Em frente, vamos!.
EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014
A 2015!
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado
Num momento de grande esforço de diálogo político e criação de consensos, a Comissão Nacional Justiça e Paz, em parceria com a Cáritas e Rede Europeia Anti-Pobreza, organiza, no próximo dia 13 de dezembro, em Lisboa, a Conferência Anual. Sugerimos, como enquadramento e pertinência, um excerto do documento (Reflexões sobre a exortação apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco) recentemente publicado.
“(…) o sistema social e económico é injusto na sua raiz.” (EG 59) Importa registar as características «desta» economia, que a Evangelii Gaudium menciona expressamente e que ilustram alguns dos elementos estruturais do sistema económico vigente. “Hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata.” (EG 53) “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco.” (EG 53)
É conhecido o lugar que a «competitividade» ocupa na «corrida» para o «sucesso» (por vezes, para a sobrevivência), com manifesta vantagem dos «mais fortes». O resultado da livre concorrência é considerado como intrinsecamente «bom», independentemente dos critérios de justiça.
Naturalmente, uma das consequências de tal sistema é que “enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz.” (EG 56) É sabido como posições ideológicas podem ser vestidas de roupagens técnico-científicas, aparentemente neutras no campo dos valores. “Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira.” (Ibidem) O que está em causa é o princípio do liberalismo. “Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum.” (EG 56) “O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado. Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental – que não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral de todos.” (EG 240) “Quando estes valores são afetados, é necessária uma voz profética.” (EG 218). Aliás, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política económica.” (EG 203) “alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo.” (EG 54) “esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante.” (Ibidem) “não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado.” (EG 204) “O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo.” (Ibidem)
Além das recomendações respeitantes à economia em geral, é particularmente significativo que o Papa sublinhe o facto de que o combate à pobreza, se quiser ultrapassar os limites do assistencialismo, requer uma adequada política económica. Não se trata de abolir as práticas assistenciais – em si indispensáveis e cujo valor deve ser sublinhado –, mas de reconhecer que as mesmas não conduzem à «promoção integral dos pobres.»
(in Correio do Vouga, 2014.12.03)
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
O processo
Sem sabermos tudo – antes pelo contrário! Sem se saber nada! – vá lá saber-se porquê, deu-nos para uma pequena revisitação de “O processo”, de Kafka, claro.
Por uma questão de economia de tempo – é preciso estar atento aos “direto”: “a qualquer momento”… durante horas sucessivas… a ansiedade ocupou o espírito, esvaiu por completa a capacidade de ação e de reação.
Como é dia de fixar o olhar naquele cenário de fundo branco, do género de contraplacado lacado de branco, com uma cadeira antiga, de estilo imponente, forrada a pelo com elementos esculpidos, um ambão de acrílico, uma bandeira nacional que por tão deslocada no espaço parece descaída para meia haste… O cenário para a leitura das medidas parecia saído de um filme artesanal. Tudo deslocado!
- Um momento…!
Afinal ainda não foi desta. A montanha estava prestes a “deixar sair” qualquer coisa!
- É agora?!
Vamos pregar olho no que vai sair… a qualquer momento. Como é preciso terminar o apontamento, pedindo desculpa, recorremos a uma sinopse (da wikipedia, no caso) e aqui ficam algumas dúvidas, coincidências, pertinências ou nem por isso…
O romance conta a história de Josef K., bancário que é processado sem saber o motivo. A figura de Josef K. é o paradigma do perseguido que desconhece as causas reais de sua perseguição, tendo que se ater apenas às elucidações alegóricas e falaciosas vindas de variadas fontes.
Embora Kafka tenha retratado um autoritarismo da Justiça que se vê com o poder nas mãos para condenar alguém, sem lhe oferecer meios de defesa, ou ao menos conhecimento das razões da punição, podemos levar a figura de Josef K., bem como de seus acusadores, para vários campos da vida humana: trabalho (quem nunca se viu cobrado ou perseguido, sem que seus acusadores lhe dissessem em que estaria sendo negligente), religião (quem nunca se viu pego, de surpresa, como Josef K., por um fanático intransigente, dizendo que teríamos ferido as leis divinas, sem que nos fossem apresentados os motivos), na escola (quem nunca se viu como Josef K., ao ser criticado por seu desempenho, sem que soubesse em que havia falhado, com críticas vagas, por vezes de colegas, por vezes dos próprios mestres).
Muito embora se preste às mais diversas interpretações, desde aquelas fundadas nos axiomas filosóficos até a mais profunda radiografia feita pela sociologia, de fato, “O Processo” fornece farto material àquele que se debruça sobre o estudo para além da mera dogmática jurídica, de vez que, por meio de um conto que mais se assemelha a uma parábola, Kafka reproduz a negação do estado democrático de direito e, ao mesmo tempo, leva o leitor a perceber que, mesmo vivendo sob a égide da democracia "plena", há que se não perder de vista que as instituições não guardam a razão de ser na prestação de serviço público, mas na submissão ao poder e às camadas dominantes.
Nesta obra, o protagonista, atónito, ao ser informado que contra ele havia um processo judicial (ao qual ele jamais terá acesso e fundado numa acusação que ele jamais conhecerá), percorre as vielas e becos da burocracia estatal, cumpre ritos inexplicáveis, comparece a tribunais estapafúrdios, submete-se a ordens desconexas e se vê de tal modo enredado numa situação ilógica, que a narrativa aproxima-se (e muito) da descrição de confusos pesadelos.
Mas não distam muito de pesadelos os processos reais que tramitam nos vãos da estrutura pesada, arcaica, burocrática e surreal das instituições zelosas da Justiça, de modo que, por fim, Franz Kafka terá sempre o mérito de ter, no início do século passado, retratado a sociedade de muitos povos, com fidelidade e crueza dignos de alçar sua obra à imortalidade. Fim da citação.
Ah! Finalmente! O homem ficou preso. Que alívio! Estava-se mesmo a ver que ainda era colocado sob outra medida, que transtorno que isso daria!
E agora? A fasquia ficou bem alta. Queremos mais justiça assim!
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
O Estado que não serve
Em regra estamos, as pessoas, sempre insatisfeitas! Não é necessariamente mau que assim seja!
É desejável que haja participação, preocupação com o que é comum e com o que, mesmo individual, é parte da comunidade humana que construímos, somos parte e corresponsáveis; e somo-lo em praticamente tudo – mesmo quando o individualismo, alicerçado numa interpretação errónea do “carpem diem” de Horácio, conduz à “satisfação do umbigo” sem haver compromisso com nada! Como é sabido, o poeta latino incita Leuconoe a colher o melhor do dia nas variantes do epicurismo e do estoicismo. Portanto, não é um apelo ao prazer pelo prazer, do hedonismo contemporâneo, mas viver cada momento com disciplina de vida, com a ideia de que apesar do futuro ser incerto é importante procurar a alegria de viver de forma ordenada, racional, que deve evitar tudo o que ponha em causa o prazer das alegrias futuras.
O estoicismo, por mais prazer moderado em que se deseje viver, também tem os seus limites; por mais que prometa a força humana.
É o que acontece, porventura, todos os dias quando os cidadãos procuram os serviços que garantem a existência do organismo a que vulgarmente denominamos por “Estado”.
Alguns serviços não servem! Não servem por natureza nem servem para nada.
Apontemos uma mera ilustração; uma ilustração vivenciada.
O horário da repartição de finanças coincide com a maioria dos horários de outros trabalhadores, apenas, e não é coisa pouca, encerra às 16.30.
Por erro da administração pública, repristinação ou labor legislativo, com datas de entrada em vigor verdadeiramente aberrantes, o cidadão, uma pessoa comum tem de, no caso inspirador da ilustração, devolver uma determinada quantia ao Estado. Os procedimentos são perfeitamente anedóticos: recebe a nota de cobrança em carta registada. Nada o opor a não ser esse pormenor hilariante de, para quem trabalha, o destinatário poder não estar em casa. Ato contínuo, tem uma semana para levantar a “encomenda”, não interessa a distância, a hora, a disponibilidade,… nada! Nada justifica, sem prejuízo agravado, que falhe nessa tarefa a que é totalmente alheio. Mas mesmo assim, sendo alheio ao processo, tem de cumprir ou fazer cumprir, pedir alguém que vá aos “Correios” – afinal, ninguém está cá sozinho, como se aludiu no início deste apontamento: necessitamos de outros!
De notificação na mão, mais uma etapa: a devolução, ou pagamento que seja, tem de ser efetuada presencialmente. (Que obtusidade!? Não há outra via?!) Novo problema! Mais um dia, uma manhã,… mais uma falta ao trabalho, com toda a burocracia que isso implica, sobretudo se for funcionário público, por mais estranho que pareça. Ah! Sem esquecer os prazos, isso é que não, os encargos podem chegar ao mirabolante!
E por fim,… cumprida a missão!
Quem ganha e o que se ganha com esta “neolítica” forma de gerir as coisas na administração pública?!
Aparentemente, com estes entraves todos, as delegações públicas deveriam estar abertas ao domingo num Centro Comercial, por exemplo. Passava-se por lá e resolvia-se estes imbróglios com outra predisposição: “carpem diem”!
É evidente que este Estado não serve, é servido! É mau! Devora e é devorador!
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Muros há muitos
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
O desenvolvimento que desce
Acompanhamos com regularidade o índice de prosperidade (http://prosperity.com/#!/ranking ) que o Legatum Institute (www.li.com) vem apresentando.
No passado dia 3 de novembro pulicou o ranking de 2014, tendo em conta oito fatores: economia, educação, empreendedorismo e oportunidades, governação, saúde, liberdade pessoal, segurança e capital social.
Portugal desceu de 33º em 2012 para 47º lugar no ano passado em Educação, estando agora abaixo de países como a Mongólia, Montenegro, Emirados Árabes Unidos ou Rússia.
Apenas 77% dos portugueses estão satisfeitos com a qualidade da educação e acreditam que as crianças estão a aprender na escola, o valor mais baixo de sempre.
Houve também um declínio na escolarização primária, de 99,2 para 98%, o que indica uma quebra no número de crianças que entram para a escola, apesar de a taxa nacional continuar elevada, e o rádio de professores por aluno aumentou de 10.
Por outro lado, o número de jovens no ensino superior cresceu, e Portugal teve em 2013 uma taxa de 69%, a maior de sempre no país registada pelo índice.
O Índice de Prosperidade compara os níveis de riqueza e bem-estar, cobrindo 96% da população e 99% do Produto Interno Bruto mundial.
Na economia, Portugal é agora o segundo pior classificado na Europa ocidental, atrás da Grécia, na área económica, e está agora atrás de países como Argélia, Colômbia, Marrocos ou Letónia.
Portugal tem também o nono pior valor global de sentimento quanto à existência de oportunidades de trabalho, tendo apenas nove por cento dos inquiridos respondido afirmativamente à questão "Pensa que é uma boa altura para encontrar emprego" - mesmo assim superior à Grécia e Itália (3%) e Espanha (4%).
Por exemplo, apenas 55% dos portugueses mostraram satisfação com a qualidade de vida, inferior à média global de 60%, e caiu de 91% em 2011 para 82% a proporção de pessoas com acesso a comida e abrigo, o valor mais baixo desde sempre.
Embora os portugueses sejam dos povos com maior sentimento elevado de desconfiança em relação às autoridades e empresas (88%), Portugal melhorou nesta categoria e voltou ao top 30 dos países com melhor governação, registando um aumento de pessoas que afirmaram ter apresentado reclamações junto de entidades oficiais.
O nível de confiança na justiça subiu para 33%, mas continua abaixo da média global de 54%, mas a sensação geral é que os portugueses estão mais inquietos com a situação pessoal e do país: 57% confessaram preocupar-se, contra uma média global de 36%.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
O valor do tempo
Num tempo apressado e sem tempo para nada é frequente aparecerem sugestões, cada vez mais apelativas, para valorizar o tempo. Claro que estão implícitas as ideias de repouso, de dar a cada momento o que é necessário para a sua resolução, sem desgastar o humano; e depreende-se que, dadas as voracidade e velocidade para a realização do que é mais importante, é igualmente expressivo não desperdiçar energias com o irrisório, com o volátil ou, simplesmente, com o que um outro nível de responsabilidade pode resolver. O nosso tempo é o mais importante de todos os outros: em relação ao passado porque somos herdeiros e administrados; no presente porque é preciso dar a resposta agora sem destruir o que ainda existe; porque o futuro só existirá se não consumirmos nem nos esgotarmos no presente.
É com este cenário, e preocupação, que vemos os sinais dos tempos que a nossa comunidade, a sociedade, recria, pasma, anula, antagoniza, renova, implode, garante, multipartidariza, concorda e discorda: somos assim!
O que era certa passou a incerto (trabalho, vencimento, nascer, crescer, discernir,… ser protagonista. E na hora da partida, estar em paz)! Há realidades que se confundiam com valor (social, pessoal, empresarial) que passaram a ser algo estranho, bafiento, “démodé”: “Família”, por exemplo, parece ser um neologismo?! O ritmo de abuso à célula base da sociedade, as suas composições e reestruturação, como em qualquer corpo, estando a célula elementar a ser desestruturada, o tempo é de convulsão! Até na hora do Orçamento de Estado, num dos países com mais acentuada tendência de envelhecimento, de inverno demográfico, os solteiros e sem filhos constatam que os seus encargos fiscais serão menos abrasivos!
Poucos dias passados sobre a “Quinta-feira Negra”, 28 de outubro de 1929, em que de um dia para o outro, o mundo caiu em depressão porque, como vamos acompanhando, perante os valores do tempo, o que era certo ruiu, o incerto dominou o mundo. Na quinta-feira, dia 24 de outubro de 1929, aconteceu o inevitável, foi o “crash” do mercado de ações mais devastador na história dos Estados Unidos, levando em consideração a extensão e a duração das suas consequências, marcou o início de 12 anos da Grande Depressão, que afetou todos os países ocidentais industrializados.
O valor das coisas sucumbiu à perda de valores! Até já nem interessa bem a fundamentação de cada um dos elementares princípios para organizar o grupo, a espécie! O que importa é que cada tempo tenha valores!
Educar custa muito. O ser humano não aprende à primeira!
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Qualidade do ar (Aveiro) e falta de verdade (UTMB)
Na cidade de Aveiro é cíclico encontrar mecanismos, testes, experiências e, pelo menos há já alguns anos, monitorização contínua da qualidade do ar. Desde há dias que faz-se notar um equipamento para esse fim junto ao Museu de Santa Joana, Museu de Aveiro. Trata-se, no caso, de uma ação que o Instituto de Ambiente e Desenvolvimento (IDAD), unidade de interface com a sociedade da Universidade de Aveiro (UA), está a promover: uma Campanha de Monitorização da Qualidade do Ar em Aveiro, no âmbito da ação “COST TD1105”. A campanha decorre com recurso ao Laboratório Móvel de Qualidade do Ar do IDAD e micro-sensores de várias equipas europeias. Também no âmbito da ação “COST TD 1105” decorreu, na UA, a 14 e 15 deste mês, o seminário “European Network on New Sensing Technologies for Air-Pollution Control and Environmental Sustainability”.
E quanto ao processo estamos tranquilos. A qualidade do ar está a ser monitorizada! Mas isto basta? Não, claro que não! Também queremos saber os resultados, como é que têm evoluído entre recolhas anteriores, medidas públicas que foram tomadas para resolver eventuais situações poluentes,… Isso é que torna importante estes episódios, não é?
Também seria de grande importância aproveitar a ação “COST TD1105” e estender a monitorização (e apresentação de resultados) um pouco mais para o sul do Concelho de Aveiro: está nauseabundo!
Segundo a propaganda da própria Unidade de Tratamento Mecânico e Biológico (www.ersuc.pt), “ é uma unidade industrial onde se efetua um tratamento aos resíduos sólidos urbanos (RSU), tendo em vista a sua separação por fluxos diferenciados, de modo a maximizar a recuperação de materiais recicláveis e valorizáveis.
A receção dos resíduos é feita através de um sistema de dupla porta que garante o confinamento dos odores no seu interior, sendo os RSU depositados em fossas e depois, através de garras montadas em pontes rolantes, encaminhados para o tratamento mecânico onde, através de múltiplas operações unitárias são divididos em vários fluxos: matéria orgânica, recicláveis (cartão, plástico, metais ferrosos e metais não ferrosos), CDR e refugos.
Estas operações são totalmente automáticas, incluem a crivagem dos RSU, abertura de sacos, separação balística, separação de ferrosos, separação de alumínios, separadores óticos por infra vermelhos e a preparação de suspensão orgânica. Os refugos são encaminhados para o Aterro Sanitário de Apoio, os CDR para as unidades de preparação de modo a serem utilizados como fonte de energia, em alternativa aos combustíveis fósseis. Os recicláveis são encaminhados para a indústria recicladora permitindo a sua transformação em matérias-primas para a produção de novos produtos. A matéria orgânica é transformada em suspensão aquosa, posteriormente afinada, através de equipamentos de depuração de onde são retiradas as impurezas (areias, vidro, pedras e outros). Depois de purificada esta suspensão segue para o tratamento biológico que consiste num conjunto de operações sequenciais, das quais se destacam a digestão anaeróbia e posterior valorização energética, a pré compostagem em túneis fechados, a compostagem em meseta e a afinação final, da qual se obtém um produto com propriedades adequadas ao enriquecimento do solo, o composto”
Porque é que por ali se sente que isto não é verdade? E não é só pelo odor….
domingo, 12 de outubro de 2014
Pela sua saúde
O jargão (pela sua saúde) funciona como o apelo-limite, a fronteira entre o argumento dos argumentos e a incredulidade. Quando se invoca a saúde, nesta tradicional forma de captar a anuência do interlocutor ou opositor, esgota-se a oportunidade; a parti daqui não há mais nada a dizer, a falar, a garantir como elementar fundamento para o que se defende ou pretende obter.
Porém, ainda há umas tantas preciosidades da atualidade que ajudam a entender o indício deste assunto. Aponte-se, a título de exemplo, quando hoje um utente do SNS (Sistema Nacional de Saúde) tem necessidade de recorrer a uma consulta com o médico de família, para coisas básicas, elementares (análises, receituário, estado gripal, constipação,… e eventualmente comprovativo de doença ou atestado médico para justificar a ausência ao serviço) é uma aventura de horas, burocracias,… teste de paciência levado ao limite! Sim, em outubro de 2014, em Aveiro… não adoeça, “pela sua saúde”!
É no estado limite dos argumentos que nos situamos em muitas coisas deste mundo que nos envolve, rodeia, atrofia. Entre nós… educação? Justiça?... “pela sua saúde”! São estas crises que não nos dão sossego, saúde! Será que não acertamos com nada que nos faça bem!?
No mundo, os casos do ébola estão, para além da dimensão trágica, objetiva, também é notório a displicência na abordagem ao problema na sua génese!… “pela sua saúde”!
Sinais de esperança: a educação!
A educação como sistema e a educação como processo de socialização atingiram o Nobel – mais uma vez, dir-se-á! Certo mas é preciso insistir tanto!... Há cada sentença em algumas cabeças que nada de novo entra! Portanto, “pela sua saúde”, insista, insista-se sempre na Educação.
Kailash Satyarthi (o oitavo indiano a receber este prémio) mostrou grande coragem na luta pela grave exploração infantil; é um dos promotores da Marcha contra o Trabalho Infantil e já resgatou mais de 60 mil crianças forçadas a trabalhar e também adultos mantidos sob regime de escravidão.
Malala Yousafzai, a primeira paquistanesa a ganhar o Nobel da paz, é sobejamente conhecida aos 17 anos. A mensagem desta jovem tronou-se rapidamente universal, depois dos talibã terem atentado contra a sua vida exatamente para a impedir de frequentar a escola: “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo.”
Para ganharmos equilíbrio, sanidade, é necessário abrir horizontes, quer geográficos quer de participação cívica, para não acontecer o que constatamos das palavras de Platão (428-347 a.C): “o preço a pagar pela tua não participação na política é seres governado por quem é inferior”.
terça-feira, 7 de outubro de 2014
FAM, Fundo de Apoio Municipal
Estamos metidos neste assunto, quer queiramos quer não!
Aparentemente isto pode parecer mais uma daquelas matérias de pouco interesse para as pessoas. É recorrente ouvir-se sobre as questões da gestão pública, de todos nós, “isso é coisa lá dos políticos; eles que se entendam. São todos iguais”.
Discordando em absoluto deste aforismo revelador da qualidade com que estamos no que é público – generalizando, como é evidente – é da máxima importância chamar a atenção para o que está subjacente e vai sobrecarregar os orçamentos familiares.
O Executivo Municipal tomou conhecimento do despacho conjunto n.º 12029-A/2014 do Secretário de Estado da Administração Local, do Secretário de Estado Adjunto e do Orçamento e da Secretária de Estado do Tesouro, publicado no Diário da República de 29 de setembro de 2014, que aprova o pedido de adesão ao apoio transitório de urgência do Município de Aveiro, com a concessão de um empréstimo de 10.526.250€ pela Direção Geral do Tesouro e Finanças (DGTF) e que define todas as condições de financiamento – lê-se no portal da online da Câmara Municipal de Aveiro.
Em síntese, várias Câmaras estão em rutura financeira, à beira do que vulgarmente denominamos bancarrota.
O termo é presumivelmente proveniente do italiano bancarotta ('banco partido'). Na Idade Média, com o aparecimento da burguesia, quem tinha excedente de dinheiro expunha-o num banco no meio da praça para despertar o interesse de quem precisasse dele, daí banqueiro. Quando não se honravam as transações, o banco era feito em pedaços e o próprio era impedido de continuar a exercer qualquer outro negócio.
O Estado (central) com a participação de várias entidades cria um Fundo financeiro para ajudar essas Câmaras, tentando evitar a falência, como aconteceu, por exemplo, em Detroit, nos Estados Unidos. A medida, sendo de recurso, é minimamente aceitável. Porém, a partir dali um Município, um Concelho, passa a ser governado por uma entidade que não foi eleita pelos cidadãos – trata-se de uma oligarquia?!
E se este é o problema de fundo em termos de verdade política, para cada pessoa o problema surge a partir do artigo 23 da Lei (53/2014), como vai a Câmara (de Aveiro, no caso) recuperar financeiramente? A problemática racionalização da despesa (vale quase tudo, apenas ficam os serviços mínimos, para já: despedimentos, revisão de contratos, …) e maximização da receita (IMI, IRS, IUC, …)!
Preparemo-nos para menos serviços e aumento das contribuições, sobretudo para taxas máximas!
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Fratria
Nas voltas que a vida suscita, patrocina, obriga – sem ter de ser necessariamente por esta ordem nem cadência – encontramos tanta imprevisibilidade, vai-se constatando porque sabe-se desde o ato de nascer, que é altamente improvável que alguém se sinta seguro do desempenho que protagoniza durante mais tempo que o tempo que lhe é confiado. Portanto, a única certeza, a partir do início da função, é saber que vai sair dela (dela, função; dela, vida; dela, tudo o resto). Em suma, estando certos que tudo cessa, a principal missão é fazer o melhor para que prevalece a dignidade em todos os momentos: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, estava vigilante para evitar a intrusão e o dano!
Sobejamente avisados, por maior que seja o barulho da gritaria um facto sucederá a outro, a história seguirá o seu rumo com ajuda dos que fazem e dos que reclamam que fazem. Todos darão o seu contributo quando ao entardecer se chegar a qualquer porto!
E as voltas mais recentes da vida e da vida em Portugal fazem cruzar o pensamento político de Mário Sacramento (editado no volume Fratria) com a nova dinâmica social introduzida pelo movimento do universo político.
Mário Sacramento pensou na nova estrutura social baseada em três níveis, no período pre-homérico. Em primeiro lugar estavam os eupátridas (bem-nascidos), que por serem mais próximos no parentesco do chefe do antigo Genos ficaram com as melhores terras, monopolizaram os equipamentos de guerra e ficaram com todo o poder formando uma aristocracia baseada na terra. Em segundo lugar estavam os georgoi (agricultores), enquadrados em um patamar médio, ficaram com a periferia. E na camada mais baixa da nova sociedade estavam os Thetas (marginais), desprovidos de terras e completamente marginalizados. A nova aristocracia ficou com o poder e era denominada de fratrias, que formavam em grupo as tribos. A união destas tribos fez surgir as cidades-estado chamadas de Pólis. Nos século IX e VIII a.C. surgiram aproximadamente 160 pólis na Grécia, sendo que cada uma possuía seu templo em uma região elevada da cidade, o qual era chamado de Acrópole. Os Basileus eram os governantes da pólis, mas tinham o poder limitado pelos eupátridas. Tentaram dar um golpe para tomar o poder máximo, mas foram impedidos e substituídos pelos Arcondes, que eram indicados anualmente pelo Conselho dos Aristocratas.
Tantas voltas que o mundo deu… E agora tem de pular novamente e avançar!
terça-feira, 29 de julho de 2014
Insolvências
Aveiro vai em quinto lugar. Preocupante! Preocupante pelo país (2772 empresas no primeiro semestre) e preocupante por esta região cheia de potencial (6,6% destas empresas estão em Aveiro).
A entrar no período estival, de alguma descontração motivada pelos dias que passam vivos, claros, cheios de luz e sol, um estudo da COSEC (www.cosec.pt) ajudará a refocar os interesses sociais que o dinamismo económico e as suas consequências impactam na vida dos cidadãos, das pessoas. É uma sugestão de leitura, uma leitura com várias leituras. Estes números mostram pessoas, famílias.
A COSEC procede, diariamente, à consulta da Parte D da 2ª Série do Diário da República e ao registo informático, de todos os Atos dos Tribunais, do Ministério Público e dos respetivos Conselhos Superiores relativos a todas as entidades que sejam Pessoa Coletiva ou Empresário em Nome Individual. Em termos de tratamento da informação, e no que às situações de Insolvência diz respeito, é registada e sistematizada a “Sentença de Declaração da Insolvência”.
As Microempresas continuam a ser as mais afetadas, representando cerca de 68% das insolvências registadas. 26% do total das empresas insolventes são do sector da Construção e 20% do sector de Serviços.
A insolvência é uma situação em que o devedor tem prestações a cumprir superiores aos rendimentos que recebe. Portanto um insolvente não consegue cumprir as suas obrigações (pagamentos). Uma pessoa ou empresa insolvente poderá no final de um processo ser declarada em definitivamente insolvente, em falência ou em recuperação.
As pessoas em conversa coloquial costumam confundir os termos insolvência e falência. Estas palavras têm significados económicos e jurídicos distintos, sendo que falência é um estado em que o devedor é responsável por mais dívidas do que os bens que possui. Uma empresa ou pessoa falida não estão automaticamente insolventes e vice-versa.
Para completar esta nota antes da interrupção de férias do “Correio do Vouga”, sublinhe-se que o portal das insolvências (www.insolvencia.pt) tem por missão prestar informação e esclarecimentos sobre os processos em causa, reestruturação e hipóteses de recuperação.
Uma leitura com várias leituras, de facto.
terça-feira, 22 de julho de 2014
Limites da (in)competência
O caso do dia é a prova dos professores.
Pensemos a circunstância com objetividade. Garantido o direito de acesso à educação para todos, para bem do país, para o seu desenvolvimento cultural e científico com consequências diretas em todas as outras áreas (económica, financeira, bem estar,… o que será de um país sem médicos, engenheiros, arquitetos,… profissionais qualificados!?), foi necessário aumentar a quantidade e melhorar a qualidade da preparação dos professores. Por isso, foram criados cursos via ensino nas universidades. Estava avalizada a qualidade dos docentes.
O que é que alterou este horizonte? Três domínios macro:
- não houve um plano (ou faltou coragem para ser aplicado) para evitar que a oferta viesse a ser maior que a procura. Com a curva descendente da natalidade de forma abrupta, o número de professores passou a ser elevado;
- depois surgem medidas de política educativa que continuam a fazer oscilar e a cair em ritmo acelerado de experimentação desmedida o currículo: à criação de mais disciplinas ou áreas curriculares não disciplinares e à escola com outras valências fundamentais (pré-escolar, inglês, expressões, informática,…), que implicaram mais docentes no sistema de ensino, mais qualidade, contrapôs-se a extinção e uns minutos de malabarista;
- surge a necessidade de cortar nos gastos…não se atacaram os gastos sumptuosos à vista nas Parcerias Público-Privadas, nas rendas de duvidosa transparência, os disparates e dislates bancários. E, o que aconteceu, cortou-se nos que menos podem (educação, reformados, saúde,…).
Ou seja, emagreceu-se o currículo, despediram-se professores, aumentou-se o número de alunos por turma, o suficiente para retirar a possibilidade a muitos de aspiraram à carreira docente. Portanto, já não é necessário mais nenhum atropelo, não havendo horários para a docência nas escolas não há professores a mais. Mas isto não bastou!
Foi criada uma aberração casmurra: uma prova! Uma prova que não serve para nada. O sistema já não consegue, como referimos, receber mais ninguém. Portanto, dá a ideia de ser, até pelos custos de inscrição na mesma, uma medida do género da taxa sobre os sacos plástico, mais uma fonte de receita para o Estado. Ridículo. Limite da (in)competência
Sempre que um professor ou uma professora se expõem na luta pela dignidade do sistema e políticas educativas está a lutar por melhor educação, pela melhoria do processo ensino-aprendizagem.
O professor é o último reduto de equilíbrio social e dos primeiros na vanguarda para o desenvolvimento de melhores condições de vida. O primeiro será, naturalmente, a base da proficiência, a família. Mas, depois, quem acompanha, faz suscitar, ajuda a desenvolver essa proficiência é o professor. Este laço fontal foi quebrado por um conjunto de agressões (políticas educativas) que fez crer que a escola passou de substantivo a adjetivo, isto é, de sebenta (com origem no particípio presente ‘sapiente’ de onde deriva ‘sabença’ ,‘sapientia’) para sebenta (imundo, sujo, sebento). Sem recursos, sem meios, sem condições o que é se espera?
É triste tudo isto mas “quem não sente não é filho de boa gente”! E os professores eram das profissões que mais confiança transmitiam; ajudavam a arrumar as ideias, a pensar, a ser! Portanto, para alguns “campos ideológicos dos corredores do poder” (pouco recomendável) uma frente de batalha que interessa dispersar, dominar, diminuir.
terça-feira, 15 de julho de 2014
Lições de um Mundial: até parece que há vida!
A concluir a vigésima edição do campeonato do mundo de futebol entre seleções ou Taça do Mundo FIFA, genericamente designado por “Mundial de Futebol”, depreendem-se dados (curiosidades, porventura) já clássicos e emergem outros que ajudarão a redimensionar a compreensão do fenómeno futebol. O futebol nesta grandeza é algo que supera muitos modelos orgânicos e organizacionais, quase que se pode afirmar, com pouca margem de erro mas, com toda a certeza, abrindo espaço à discordância e exposição crítica, não há nada que se assemelhe a nível planetário.
O jogo em si mesmo não tem nada de especial. Vinte e dois indivíduos a correr atrás de uma bola, chutando-a de um lado para o outro, através de pequenas habilidades pessoais e combinações prévias ou fortuitas, com o objetivo de a fazer ultrapassar e evitar que ultrapasse uma determinada linha delimitada na sua extensão e altura. Lá pelo meio e à volta seguem os juízes. Têm um papel secundaríssimo para o jogo em si mas podem mudar a história de um momento para o outro sem que nada lhes aconteça (a não ser ficar na história por motivos pouco abonatórios).
Então, o que faz isto extraordinário?
Desde o início do futebol, o que se mantém, nota-se e amplia-se a escalada da projeção emocional sobre cada pormenor, sobre cada movimento, elevada à superação de cada interveniente e do coletivo sobre o antagonista. Ou seja, há algo de primitivo na glorificação que o humano concede a si próprio na criação de adversidades e adversários para os poder vencer e gloriar-se! (Os grandes felinos – também - preferem caçar as vítimas em corrida!?)
Depois veio o mediatismo que concentrou e concentra ainda mais os sentidos sobre o momento.
Exponenciou-se a tecnologia para valorizar o que os sentidos não captam.
E a tudo isto adicionou-se valor em dinheiro! A cereja no topo do bolo.
Não há nada no mundo com o mesmo impacto simultâneo. Nenhuma outra ação humana aglutina a força dos símbolos nacionais (a cor, a bandeira, o hino), a comunicação, a agitação social, o contraste de sentimentos antagónicos (alegria e tristeza), a alienação nutrida pelo próximo embate, sentimento coletivo… e tanto movimento económico-financeiro!
O Mundial de Futebol é também um Estado supra Estados. Chega, impõe as regras, provoca mudanças radicais em todas as áreas de mobilização (redes de toda a natureza) e edificação social (estádios, hotéis, acessos,… jardins) e depois ficam os destroços! Terminou, partiram. Para trás fica tudo como antes e pior que isso.
Há rostos sem responsabilidade de nada - os presidentes das entidades do futebol são uma espécie de relações públicas sem conhecimento e responsabilidade de nada. Tudo acontece, tudo passa, eles permanecem intocáveis.
Porém, quando acaba um Mundial, o mundo como que sai de um estado de letargia para voltar ao normal!
Depois do Mundial de Futebol até parece que há vida, não é?
Ah! Portugal fez história nos Europeus de canoagem! Conseguiu o seu melhor desempenho de sempre em Europeus de canoagem de pista, com seis medalhas. E Emanuel Silva e João Ribeiro juntaram, no passado domingo, o título Europeu ao Mundial conquistado em 2013!
Que coisa estranha que se entranha e mexe com as pessoas!
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Só, na precariedade
O seminário “Migrações. Que Perspetivas?, organizado em parceria com a associação portuguesa Mulher Migrante, enquadrado num ciclo de colóquios sobre a temática "O 25 de abril e a liberdade de emigrar", iniciada em abril no Palácio das Necessidades, em Lisboa, e que já passou pela Universidade de Berkeley, na Califórnia, pela Universidade Aberta, em Lisboa, chegou esta semana a Paris devendo continuar até outubro em instituições portuguesas e estrangeiras.
Na Universidade Sorbonne, sobre a nova diáspora portuguesa, Isabelle de Oliveira, diretora da Faculdade de Línguas Estrangeiras Aplicadas da Sorbonne, apontou "uma nova diáspora no limiar da precariedade, em condições péssimas", em que praticamente todas as semanas recebe doutorandos ou doutorados que vêm bater à porta do seu gabinete para pedir ajuda. Este é o novo rosto da emigração portuguesa. Na emigração dos anos 60 e 70 ainda havia um espírito de solidariedade. Neste momento, essa solidariedade acaba um bocadinho por se atenuar".
O colóquio aconteceu uma semana depois de o Instituto Nacional de Estatística ter revelado que Portugal perdeu quase 60 mil habitantes em 2013 por causa do aumento do número de portugueses a emigrar e da redução de nascimentos.
Este isolamento, provocado por diversas causas mas que se acentua com a diminuição de valores fundamentais da convivência entre os humanos, como a solidariedade, remete-nos, inspira-nos um certo revivalismo, a revisitação da única obra publicada em vida por António Nobre (Só, Paris 1892), as influências e o modernismo português de há um século. E, consequentemente, mergulha-nos no paralelismo asfixiante.
O modernismo em Portugal desenvolveu-se aproximadamente desde o início do século XX até ao final do Estado Novo, já por 70.
O Modernismo Português ocorreu num momento em que o panorama mundial estava muito conturbado, de maneira particular entre a Revolução Russa de 1917 e a Primeira Guerra Mundial de 1914-18. Em Portugal dá-se a implantação e lenta implementação da República.
Este período foi difícil, porque, com a guerra, estavam em jogo as colónias africanas que eram cobiçadas pelas grandes potências desde o final do século XIX. O marco inicial do Modernismo em Portugal foi a publicação da revista Orpheu, em 1915, influenciada pelas grandes correntes estéticas europeias, como o Futurismo, o Expressionismo, etc., reunindo Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros, entre outros.
A sociedade portuguesa vivia uma situação de crise aguda e de desagregação de valores. Os modernistas portugueses respondem a esse momento, deixando atrás o acanhado meio cultural português, entregando-se à vertigem das sensações da vida moderna, da velocidade, da técnica, das máquinas. Era preciso esquecer o passado, comprometer-se com a nova realidade e interpretá-la cada um a seu modo. Nas páginas da revista Orpheu, esta geração publicou uma poesia complexa, de difícil acesso, que causou um grande escândalo naquela época. Mas a revista Orpheu teve uma curta duração publicando-se apenas um número mais e não tornaram a haver novas edições da mesma.
São características de estilo deste movimento: o rompimento com o passado, o carácter anárquico, o sentido demolidor e irreverente, o nacionalismo com múltiplas facetas - o nacionalismo crítico, que retoma o nacionalismo em uma postura crítica, irónica e questiona a situação social e cultural do país, e o nacionalismo ufanista (conservador), ligado principalmente às posturas da extrema-direita.
O tempo de precariedade exige esperança solidária que não deixe cair cada um e cada uma num calvário de solidão.
“Moços do meu paiz! vereis então
O que é esta vida, o que é que vos espera...
Toda uma Sexta-feira de Paixão!” (António Nobre)
terça-feira, 1 de julho de 2014
Os ridículos do mundial
Os Ridículos é título de bissemanário humorístico, começado a publicar-se em Lisboa, em 1895. Foi seu diretor Cruz Moreira, que, dois anos depois, viria a ser substituído por “Antonito”, outro humorista muito popular. Do seu programa, “praxe da imprensa alfacinha” que não queria evitar, ficamos logo a saber ao que vinha o jornal: “A nossa missão é ridicularizar, apepinar, troçar a humanidade em geral, e os políticos em particular. Não nos movem ódios, nem malquerenças, nem é nosso intento ferir, ou molestar as suscetibilidades de alguém”, esclarecia na sua edição de 3 de Outubro, a primeira. Apesar do entusiasmo inicial, o jornal foi suspenso em 1898, devido à forte concorrência entre os jornais humorísticos e ao elevado analfabetismo existente no país.
Oito anos depois, em 1905, é retomada a publicação e, juntamente com Eduardo Fernandes, reeditam Os Ridículos, aproveitando a oportunidade que lhes oferecia a efervescência política que precedeu a implantação da República. A partir de 1906, o jornal conhece então uma fase de grande desenvolvimento, enveredando pela crítica política e social e pela sátira aos acontecimentos dominantes da época. Os seus jocosos comentários granjearam-lhe uma popularidade e expansão que se manteria praticamente até ao fim do jornal, em 1974, sendo, um dos mais importantes e duradouros títulos humorísticos publicados em Portugal.
Em 2014, sem publicação mas com muita publicitação, dá-se mais uma epopeia de ridículos – não está inerente o caráter ou as pessoas, trata-se unicamente de uma abordagem sobre os acontecimentos que são dignos de riso – com a participação portuguesa no mundial de futebol no Brasil.
Os (acontecimentos) ridículos da seleção portuguesa são dignos de extensa lista. Mencionamos apenas alguns, os que foram publicados na imprensa, na comunicação em massa.
O improviso português na planificação tentando sempre, até ao dia que não o é, contrariar o princípio de Peter (ou princípio da incompetência de Peter, ou simplesmente princípio da incompetência: num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência) e a lei de Murphy (se alguma coisa pode correr mal corre mesmo), triunfou em larga escala nesta tragédia: lugares de estágio, lesões, desarticulação de discursos, arrogância de protagonistas, cabeçadas, expulsões… tudo!
Metade dos golos “marcados” por Portugal foram na própria baliza, autogolos do adversário!
Recorde mundial – ironia não fundamentada! – de utilização de jogadores num campeonato do mundo. Dos 23 da comitiva só dois não entraram em campo!
Eliminação ao segundo jogo. As justificações dadas por diretores, médicos, técnicos, jogadores, antes do terceiro jogo até no tempo verbal usado apontavam para a descrença absoluta.
Vedetismo, tatuagens e penteados!
Relação com as pessoas que acolheram, apoiaram, estavam na rua horas e horas à espera. Nunca houve espontaneidade. Foi tudo muito rebuscado, de semblante carregado – a não ser que desse dinheiro, imagem, que alimentasse o ego de alguém! Pouca atenção aos pormenores.
Ignorância total sobre o uso de símbolos nacionais. Hoje que joga futebol numa seleção nacional tem de ter um grau de literacia em semiótica de topo mundial. Não no mundo ocidental algo tão profundamente representativo do querer de um povo que uma alegria coletiva que uma seleção de futebol pode dar. Mais nenhum desporto é tão transversal, tão nivelador de classes. Sob aqueles símbolos está mais do que “uma equipa”. O futebol de seleções, mesmo que exacerbadamente industrializado, é uma identidade!
Prémio de 800 euros por dia! Pelo menos façam como os gregos, deem o dinheiro para fazer algo pelo futebol, por solidariedade!
Por fim, a chegada. A chegada, que ridículo. Vedetas mimadas e sem paciência para dar um pequeno sinal de esperança a quem acredita na identidade-entidade-seleção nacional! Mais do mesmo.
Tinham tudo para correr mal!
Ridícula figura!
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Condenados à pobreza?
Numa escala de um a 10, o estudo avalia individualmente os 41 países da OCDE com base em três pilares: o desempenho das políticas – económicas, sociais e ambientais -, a qualidade do sistema democrático e a capacidade do Governo para executar reformas. Segundo Daniel Schraad-Tischler, a educação foi o setor mais prejudicado em Portugal ao longo dos últimos três anos.
“Os orçamentos das escolas e das universidades caíram, as propinas aumentaram, perderam-se professores e, desta forma, a qualidade da educação piora de ano para ano”, sustenta o investigador, sublinhando que “cortar na educação, que é uma área em que se deve investir por ser voltada para o futuro, é um erro”.De facto, Portugal foi avaliado apenas com 4,1 no desempenho do setor da Educação, a nota mais baixa de toda a União Europeia – só a Grécia teve a mesma cotação. Os restantes países do sul tiveram todos uma nota superior.
( in http://observador.pt/2014/05/22/estudo-alemao-conclui-que-austeridade-destroi-qualidade-da-educacao-em-portugal/, consultado em 2014.06.12)
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quarta-feira, 4 de junho de 2014
O trono e a tribuna
O trono (de Espanha) e a tribuna (em Portugal) reclamam mudança!
O “terramoto” – epíteto de vários comentadores e protagonistas políticas atribuído aos resultados inesperados das recentes eleições para o Parlamento Europeu – o “terramoto”, direta ou indiretamente, continua a provocar ondas de choque.
O caso de Espanha, a abdicação do Rei Juan Carlos, é uma alusão indireta. Porém, já provocou o ressurgir da divisão entre os espanhóis quanto à continuidade da Monarquia ou referendar a implementação da República.
A incidência direta, das ondas de choque, repercute-se nos vários países europeus. A França foi o berço da expressão, logo na noite eleitoral: “é mais do que um aviso, é um choque, um terramoto”, disse o primeiro-ministro francês Manuel Valls.
Do outro lado do Canal da Mancha outros fantasmas. O terramoto UKIP (Partido da Independência do Reino Unido) nas eleições europeias mudou o tabuleiro político britânico. O partido eurocético thatcherista e anti-imigração, liderado por Nigel Farage ficou em primeiro lugar com 27,50% dos votos, deslocando a oposição trabalhista para um segundo lugar e os conservadores do primeiro-ministro David Cameron para o terceiro posto.
Pela primeira vez na história política moderna um partido, que não seja o conservador ou o trabalhista, ganha uma eleição nacional.
A extrema-direita vê reforçada a presença no Parlamento Europeu com a vitória dos partidos de extrema-direita em França e na Dinamarca e a eleição de um deputado neonazi na Alemanha e dois na Grécia. Sempre lá estiveram, mas agora ganharam força. As vitórias da Frente Nacional, do Partido Popular Dinamarquês e do UKIP, o terceiro lugar da Aurora Dourada e o segundo lugar do Jobbik vêm dar um novo cunho ao Parlamento Europeu que vê aumentar em muito o número de representantes da extrema-direita no hemiciclo (46, segundo as contas do Observador – um aumento de 20% em relação a 2009). Na Alemanha, os eurocéticos ganharam sete lugares, enquanto o Syriza na Grécia consegue eleger sete eurodeputados. O Observador previu os resultados e agora dá conta dos votos – comenta o Observador, jornal diário online, independente e livre.
Em Portugal, bem, em Portugal o caso é “sui generis” – como sempre! Fazemos as coisas de outra maneira. Os perdedores das eleições viram o caso como um mal menor, dada a tangencial nos resultados. Os ganhadores, em valores absolutos, como já aludimos no último número do Correio do Vouga, … mais uma vitória destas e a coisa estremecia, recordando as pelejas Pirro. Não foi preciso chegar a tanto, isto é, a mais uma vitória. Esta foi mesmo a última.
Mas o que pode um líder fazer quando acaba de ganhar? Normalmente, aconselha-se a moderação na vitória!
Por outras palavras, chamando à liça o “Crepúsculo dos ídolos”, de Nietzsche, não reagir às emoções. Porque uma reação forte conduz a desperdício de forças que mais transparece fraqueza.
E o individuo não gosta de um líder, mesmo que não o seja, que aparente fraqueza. Aliás, mesmo o fundador de uma religião, continua Nietzsche, está muito longe de dever necessariamente possuir uma imensa força – o seu papel é simplesmente o de um estímulo casual que dispara forças acumuladas, as quais, no entanto, cedo ou tarde haverão de explodir a atrair adesão. Quem o considera grande ou lhe atribui imensas forças confunde a faísca com o explosivo. Até podem terem sido ‘pessoas insignificantes’; mas a força estava acumulada e pronta para a explosão! Nessas condições, um estímulo casual que pode ser em si mesmo insignificante também conduz necessariamente a “grandes disparos de energia”.
terça-feira, 27 de maio de 2014
Uma Europa pírrica
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terça-feira, 20 de maio de 2014
O “casamento” europeu
A Europa é um caldo de culturas? Uma União de diversidades? Cada um por si?
Em 2013, num artigo para Revista Lusófona de Estudos Culturais, Eduardo Lourenço ajuda a colocar o acento tónico na Europa como continente atual ou do passado. [http://estudosculturais.com/revistalusofona/index.php/rlec/article/view/3/28, consultado em 2014.05.20]
A filiação da Europa contemporânea em três matrizes possíveis (mitológicas e políticas): a matriz grega da filosofia e da democracia, a raiz judaico-cristã e a ciência. Porém, aparentemente nenhuma delas apresenta uma dimensão consensual, enquanto definidora da Europa. Não admira pois que, hoje, a Europa viva um niilismo subtil e uma espécie de reflexo masoquista. Este ensaio discute também a dificuldade em que a razão europeia vive a partir da filosofia grega, ao introduzir um questionamento radical que abala a verdade mítica, instituindo um discurso quase sempre problemático e até dramático. Esta falta de coerência interna também se repercute na forma como o Estado e o Poder foram pensados a partir da matriz judaico-cristã. Realizando hoje o quanto a Europa foi perdendo a sua centralidade.
A Europa pode hoje ser vista como tendo três matrizes. Quando, recentemente, na Comunidade Europeia se quis institucionalizar uma espécie de discurso europeu para europeus e para o mundo fora dele, procuraram-se as raízes da Europa. Começou por se considerar que a referência grega era incontornável. Foi precisamente aí que a Razão surgiu, enquanto modalidade de discurso que compreende o mundo, reconhecendo-se que, fora dela, todas as outras compreensões pertencem ao domínio do irracional, do sonho ou do inconsciente. Outra raiz seria a raiz judaico-cristã, um par, ele próprio, também problemático e até dilemático. E, finalmente, a terceira, naturalmente, a da ciência.
Nenhuma destas dimensões da cultura europeia foi aceite como fundadora de uma possível identidade europeia. Isto parece um paradoxo, mas revela o quanto a cultura europeia foi progressivamente ficando no vazio aniquilador. Recusa rever-se em qualquer discurso que reflita aquilo que nós pensamos ser a essência da cultura europeia.
A Europa, e não apenas ela mas também a humanidade como um todo, está sempre em mudança contínua. Uma das características da História europeia é a capacidade que ela tem de se reciclar continuamente. Recicla-se na Idade Média em função de um certo conhecimento da filosofia grega, com Platão e Aristóteles. Mas conhecerá um segundo nascimento pela mão dos descobridores portugueses. Nós fomos, de algum modo, os agentes desse segundo nascimento. Os descobrimentos portugueses (e depois os espanhóis, os franceses, os ingleses etc.), ao promoverem o encontro com o Novo Continente estabeleceram enfim a Europa numa diferença. A Europa passa a ser o Velho o Continente, ao encontrarmos um mundo ainda não conhecido e sem inscrição para nós, portanto ainda sem leitura.
Foi nesta segunda Europa pós-descobrimentos que nós, europeus, começamos a ter uma identidade que não tínhamos, quando eramos apenas nações com uma certa coerência de herança grega, latina, etc., pois a partir de então passámos a ser vistos de fora pela primeira vez.
E visto de fora, mas também vistos de dentro, inspirados na problematização de Eduardo Lourenço, tendo em consideração que no próximo domingo, dia 25 de maio, a União Europeia vai a votos, que Europa queremos ser?
A União, mesmo que subjetivamente, está criada. É uma união de direito. Mas será uma União de facto?
Ainda é possível se não ficarmos convencidos que outros virão resolver os nossos problemas e nos mobilizemos para as melhores opções! E essas são a da solidariedade, da igualdade, da fraternidade,… estamos de novo – afirma o ensaísta - num momento de reciclagem, como já vivemos outros no passado, mas desta vez vivemo-lo como uma espécie de velhice precoce e já estamos doentes dessa relativa fraqueza. De qualquer modo podemos sempre reciclar-nos, porque este é o continente do Platão, de São Tomaz de Aquino, das catedrais e de Galileu.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Carta aberta ao ex-meu Banco
Banco,
Em tempos cheguei a dirigir-me para as instalações de V/ Exª com multiplicado entusiasmo e expetativa.
O Banco não era qualquer coisa, era o “meu” Banco! Poucas instituições recebiam este epíteto. Não era pela presunção dominante, possuidora, tratava-se de uma pessoa (comercial, claro) que inspirava confiança! Ao Banco, na simpatia do acolhimento, na proximidade do trato, entregava-se o produto de passado e as garantias de futuro! O cliente tinha nome, era bem-vindo! A escolha do Banco até ficava condicionada as estes aspetos menos utilitários.
Ir ao Banco era essencialmente para adicionar valor – quantos sentimentos, quanta satisfação, eram depositados com aquele pequeno ou grande, periódico ou ocasional, pecúlio!?
Cheguei a receber uma mensagem no aniversário e, na adversidade ou na necessidade, ali estava o “meu” Banco, com o meu dinheiro!
Propuseram-me produtos que me faziam duplicar o investimento e eu recusei. Aquilo não podia ser bom negócio. Só quem não conhece o custo do trabalho e o valor das coisas, a honestidade, é que podia enveredar por riqueza tão célere.
Lá aceitei o cartão de crédito, para uma emergência – mas qual emergência? Aceitei umas viagens, e mais um conjunto de bens essenciais para os tempos que se avizinhavam a grande velocidade, tudo a crédito – o juro que tinha de pagar era baixo, mitigado, evitava gastar as minhas poupanças!
O tempo mudou! Diz-se que evoluímos. Chegaram os tempos modernos.
O que tinha direito, pensava, deixou de ser. O Banco já não tem vida, tem autómatos e máquinas que desconheço.
O balcão foi derrubado – como é que posso ir ao “balcão” onde já não existe? – surgiram aqueles atendimentos intimistas e intimidantes, conversas sussurradas com quem não conheço e que também não me conhece!
Tudo para poupar, para evitar despesas supérfluas! Cheguei a acreditar que era verdade!
Deixei de receber cartas, deixei de receber o extrato,… passei a ser um encargo! Surgiram taxas por todo o lado, manutenção de conta, custos indiferenciados! Manutenção de conta?! - Isto é que é de bradar! E tudo isto, diz-se, porque movimento poucos montantes!? Não é pouco, é tudo o que tenho! E foi este pouco-a-pouco que, em tempos, fizeram de Vª Exª grande! Estarei enganado?
O Banco já não é “meu”! Agora é de um grupo anónimo, distante, que não me diz nada!
Entrava confiante, com aquele ar de não dever nada a ninguém, agora sinto-me envergonhado. Até já ouvi propor que todos os meus movimentos bancários, sobretudo os levantamentos, sejam tabelados?! Parece surreal, algo louco.
Afinal, todos os cortes nos meus (supostos) direitos e serviços mais não foi que um aumento de lucros!
Lamento!
Chegou a agora de acertar as contas! Vou retirar os meus parcos valores daí. É o primeiro passo. Posteriormente, quanto ao que já devo, numa próxima correspondência, vou comunicar pelas vias que Vª Exª usa comigo, um corte unilateral nos juros que me impôs. Pagarei honestamente quanto devo, com um juro razoável.
É a vida! O meu patrão também cortou no meu salário e eu tenho de sobreviver!
PS: e se a ficção fosse materializada?
terça-feira, 6 de maio de 2014
Limpinho… como na bola!
Tornou-se – limpinho - célebre na boca do treinador do Benfica, Jorge Jesus, quando há sensivelmente um ano, em abril de 2013, os “encarnados” ganharam ao Sporting deixando no ar a perspetiva de poderem conquistar o título nacional de futebol. Jorge Jesus reconheceu que o Sporting "esteve melhor organizado taticamente", mas "o Benfica fez a diferença", no dérbi no Estádio da Luz. O técnico encarnado rejeitou críticas quanto à arbitragem de João Capela, sublinhando que "o Benfica ganhou limpinho".
A este comentário ripostou Vítor Pereira "ainda é possível revalidar o título", desde que o campeonato seja decidido dentro das quatro linhas e não por fatores exteriores. Crítico em relação às arbitragens, o técnico portista sublinhou que "os três penáltis" do Benfica-Sporting "não podem ser branqueados" e contestou a qualificação de triunfo "limpinho, limpinho" dada por Jorge Jesus.
Na verdade, o Benfica acabou por perder tudo nessa época em pouco mais de uma semana, tendo o FC Porto ganhado o campeonato ironizando com um título “limpinho, limpinho”.
Se há coisas que não restam dúvidas a ninguém, no futebol poucas vitórias são limpas – direta ou indiretamente!
O Governo de Portugal, influenciado por esta convicção – só pode ser!? – declara que as finanças do país vão ficar libertas de qualquer espartilho dos credores, sobretudo depois da (suposta) saída do Programa da Troika, um saída limpa! Limpa?!
Pensemos com seriedade, diga-se a verdade!
De acordo com o 'Economic Outlook' da OCDE, divulgado na terça-feira, dia 6 de maio, a dívida pública portuguesa, segundo os critérios de Maastricht, deverá atingir os 130,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e voltar a subir em 2015, para os 131,8%.
Esta previsão contraria o otimismo do Governo, que espera que a trajetória em alta da dívida pública comece a inverter-se em 2015: no Documento de Estratégia Orçamental (DEO), divulgado na semana passada, o Executivo previa que, depois de chegar aos 129% do PIB em 2013, a dívida pública atingisse os 130,2% em 2014, recuando para os 128,7% no próximo ano.
A OCDE estima que o índice harmonizado dos preços ao consumidor (HIPC) recue 0,3% em 2014 e que aumente 0,4% em 2015.
Quanto ao défice orçamental, a OCDE estima que "as metas do défice [orçamental] de 4% e 2,5% acordadas com a 'troika' [Fundo Monetário Orçamental, Comissão Europeia e Banco Central Europeu] para 2014 e 2015, respetivamente, deverão ser alcançadas".
Portugal está no grupo de países que precisa de consolidação orçamental até 2030 para cumprir o objetivo de dívida pública, mas que já antecipou uma parte considerável dessa consolidação.
Isto é limpinho?!
O entusiasmo pela verdade desportiva é de tal ordem que até Medina Carreira - paladino da verdade nas contas públicas, do rigor orçamental, arauto da desgraça – considerou, cúmulo dos cúmulos, ser necessário ter alguém capaz de liderar o País como Pinto da Costa fez com o FC Porto. “O FC Porto devora tudo há cerca de 30 anos porque teve um dirigente capaz de pôr ordem no clube”, referiu, salientando a falta de dirigentes competentes a liderar Portugal, no programa ‘Olhos nos Olhos’, da TVI24, na segunda-feira dia 5 de maio!
Que grande confusão, Sr Primeiro Ministro!? Que diabo de recurso, Dr Medina Carreira?!
Agora é que nunca mais saímos desta situação imunda – no sentido mais profundo do étimo latino (arejado, limpo)!
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Frei Tomás
O conhecido aforismo sobre a discrepância humana entre as palavras e os atos, ou a ação, é recorrente em todos os setores da vida. É certo que há diversas causas, interferências involuntárias, que podem suscitar os desencontros entre o ato de pensar, a comunicação expressa e a ação concretizada: a natureza da arte, a pressão mediática, o cansaço de um dia, “lapsus linguae”, ignorância no assunto, vontade ou obrigação de pronuncia sobre matérias não muito aprofundadas, etc.
Frei Tomás – não se sabe qual deles! – fica na história da dialética como incoerente, pelo menos é esse o sentido do adágio, que não será apenas para forçar a orientação da rima, "bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”, querendo demonstrar a contradição entre os atos e as palavras – coisa fácil e recorrente, porventura, para a maioria dos humanos! Porém, esta repercussão sobre Frei Tomás poderia ser de outra ordem, se essa ordenação fizesse sentido, se expressasse um outro todo; por exemplo, “"bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e o que ele faz”! Bastava retirar a negação, o advérbio, e “este” Frei Tomás bem podia colher o epíteto de “o coerente”!
Na vida pública, com maior relevo na política, pelas razões já aludidas, e sem querer escamotear a impreparação de alguns protagonistas, é recorrente a incoerência, a demagogia, a suposta mudança de opinião. Mas, a política, também tem esse pormenor do jogo, de não demonstrar tudo, de provocar a reação da opinião contrária. Contudo, neste caso, quando a retórica é arte, requer-se um alto nível de ciência política, de conhecimento de todos os domínios da arte de trabalhar o espaço publico – muito para além das conveniências do lugar de momento ou dos focos circunstanciais!
A “história” de Frei Tomás tem, como é facilmente admissível, muitos contornos. E, mais do que qualquer observação crítica, é reflexo do ser humano na sociedade, na tribo, a tribo plural que nos une e afasta, que destinge entre iguais e distingue entre diferentes e diversos. Mais do que juízo moral ou ético, são as máscaras que obrigatoriamente são colocadas para que a verdade não mate, a convicção não separe, a determinação não apoquente! E a máscara (do rosto, das palavras, das ações) tem sentido biunívoco, inverso e paralelo, conforme as certezas e as circunstâncias: a criança diz à mãe que fez uma asneira grave, para a sua idade, como? Um governante, perante a tragédia, transmite ao país a notícia, como? O médico, ao lado do leito do paciente com doença terminal, comunica o diagnóstico, como?
Mesmo consideração, portanto, estas incoerências como próprio às delimitações da espécie, fazendo uma espécie revisitação de “Freud: a presença da antiguidade clássica” (Ana Lúcia Lobo, São Paulo), há ilustrações recentes que sugerem este apontamento.
Jerónimo de Sousa, o dirigente comunista, no caso mais recente, assacou ao Presidente da República o aforismo – a propósito do discurso nos quarenta anos do 25 de abril!
Um outro caso, porventura mais ou menos prosaico, é também destes dias de Tríduo Pascal. Semana Santa, sexta-feira, procissão do enterro do Senhor – lenta, circunspecta, penumbrante! O percurso, em Aveiro, vai da igreja da Apresentação para a de Nossa Senhora da Glória. As Irmandades ladeiam os andores, um simbolizando o esquife de Jesus e outro o de sua Mãe, na evocação de Nossa Senhora da Soledade. Ato profundamente introspetivo, pela memória, pela sacramentalidade, pela Mensagem. Chegados à igreja de Nossa Senhora da Glória, no epílogo desta liturgia, não é que os Irmãos (da Irmandade) debandam antes de terminar? O Administrador Diocesano, pela Sé Vacante, vai proferir as palavras finais, algumas dirigidas aos próprios, mas o Senhor já não tem lá os seus Irmãos!? Serão seguidores… de “Frei Tomás”!?
terça-feira, 8 de abril de 2014
Desemprego jovem
Numa ação concertada da Justiça e Paz Europa, uma rede Justiça e Paz que congrega 30 comissões nacionais de toda a Europa, mandatadas pelas respetivas Conferências Episcopais para se pronunciarem e agirem nas áreas da justiça social, paz e desenvolvimento, há um pronunciamento sério, estudado, na Quaresma de 2014, sobre desemprego jovem, uma crise que ameaça o nosso futuro!
É imperioso realçar a reflexão (excertos) da Justiça e Paz Europa.
Os jovens europeus estão a pagar um preço caro pela crise económica que atravessa a Europa. Embora o problema do desemprego existisse já antes da crise financeira e económica, a taxa média nos países da União Europeia (UE) é cerca de duas vezes superior à da restante população, com vários países a registarem taxas acima de 50%. É importante juntar todas as vozes aos apelos por uma estratégia que combata esta situação de injustiça.
Hoje, a realidade para muitos dos nossos jovens é a de que se encontram excluídos do mundo do trabalho, em resultado das condições económicas e sociais dos seus países e da falta de oportunidades adequadas às suas capacidades e qualificações. As consequências, tanto a nível pessoal como social, são devastadoras. A atual geração jovem pode tornar-se numa geração perdida e o risco de exclusão social associado à idade jovem constitui um sério desafio para as nossas sociedades europeias.
As necessidades do mercado e do setor financeiro foram colocadas à frente das necessidades da sociedade e em particular dos jovens. Eles representam o futuro da nossa sociedade, mas as suas perspetivas de vida têm sido diminuídas e a sua dignidade desrespeitada, correndo o risco de se tornar uma geração perdida. O impacto desmoralizante do desemprego desencoraja muitos jovens de investir na sua formação e de empreender. Outros decidem emigrar procurando melhores oportunidades. Se a liberdade de deslocação de pessoas entre países é certamente bem-vinda, as consequências para as comunidades que perdem um número elevado de jovens, como a portuguesa, poderão ser devastadoras.
É necessário o envolvimento dos empregadores para que se criem genuínas oportunidades de emprego para os jovens. Igualmente importante é a existência de regulação que previna a exploração dos trabalhadores jovens, garantindo que o seu trabalho é remunerado de forma justa e que quaisquer oportunidades de formação e estágio são enquadradas de forma adequada.
É necessário reconhecer que muitos jovens estão desiludidos com as lideranças e processos políticos, que consideram terem ignorado as suas necessidades e preocupações. A generalização desse descontentamento é perigosa para a democracia e ameaça a estabilidade futura da nossa sociedade. Assistimos a nível europeu a manifestações desse desencanto e revolta de forma diversas, incluindo protestos violentos e apoio a movimentos políticos extremistas. Paralelamente a uma estratégia para o emprego, os líderes políticos devem investir na democracia, utilizando mecanismos de consulta que envolvam os cidadãos e os jovens em particular nos processos de solução desta crise.
Neste contexto, os valores que comunicamos aos jovens relativamente ao trabalho e ao emprego são importantes. Os valores fundamentais da solidariedade, bem comum e serviço aos outros podem perder-se na nossa sociedade crescentemente materialista.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Revolução social
Neste último ano encruzaram-se vários elementos essenciais à ponderação de um pensamento mais social. A vida das pessoas mudou radicalmente. Crescem as tensões. Há sinais de esperança?!
A mediatização do factual, do local, do pontual torna universal o que não o é; confunde-se muitas vezes a parte com o todo ou, numa inspiração comparativa, a árvore com a floresta. Pese embora esta premissa, há em muitos setores da atividade humana a preocupação pelo bem comum. Será por isso a insistência oportuna e importuna, a repreensão, ameaça e exortação com toda a paciência e empenho para instruir, para elevar para patamares de qualidade o que, simples ou complexo, tende-se a vulgarizar – coisas simples, como a produção agrícola, os serviços de proximidade, a energia, a justiça distributiva, o desempenho das instituições, a seriedade dos protagonistas e atores sociais e políticos, os agentes económicos, o bem comum. Provavelmente, chegou o tempo em que os homens e as mulheres já não suportam o que é essencial para a sobrevivência e todos. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustam mestres para si. Apartam os ouvidos da verdade e atiram-se às fábulas: a perspetiva iluminista de uma atitude de vida voltada para a procura egoísta de prazeres momentâneos, o sentido pejorativo de "hedonismo", sinal de decadência.
Neste ano (13.03.2013 – 13.03.2014) o mundo – quem, no mundo, o quer ver para além do umbigo, claro – foi impelido a não se contentar de si e a encontrar o outro, numa rede de relações cada vez mais autenticamente humanas. Apesar dos sinais de discórdia e separação, houve sinais novos, os homens e as mulheres do início de XXI são capacitados a transformar as regras e a qualidade das relações, inclusive as estruturas sociais: pessoas capazes de levar a paz onde há conflitos, de construir e cultivar relações fraternas onde há ódio, de buscar a justiça onde prevalece a exploração do homem pelo homem. Porque somente o sentido do outro é capaz de transformar de modo radical as relações que os seres humanos têm entre si. Inserido nesta perspetiva, todo o homem de boa vontade pode entrever os vastos horizontes da justiça e do progresso humano na verdade e no bem.
O Papa Francisco está a ser um expoente de esperança: vai materializando a Primavera da Igreja Católica protagonizada pelo Concílio Vaticano II e propõe, incentiva, empele, convida, revoluciona (com obras!) todos os homens e mulheres com um humanismo à altura do desígnio de amor de Deus sobre a história, um humanismo integral e solidário, capaz de animar uma nova ordem social, econômica e política, fundada na dignidade e na liberdade de toda a pessoa humana, a se realizar na paz, na justiça e na solidariedade.
terça-feira, 11 de março de 2014
Invasões e evasão
O cidadão comum – aquele cuja vida é orientada por processos simples alicerçados em valores, com olhar atento à realidade que o rodeia e participação ativa na transformação do mundo – fica estupefacto com estes movimentos de invasão; chegam a provocar urgência de evasão, de fuga do mundo – dando razão, porventura, mais uma vez, a Rosseau e à “teoria do bom selvagem”: o homem por natureza é bom, nasceu livre, mas sua maldade advém da sociedade que, com a sua presunçosa organização, não só permite mas impõe a servidão, a escravidão, a tirania e inúmeras outras leis que privilegiam as elites dominantes em detrimento dos mais fracos, reiterando assim a desigualdade entre os homens, enquanto seres que vivem em sociedade.
O cidadão comum compreende a antiguidade, com territórios sem Estado, construída ao fio da espada, de ambições tirânicas, sem uma organização e uma sociedade de nações, sem protocolos estabelecidos baseados na construção da paz e do bem comum!? O cidadão comum resigna-se perante as invasões helénicas (no século XX, a. C), dos Celtas (480 a.C.), do Império Romano (218 a.C.), dos Bárbaros (entre 300 e 800), das invasões muçulmanas (a partir de 711). Até compreende as invasões mongóis no oriente Japão (1274-1281)!
As invasões francesas e napoleónicas, do século XVIII-XIX, bem mais perto no tempo, como consequência da Revolução Francesa e início da luta entre a França revolucionária e a Europa conservadora levantam estupefação!
Mas passado este período, já cria assombramento como a opulência, soberba, cegueira e ambição desmedida de uns conduziram à Primeira Grande Guerra (de 28 de julho de 1914 até 11 de novembro de 1918).
E a Invasão da Polónia em 1 de setembro de 1939!? – assustador tanta semelhança com o tempo presente!
E as coincidências continuam! Quando um grupo de separatistas de uma província – uma província?! – resolve rebelar-se contra o governo central conduzindo à Guerra do Kosovo (24 de março a 3 de junho de 1999), à intromissão da NATO e à consequência geoestratégica que mais interessava à mesma organização, sem medir o alcance do disparate!
E depois surgiu a Guerra na Ossétia do Sul em agosto de 2008…
A Crimeia!
Com tantos cenários complicados de entender, num mundo que tem a Organização das Nações Unidas como “mesa” de encontro, o cidadão comum deseja a evasão! Mas para onde?
O mundo terá de cuidar do trigo e não perder a paz por causa do joio.
(in Correio do Vouga, 2014.03.12)
terça-feira, 4 de março de 2014
Crimeia
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Dignitário no serviço aos outros
Este é mais um passo evangelizador da Igreja de Aveiro!