Lobo, São Paulo), há ilustrações recentes que sugerem este apontamento.

Jerónimo de Sousa, o dirigente comunista, no caso mais recente, assacou ao Presidente da República o aforismo – a propósito do discurso nos quarenta anos do 25 de abril!

Um outro caso, porventura mais ou menos prosaico, é também destes dias de Tríduo Pascal. Semana Santa, sexta-feira, procissão do enterro do Senhor – lenta, circunspecta, penumbrante! O percurso, em Aveiro, vai da igreja da Apresentação para a de Nossa Senhora da Glória. As Irmandades ladeiam os andores, um simbolizando o esquife de Jesus e outro o de sua Mãe, na evocação de Nossa Senhora da Soledade. Ato profundamente introspetivo, pela memória, pela sacramentalidade, pela Mensagem. Chegados à igreja de Nossa Senhora da Glória, no epílogo desta liturgia, não é que os Irmãos (da Irmandade) debandam antes de terminar? O Administrador Diocesano, pela Sé Vacante, vai proferir as palavras finais, algumas dirigidas aos próprios, mas o Senhor já não tem lá os seus Irmãos!? Serão seguidores… de “Frei Tomás”!?

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