Indignação ou “dignação”?
Uma leitura possível dos acontecimentos recentes à volta dos professores começa por encontrar razões para o seu entendimento na expressão escolhida para encimar os acontecimentos de Lisboa.
Ao escolherem, quem o fez, “marcha”, cuja raiz etimológica está na terminologia militar (de marcial), deram à manifestação um sentido belicoso. Porque, em boa verdade semântica, só marcham os elementos componentes de uma força marcial (aceitando-se o vulgarmente entendido como soldados).
Portanto, está em “marcha” um corpo marcial, passe a redundância!
E como tantas outras forças que marcharam para Lisboa, também esta encontrará resistência, apenas se se encontrar outro Martim Moniz, alguém que se deixe entalar!
Depois, outro elemento curioso é o da indignação!
Centra-se aqui toda uma matriz da psicologia de massas: não há lugar ao pensamento crítico! Vejamos alguns apontamentos:
a) Em Agosto de 2005 são congeladas as carreiras! Reacção: “é um mal necessário”!
b) Quando a Senhora Ministra da Educação fez publicar o Despacho nº 13599/2006, de 28 de Junho – o proto indicador da revolução! – as reacções foram de descrédito, com banalidades do género “Oh! Assim não se vai aguentar lá muito tempo!...” Pouco ou nada se mexeu.
c) Em 19 de Janeiro de 2007, o Decreto-Lei n.º 15/2007, consagra a mudança! Nada, comparativamente, claro!
d) Em 22 Maio, o Decreto-Lei n.º 200/2007, abre o concurso para Professor Titular. Entre a expectativa do “eu vou ser, em princípio” e “para pior não havemos de ir”… nada!
Quantos debates, fóruns, esclarecimentos foram feitos?! Quantas greves tiveram impacto? Quantos docentes ficaram em “casa” porque três ou quatro não-docentes, de lugares-chave das escolas, impediram que estas abrissem?! Ou com propostas de intervenção que passavam pela demissão… dos outros!?
E, nesta via pela dignação, a única marcha imperturbável, que foi feita, foi a da Senhora Ministra! Traçou o plano e cumpriu-o!
Portanto, “indignação” nesta altura?!... Só se for antonomásia, para querer dizer Ministra da Educação.
O prefixo “in” é de negação, negação de algo que é digno, que merece consideração! Ou seja, é necessário inverter o percurso e fazer o caminho da dignidade, da “dignação”: atento, responsável, crítico, participativo, criativo, isto é, com o que cada um dos protagonistas tem em maior potencial: usar a inteligência!
Caso contrário, a única marcha possível de indignação será semelhante… à saída do Camacho do Benfica…! Em que o registo do subconsciente referirá “isto está tão mal que, com este ou sem este, não há remédio”!
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