terça-feira, 30 de junho de 2015
O tempo da esperança
quarta-feira, 24 de junho de 2015
A casa comum
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Prudência, justiça e idoneidade
As coisas novas implicam prudentes capacidades visionárias de justiça e idoneidade! Fazem parte da matriz fundacional da nossa cultura e da nossa existência como Povo. Mas estas particularidades, que são princípios universais, só existem se praticadas, exercidas!
A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito.
Por toda a parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por si só basta para mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Esta situação preocupa e põe ao mesmo tempo em exercício o génio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que impressione com tanta veemência o espírito humano.
Completaram-se, no dia 15 de maio, 124 anos desde que Leão XIII publicou, na Rerum Novarum (número 1), este pórtico atualíssimo! Tudo o resto, o conteúdo, sofreu alguma erosão à custa de muitos erros que a história terá ensinado. O que era um forte sinal para leitura do tempo que se aproximava veio a consumar-se com muita irresponsabilidade.
Um pouco mais recuado, há 836, passarão dia 23 de maio, um outro Papa, Alexandre III, reconhecia D. Afonso Henriques como Rei! A (bula) Manisfestis probatum, em 1179, abriu as fundações de Portugal!
Atendendo às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a proteção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste!
É um bem poder ser senhor do nosso próprio projeto! A empresa humana, o que cada pessoa pretende hoje para o futuro não é possível concebe-lo sem lembrar estas etapas da vida!
Esta semana vivemos intensamente as duas realidades. Duas realidades que se fundem e projetam, que se implicam reciprocamente!
Lutar por mudar as coisas, transformar em oportunidades as vicissitudes: eis, enfim, o que temos pela frente!
quarta-feira, 13 de maio de 2015
12 de maio – II
Princesa: caem-te os olhos como moldura do rosto e dos ombros,
O colo descoberto, tentador pode ser o colo de uma mulher
A qualquer hora, e a estirpe,
Se quem foi herdeira da coroa de Portugal e regente do reino
E continua virgem precisa mostrar a estirpe, mostra-la na cabeça cingida
Por uma crespina de ouro, pérolas e pedrarias da tua real condição
E traje de corte conforme ao que a teu estado convém.
Poderia dizer-se que te vestiste respeitando o plano. E, contudo…
Convocada à encenação do corpo, ao falso natural da pose
Para te fazer chegar belíssima em retrato às cortes europeias,
Chamada à impossível inocência da figuração
Que animaria algum consorte possível – convocada, defraudaste
A oficina do pintor régio. A cara em sacrifício, a rígida postura frontal,
Frio o olhar nas faces róseas,
Como haveria de caber a tristeza de um ícone religioso
Num projecto de enlace matrimonial, mesmo sem vestígio amoroso?
Tu, Joana, Princesa, Beata, enquanto não chegava o tempo
De irmão rei inventar a razão de Estado,
Tu, num convento em Aveiro, inventavas
A falsa missiva de amor. Os artistas lutavam para inventar o retrato
E tu inventavas a santa desobediência.
A desobediência do figurado. O retrato que se nega ao encenador.
A desobediência aos astros, à nação, aos tempos, à família
E ao dever de colocar o corpo próprio e seus efeitos à ordem do mundo.
Tu, Joana, Princesa, Santa sem certificado, inventavas em silencia a palavra “não”.
A palavra “não” porque sim e aqui fico e aqui morro,
Mesmo que nunca professe neste convento de Jesus,
Como nunca professaste,
Não haverá de cumprir-se o alto desígnio de Sua Majestade
Quanto à sorte que a mim cabe
Retrato da Princesa Joana Santa. Porfírio Silva (2013), Monstros Antigos. Poesia. Lisboa: Esfera do Caos.
terça-feira, 5 de maio de 2015
12 de maio - I
Aveiro para daqui a uma semana para celebrar a sua padroeira, a Bem-aventurada Joana de Portugal retratada, acolhida, representada, vivida como Santa.
Há motivos de sobejo para olhar para este acontecimento. As relações Igreja-Estado, a teoria dos dois poderes, o cesaropapismo, as duas espadas, o trono e o altar,… porque é que para o tempo neste tempo para ver passar, por metáfora e em sentido literal, um símbolo presente de outro momento?! Em plena afirmação de tudo (correntes de pensamento; teorias políticas, económicas,… relativismo exacerbado) sobre todos (sobretudo os que menos podem) aproveitamos o “12 de maio” para ver para além do que é possível verificar: dois olhares para interpretar a realidade à luz da presença de Santa Joana em Aveiro.
Hoje, Retrato de uma princesa desconhecida (Sophia Mello Breyner Andresen):
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Quando a terra treme, “Senhora das Tempestades“
As fragilidades continuam a emergir quer do seio da Terra quer na superfície terrestre, como ainda recentemente o abordámos – a propósito da tragédia do norte de África expressa nas águas do Mediterrâneo - e foi coletivamente sensibilizado por vários organismos da Igreja Católica, no passado domingo, com a iniciativa “Hashtag” #somostodospessoas : “acreditamos que a União Europeia pode e deve fazer mais por cada uma destas pessoas, nomeadamente, olhando de forma diferente para os seus países de origem. As organizações da Igreja Católica pedem medidas que ultrapassem a excessiva preocupação securitária e de controlo de fronteiras e que se pensem alternativas de maior humanização.”
Mas a Terra treme ainda bem mais fundo quando vemos que a morosa soberba numa tragédia como a do Mediterrâneo contrasta com a rapidez de disponibilidade e serviços como no caso recente do tremor de terra do Nepal!
Os números são igualmente dramáticos. As condições de vida, antes e depois, são chocantes. Todos morremos um pouco com estes que sem nada poder fazer perecem nos escombros de uma terra que tantas vezes viu ser derramado sangue bélico para permanecer mãe para os que agora engole, abafa, soterra, apropriando-nos de Manuel Alegre, no “Senhora das tempestades” , quanto espanto e quanto medo: “Senhora das tempestades e dos mistérios originais, quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo, trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais, e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo”.
Perante isto, até o “25 de Abril” parece caber na Betesga - curiosamente Betesga significa beco, pelo que provavelmente a rua teve origem numa antiga ruela que existia no local antes do Terramoto de 1755! Diga-se, ao jeito de glosa, que em abono da verdade muitos responsáveis do nosso país têm feito tudo para que tal aconteça. Há um desrespeito permanente pelas datas-símbolo de identidade, de memória histórica,…. Fica-se sem saber se é por caráter submisso ao passado, por discordância ideológica, pela tese do Estado musculado ou por nostalgia dos tempos de recurso “a quem de direito” e arbitrariedades sumárias?!
Para concluir, socorrer quem pode morrer sob os destroços no Nepal, ou em qualquer outro lugar, é urgente, dispendioso, incontornável, pronto! – aplauda-se de pé a solidariedade humana! Mas há outros socorros que continuam a clamar pelas mesmas diligências (urgente, dispendioso, incontornável) e que se não são materializados em tempo útil, porquê?! Salvo a ingenuidade, a hipocrisia tem muitos rostos! E alguns parecem ser o da generosidade.
A Terra treme de muitas maneiras, compete-nos socorrer todos a cada momento vencendo a assombração, o medo, o canto dos corvos!
terça-feira, 21 de abril de 2015
Mediterrâneo: a “vala comum”.
Ninguém diria que, apesar de ser o maior mar interior do mundo, aquele que os romanos denominaram por “Mare Nostrum” e os árabes “Mar Branco” passou a ser uma enorme vala comum, um lugar de luto, podendo ganhar o nome, por extensão, de mar verdadeiramente negro. Se o Mar Negro tem esta designação por as suas ter grande densidade e diversidade de sais minerais que lhe dão uma coloração escura, o Mediterrâneo, para além de ser o mais poluído do planeta (cerca de 15 milhões de toneladas de detritos são despejados por ano nas outrora límpidas águas que banham o sul da Europa e norte da África, sobretudo derivado da atividade turística e de circunavegação), atualmente o “Mar-entre-Terras” está transformado num grande cemitério! Todos os dias há relatos sobre esse movimento “a salto” até à Europa. E todas as semanas são milhares que chegam e tantos outros que não chegam. Pelo que se sabe e não sabe com exatidão, muitos mais perdem a vida na tentativa de atravessar. Dá para fazer uma vaga ideia de quantos estão para sempre sepultados numa autêntica vala comum.
Mas o que se pode fazer?
Nem a Europa conseguirá “absorver” tanta gente sem criar uma crise demográfica e social grave nem os países de origem têm capacidade de o resolver só por si, pelas lutas tribais ancestrais que, após as revoluções da Primavera Árabe, se reacenderam. Estamos ainda a ver as consequências de dois erros grosseiros da avareza humana: um, histórico, o processo de autonomia mais não foi do que entregar os povos africanos à sua sorte ou à mercê de uns tiranetes imitadores de outros, sobretudo europeus do segundo e terceiro quartéis do século XX; económico-industrial, o segundo erro, as nações ricas tentam saquear as riquezas de África a qualquer custo e sem nenhuma responsabilidade e responsabilização, por parte dos organismos internacionais (ONU à cabeça), que obrigasse ao respeito pelos povos africanos, à sua cultura e organização social!
O traçado das fronteiras que saiu da Conferência de Berlim vigorou até ao fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Foi realizada entre 19 de novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, e teve como objetivo organizar, na forma de regras, a ocupação de África pelas potências coloniais e resultou numa divisão que não respeitou, nem a história, nem as relações étnicas e mesmo familiares dos povos desse continente em causa. Portugal propôs e a Alemanha organizou, pelo Chanceler Otto von Bismarck. Participaram também a Grã-Bretanha, França, Espanha, Itália, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Estados Unidos, Suécia, Áustria-Hungria, Império Otomano.
A Alemanha, como potência derrotada na I Grande Guerra, teve de ceder todas as colónias que possuía desde então aos países colonizadores que a venceram. Os traçados então alterados vigoraram até ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Com o fim da Segunda Grande Guerra, começa a proceder-se à independência dos territórios, que são de repente transformados em países e as suas fronteiras definidas sem mais qualquer estudo ou alteração. Criam-se vários Estados no interior do continente, sem quaisquer ligações ao mar, o que obriga a acordos com os países limítrofes que possuem portos marítimos, para escoamento dos seus produtos.
Uma Conferência para África, já (e já é tarde… )… Para acabar com a barbárie!
terça-feira, 14 de abril de 2015
A candidatura
Há pessoas que nunca foram candidatas a nada! Num país e estado de direito – assumimos a priori as dúvidas que a afirmação suscita – é altamente louvável o passo à frente porquanto os direitos são também deveres. Todos os portugueses deveriam tentar uma candidatura ao serviço à cidadania ativa, como dever ser o cuidado da polis (a política), pelo menos uma vez na vida.
E porque não candidatar-se ao mais alto cargo do país?
Conta-se, como anedota ilustrativa do caráter perante as oportunidades, que, numa determinada esplanada, dois amigos, um deles português e outro de um país muito desenvolvido, enquanto conversavam aproximou-se um automóvel topo de gama. O cidadão português terá olhado com desdém lançado um comentário depreciativo, referindo que não passava de vaidades. Enquanto isso, ao lado, o comentário foi: “belo carro, ainda hei-de ter um”!
Camões disse-o de maneira erudita na figura do “velho do restelo” (Canto IV, 90-104), tantas vezes revisitado.
No momento da largada ergue-se a voz de um respeitável velho que sobressai de entre todas as que se tinham feito ouvir até então. Ela representa todos aqueles que se opunham à louca aventura da Índia e preferiam a guerra santa no Norte de África.
Enquanto outras vozes podem representar as falas das mães e das esposas, a reação emocional àquela aventura, o discurso do velho exprime uma posição racional, fruto de bom senso da experiência (“tais palavras tirou do experto peito”) e do sentido das vozes anónimas ligadas ao cultivo da terra, sobretudo no norte do país, defensoras de uma política de fixação oposta a uma política de expansão com adeptos mais a sul.
E assim, Gama representa o homem sempre insatisfeito que está disposto a enfrentar os mais difíceis obstáculos e a suportar os mais duros sacrifícios para conseguir o seu objetivo. Tinha perfeita consciência da lógica, da verdade e sensatez das palavras do Velho do Restelo, da condenação moral da empresa mas não lhe podia dar ouvidos porque levava dentro de si um incentivo maior e mais forte, um dever a cumprir imposto pelo rei e pela pátria e até um imperativo ético e psicológico. As palavras pessimistas do velho acabam por evidenciar também o heroísmo daquele punhado de homens tanto maior quanto mais consciente. O Velho do Restelo fala como um poeta humanista que exprime desdém pelo “povo néscio” ou seja, o clássico horror ao vulgo.
Se é português de origem, maior de 35 anos, não se gaste a depreciar. Reúna um mínimo de 7500 e um máximo de 15000 assinaturas de cidadãos eleitores e, até trinta dias antes da data marcada para a eleição, apresenta-as perante o Tribunal Constitucional, e candidate-se. Não se gaste desnecessariamente, é mais saudável agir!
terça-feira, 17 de março de 2015
2013-2015 – dois anos de Francisco
Iniciou-se esta semana o terceiro ano do pontificado de Francisco. O Papa, tal como acontece com outras figuras das religiões, ganhou reconhecimento público. O seu jeito de mudar o mundo cativou a força mediática. Ainda bem! Mas nada de novo, até com Jesus Cristo!
Porém, é muito agradável, pelo menos quando há um equilíbrio emocional, afetivo, psicológico, moral, é muito agradável ouvir publicamente dizer bem dos que são próximos. Tal reconhecimento, sublinhe-se: reconhecimento público, para além do agradável que reconforta até por provocar êxtases desmedidos. Na maioria das situações não passa de dialética de circunstância, da cosmética do agradável – em oposição a desagradável/deselegante. Portanto, há na Ágora, na praça, sobre o que se afirma de reconhecimento algo que não revela compromisso, autenticidade para corresponder exatamente à mensagem, ao conteúdo do que importa para mudar o mundo, as coisas governadas e quem governa.
Estes coros verbais, laudatórios, são rapidamente alterados para o confronto quando se chega ao essencial (seja qual for o propósito ou conteúdo)! Então, em nome da liberdade de pensamento, de opinião, da condenação de todos os quadros axiológicos ou éticos, a “verdadeira” opinião exalta-se e abomina exatamente o que o faz com que, por exemplo o Papa, exista. Em suma, a estética é boa mas a ética é complicada. E a moral… é melhor nem ser mencionada.
A propósito, com o mesmo fundo de reconhecimento, o documentário (“O Padre das prisões”) e o impacto que o Pe João Gonçalves gerou na sociedade portuguesa: “excelente”, “muito bem”,… etc. mas quando o Pe João defendeu que a eventual publicação de nomes de quem foi condenado por pedofilia não ajudava nada à integração e recuperação da pessoa,… “que pena! Até gostava deste Padre”!? – ouve-se e lê-se um pouco por todo lado.
Quase que apetece concluir que há determinadas figuras da Igreja, a própria Igreja, que seriam mais interessantes, muito mais interessantes, se não houvesse Jesus Cristo, o Evangelho. É uma pena! Porque são-no n´Esse mesmo!
terça-feira, 10 de março de 2015
O cego e a guitarra
Quando se aproximam momentos de decisão para o país, aumenta o ruído que disfarça ou distrai quem tem de escolher. E como isto não tem forma de parar, recordamos (para delírio ou delícia) Fernando Pessoa enquanto a rua é cheia de ruído.
O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade
Um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.
Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
Cheguei à janela
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
terça-feira, 3 de março de 2015
Memórias
Há sensivelmente um ano , em maio de 2014, Daniel Sampaio escrevia um artigo no jornal “Público” em que abordava os problemas do registo da memória na sociedade contemporânea. Dizia o autor de Memórias do futuro (2010. Lisboa, Editorial Caminho): “estamos a construir uma sociedade sem memória. Quando se questiona alguém sobre o seu passado, ouvimos dizer: “Não me interessa, quero viver um dia de cada vez.” Numa família, quando perguntamos pela sua história ou nos interrogamos sobre os valores que conferiram a sua singularidade, respondem-nos: “Sei lá, não quero saber dos outros tempos, quero viver o presente.” Figuras importantes da História de Portugal dizem muito pouco aos jovens de hoje, ou então a sua localização temporal sofre desvio de centenas de anos. Os relatos do passado, trazidos ao quotidiano pelos avós — os historiadores da família — são considerados inúteis, maçadores ou resultantes das confusões do envelhecimento. A leitura, essencial no treino da memória, está cada vez mais afastada dos hábitos quotidianos e é raro alguém, numa conversa trivial, citar algum livro marcante, ou reproduzir (com rigor) uma notícia mais distante.”
Sem querer desestruturar a matriz da tese apresentada, somos capazes de ser levados a pensar, que isto é grave e contagioso!
A Grécia, a Espanha, Portugal,… em vez de criarem um plano de apoio recíproco, esqueceram os problemas geoestratégicos comuns! Assim divididos será mais fácil (perder)!
Ao ver as declarações do ex-CEO da PT, Zeinal Bava, no Parlamento, confirma-se! Há ali um distúrbio na memória, um transtorno cognitivo leve. À escala, o homem não se lembrava mesmo de nada!?
Mas os problemas de memória chegaram ao Primeiro-ministro! Esqueceu-se de pagar à Segurança Social! Aquilo que o ex-diretor do Instituto de Segurança Social (ISS) Edmundo Martinho intitula de "evasão contributiva continuada. Porque qualquer cidadão, particularmente quem tem um trabalho com estatuto de trabalhar independente, sabe que, todos os meses, tem que pagar as suas contribuições para a Segurança Social de acordo com o escalão de rendimento em que se situa e que está definido na lei".
E os problemas de memória e com a memória já viraram atoleiro! Agora é um conjugar o “esquecer” na segunda e terceira pessoas, com mais ou menos requinte, em todas as redes!
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Uma nova solidariedade
Por muito que insista não ser possível, essencialmente devido ao lado negro da humanidade que cada um transporta, ainda há – cada vez mais, deseja-se e faz-se muito por isso! – quem acredite que o caos não triunfará. Por muito que se afirme não, é preciso dizer sim. E dizer sim participando, indo para a linha da frente para que se consiga mudar!
O caso recente das palavras da chanceler Merkel sobre os culpados da austeridade revelam o esses lados sombrios que danificam a confiança uns nos outros, não só pelo conteúdo mas também pela forma. Será possível dissociar responsabilidades nos decisores que nos têm governado e governam sobre os problemas que deveriam ser resolvidos em comum?!
Um exemplo que alimenta a esperança:
Para criar novas formas de solidariedade, não terá chegado a hora de desobstruir ainda mais as fontes da confiança?
Nenhum ser humano nem nenhuma sociedade podem viver sem confiança. As feridas de uma confiança traída deixam marcas profundas.
A confiança não é uma ingenuidade cega nem é uma palavra fácil, mas provém de uma escolha e é fruto de um combate interior. Todos os dias somos chamados a refazer o caminho que vai da inquietude à confiança.
Confiança entre os homens. Abrir caminhos de confiança responde a uma urgência: apesar de as comunicações serem cada vez mais fáceis, as nossas sociedades humanas permanecem compartimentadas e fragmentadas.
Há muros não apenas entre povos e continentes, mas também muito perto de nós e até dentro do coração humano. Pensemos nos preconceitos entre povos diferentes. Pensemos nos imigrantes, tão perto e todavia frequentemente tão distantes. Entre religiões permanece uma
ignorância recíproca e os próprios cristãos estão separados em múltiplas confissões.
A paz mundial começa nos nossos corações.
Para darmos início a uma expressão de solidariedade, vamos ao encontro dos outros, mesmo que por vezes estejamos de mãos vazias, escutemos, tentemos compreender aqueles que não pensam como nós... e uma situação bloqueada pode assim transformar-se.
Procuremos permanecer atentos aos mais fracos, àqueles que não encontram trabalho... A nossa atenção aos mais pobres pode expressar-se através de um compromisso social. A um nível mais profundo, esta atenção significa uma abertura em relação a todos: os nossos próximos são também, em certo sentido, pobres que precisam de nós.
Perante a pobreza e a injustiça, algumas pessoas revoltam-se ou sentem mesmo a tentação da violência cega. A violência não pode ser uma forma de mudar as sociedades. Contudo, precisamos de escutar os jovens que expressam a sua indignação para tentar compreender as suas motivações essenciais.
O impulso para uma nova solidariedade alimenta-se de convicções enraizadas: a necessidade da partilha é uma delas.
É um imperativo que pode unir os crentes de diferentes religiões e também os crentes e os não crentes (Irmão Alois de Taizé).
Demonização e volatilização
Andamos um pouco atónitos com a vida na terra. Quase tudo pode ser fonte de tensão. Será pela força das coisas ou pela sobreposição de interesses divergentes? Os acontecimentos, as reações e as afirmações impelem-nos a ver o mundo pela pluralidade diversificante! Isto é, existe diversidade se a priori houver uma cultural de pluralidade, não um choque de vaidades e egocentrismos.
O mundo não é a preto e branco! Ainda bem. É preciso continuar a afirmá-lo repetidamente para que haja harmonização.
Há muitas cores. Cada um vai manifestando o apreço pela estética, funcionalidade e harmonia do que rodeia o espaço e as suas envolventes com cadências e perspetivas que é difícil padronizar. Somos todos tão diferentes!
O interesse efetivo (em oposição ao que pejorativamente se intitula de teórico, abstrato, superficial) por uma determinada circunstância ou substância, estamos em crer, está alicerçado na proximidade, no que nos toca mesmo! Quanto maior for a proximidade com o que acontece mais interesse depositamos nisso.
Podemos apreciar e discorrer muito sobre a vida numa outra galáxia mas isso verdadeiramente só se torna autenticamente importante se trouxer alterações à vida na terra. Lá longe, nessa suposta galáxia, pode haver chuvas ácidas, vulcões, glaciares, nuvens tóxicas que devastam tudo; pouco importa efetivamente. Porém, se isso trouxer alterações ao dia-a-dia, se for uma ameaça (boa ou má), então já preocupa.
Ainda há dias andávamos "apavorados" com os demónios à solta pela Guerra da Síria, que continua mas fingimos não saber; ficámos horrorizados com os acontecimentos de Paris; condenamos até à loucura o que chega do autoproclamado estado islâmico; já pouco sabemos do que vai pela Ucrânia dentro mas estamos contra a Rússia porque os bons, pelo menos nos filmes de Hollywood, são os Americanos;… volatilidades! Isso tem importância relativa, está longe mesmo sendo perto!
Enquanto a China compra o mundo, o que vai gerar uma nova ordem mundial com particularidades culturais sino-asiáticas, notórias nas leis laborais que querem, os “mercados” (isto é, os senhores do dinheiro), implantarem para o maior lucro possível, o que importa é saber o que vai acontecer à Grécia e a esses “malvados” democraticamente eleitos pelo demo (povo) grego! Mas apesar disso, o que acontecer à Grécia só interessa verdadeiramente pelo que nos atingir. O que for bom para a Grécia também tem de o ser para nós, o que for mau para os gregos é lá com eles, que o resolvam, desde que não afetem o que temos por mais sagrado: o euro e nós! Nós! Cada um de maneira particular e o casulo fantástico da liberdade, sobretudo a liberdade de expressão, qual caixa de pandora que depois de aberta entra numa espiral de beligeração contagiante que inevitavelmente termina da demonização do outro. Tornou-se célebre, na XVII Conferência Ibero-Americana, realizada na cidade de Santiago do Chile, no final de 2007, a expressão-desabafo do rei Juan Carlos de Espanha ao presidente venezuelano, o falecido Hugo Chávez, “por qué no te callas? Motivo para isto? As constantes interrupções do presidente Hugo Chávez durante a resposta do primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, em defesa do ex-primeiro-ministro José María Aznar, o qual Chávez criticou duramente devido ao suposto apoio deste ao fracassado golpe de estado contra o presidente venezuelano em 2002. Este é o exemplo caricato dos direitos de expressão: vale até à exaustão ou aos “argumentos” menos elaborados e mais contundentes!
É tudo tão volátil que por mais que se insista na iminência da revolta pela força o que está aí é uma revolução ideológica! E se a força dos argumentos não for refletida e contida, passar-se-á aos argumentos da força! Nada de novo, portanto!
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Diálogo inconsequente
Nos últimos apontamentos desta rubrica abordámos alguns aspetos do que denominámos fronteiras da liberdade. Interrompemos intencionalmente. Não faltam motivos para terminar essa abordagem, que queremos fazer em mais duas ocasiões, mas por agora propomos uma pequena leitura bem pragmática, com laivos que podem ser considerados prosaicos.
Na Era da comunicação, da hipercomunicação, há pouco conteúdo! Prevalece o ruído, o “show”, o meio, como aludimos citando Marshall McLuhan. O processo absorve, tudo é envolvido na transmissão e a receção de mensagens entre uma fonte emissora e um destinatário recetor, no qual as informações, transmitidas por intermédio de recursos físicos (fala, audição, visão, etc.) ou de aparelhos e dispositivos técnicos, são codificadas na fonte e decodificadas no destino com o uso de sistemas convencionados de signos ou símbolos sonoros, escritos, iconográficos, gestuais etc
Toda a gente debita informação – o que é um direito! – mas poucos a refletem (sim, com a dupla semântica)! Há coisas que são verdadeiramente incríveis, por isso: à mensagem mais importante (pelo conteúdo real ou simbólico), por exemplo, casos como transferências bancárias, mensagens de melhoras, de boas festas,… tantas e tantas, não há a dignidade de responder com um simples “obrigado”, “smile”, “emoticons”, “meep”, “pusheen”,… Lamentável!
Será falha na comunicação ou falta de educação?!
Dá para acreditar, portanto, que a crescente fragmentação da Europa está a acontecer mesmo debaixo dos nossos olhos. Mas, claro, há quem se recuse a ver como essa tendência ganha um peso crescente a cada dia que passa. O autismo das elites políticas europeias que, no pós-2008, pactuaram com as elites financeiras corruptas leva-as a fazer o papel do pior cego: aquele que não vê porque não quer ver. Há anos que o fenómeno está detetado e é destacado por tantos o regresso em força da geopolítica ao continente europeu, um fenómeno decisivo que ninguém no nosso universo político-mediático parece escapar a todos os olhares. Felizmente, temos boa companhia: veja-se o que esta semana publica o líder da Stratfor, George Friedman, sobre “The New Drivers of Europe’s Geopolitics”, sobre as dinâmicas internas de fragmentação da Europa, um continente hoje, nas suas fronteiras norte, leste e sul, ameaçado por fortíssimos conflitos… E que só no oeste, na frente atlântica, mantém o horizonte desimpedido.
Assim vai o nosso mundo na era em que tudo está em tempo real!
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
A 2015!
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado
Num momento de grande esforço de diálogo político e criação de consensos, a Comissão Nacional Justiça e Paz, em parceria com a Cáritas e Rede Europeia Anti-Pobreza, organiza, no próximo dia 13 de dezembro, em Lisboa, a Conferência Anual. Sugerimos, como enquadramento e pertinência, um excerto do documento (Reflexões sobre a exortação apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco) recentemente publicado.
“(…) o sistema social e económico é injusto na sua raiz.” (EG 59) Importa registar as características «desta» economia, que a Evangelii Gaudium menciona expressamente e que ilustram alguns dos elementos estruturais do sistema económico vigente. “Hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata.” (EG 53) “Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco.” (EG 53)
É conhecido o lugar que a «competitividade» ocupa na «corrida» para o «sucesso» (por vezes, para a sobrevivência), com manifesta vantagem dos «mais fortes». O resultado da livre concorrência é considerado como intrinsecamente «bom», independentemente dos critérios de justiça.
Naturalmente, uma das consequências de tal sistema é que “enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz.” (EG 56) É sabido como posições ideológicas podem ser vestidas de roupagens técnico-científicas, aparentemente neutras no campo dos valores. “Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira.” (Ibidem) O que está em causa é o princípio do liberalismo. “Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum.” (EG 56) “O cuidado e a promoção do bem comum da sociedade compete ao Estado. Este, com base nos princípios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esforço de diálogo político e criação de consensos, desempenha um papel fundamental – que não pode ser delegado – na busca do desenvolvimento integral de todos.” (EG 240) “Quando estes valores são afetados, é necessária uma voz profética.” (EG 218). Aliás, “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estruturar toda a política económica.” (EG 203) “alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo.” (EG 54) “esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante.” (Ibidem) “não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado.” (EG 204) “O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento económico, embora o pressuponha; requer decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição dos rendimentos, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo.” (Ibidem)
Além das recomendações respeitantes à economia em geral, é particularmente significativo que o Papa sublinhe o facto de que o combate à pobreza, se quiser ultrapassar os limites do assistencialismo, requer uma adequada política económica. Não se trata de abolir as práticas assistenciais – em si indispensáveis e cujo valor deve ser sublinhado –, mas de reconhecer que as mesmas não conduzem à «promoção integral dos pobres.»
(in Correio do Vouga, 2014.12.03)
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
O processo
Sem sabermos tudo – antes pelo contrário! Sem se saber nada! – vá lá saber-se porquê, deu-nos para uma pequena revisitação de “O processo”, de Kafka, claro.
Por uma questão de economia de tempo – é preciso estar atento aos “direto”: “a qualquer momento”… durante horas sucessivas… a ansiedade ocupou o espírito, esvaiu por completa a capacidade de ação e de reação.
Como é dia de fixar o olhar naquele cenário de fundo branco, do género de contraplacado lacado de branco, com uma cadeira antiga, de estilo imponente, forrada a pelo com elementos esculpidos, um ambão de acrílico, uma bandeira nacional que por tão deslocada no espaço parece descaída para meia haste… O cenário para a leitura das medidas parecia saído de um filme artesanal. Tudo deslocado!
- Um momento…!
Afinal ainda não foi desta. A montanha estava prestes a “deixar sair” qualquer coisa!
- É agora?!
Vamos pregar olho no que vai sair… a qualquer momento. Como é preciso terminar o apontamento, pedindo desculpa, recorremos a uma sinopse (da wikipedia, no caso) e aqui ficam algumas dúvidas, coincidências, pertinências ou nem por isso…
O romance conta a história de Josef K., bancário que é processado sem saber o motivo. A figura de Josef K. é o paradigma do perseguido que desconhece as causas reais de sua perseguição, tendo que se ater apenas às elucidações alegóricas e falaciosas vindas de variadas fontes.
Embora Kafka tenha retratado um autoritarismo da Justiça que se vê com o poder nas mãos para condenar alguém, sem lhe oferecer meios de defesa, ou ao menos conhecimento das razões da punição, podemos levar a figura de Josef K., bem como de seus acusadores, para vários campos da vida humana: trabalho (quem nunca se viu cobrado ou perseguido, sem que seus acusadores lhe dissessem em que estaria sendo negligente), religião (quem nunca se viu pego, de surpresa, como Josef K., por um fanático intransigente, dizendo que teríamos ferido as leis divinas, sem que nos fossem apresentados os motivos), na escola (quem nunca se viu como Josef K., ao ser criticado por seu desempenho, sem que soubesse em que havia falhado, com críticas vagas, por vezes de colegas, por vezes dos próprios mestres).
Muito embora se preste às mais diversas interpretações, desde aquelas fundadas nos axiomas filosóficos até a mais profunda radiografia feita pela sociologia, de fato, “O Processo” fornece farto material àquele que se debruça sobre o estudo para além da mera dogmática jurídica, de vez que, por meio de um conto que mais se assemelha a uma parábola, Kafka reproduz a negação do estado democrático de direito e, ao mesmo tempo, leva o leitor a perceber que, mesmo vivendo sob a égide da democracia "plena", há que se não perder de vista que as instituições não guardam a razão de ser na prestação de serviço público, mas na submissão ao poder e às camadas dominantes.
Nesta obra, o protagonista, atónito, ao ser informado que contra ele havia um processo judicial (ao qual ele jamais terá acesso e fundado numa acusação que ele jamais conhecerá), percorre as vielas e becos da burocracia estatal, cumpre ritos inexplicáveis, comparece a tribunais estapafúrdios, submete-se a ordens desconexas e se vê de tal modo enredado numa situação ilógica, que a narrativa aproxima-se (e muito) da descrição de confusos pesadelos.
Mas não distam muito de pesadelos os processos reais que tramitam nos vãos da estrutura pesada, arcaica, burocrática e surreal das instituições zelosas da Justiça, de modo que, por fim, Franz Kafka terá sempre o mérito de ter, no início do século passado, retratado a sociedade de muitos povos, com fidelidade e crueza dignos de alçar sua obra à imortalidade. Fim da citação.
Ah! Finalmente! O homem ficou preso. Que alívio! Estava-se mesmo a ver que ainda era colocado sob outra medida, que transtorno que isso daria!
E agora? A fasquia ficou bem alta. Queremos mais justiça assim!
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
O Estado que não serve
Em regra estamos, as pessoas, sempre insatisfeitas! Não é necessariamente mau que assim seja!
É desejável que haja participação, preocupação com o que é comum e com o que, mesmo individual, é parte da comunidade humana que construímos, somos parte e corresponsáveis; e somo-lo em praticamente tudo – mesmo quando o individualismo, alicerçado numa interpretação errónea do “carpem diem” de Horácio, conduz à “satisfação do umbigo” sem haver compromisso com nada! Como é sabido, o poeta latino incita Leuconoe a colher o melhor do dia nas variantes do epicurismo e do estoicismo. Portanto, não é um apelo ao prazer pelo prazer, do hedonismo contemporâneo, mas viver cada momento com disciplina de vida, com a ideia de que apesar do futuro ser incerto é importante procurar a alegria de viver de forma ordenada, racional, que deve evitar tudo o que ponha em causa o prazer das alegrias futuras.
O estoicismo, por mais prazer moderado em que se deseje viver, também tem os seus limites; por mais que prometa a força humana.
É o que acontece, porventura, todos os dias quando os cidadãos procuram os serviços que garantem a existência do organismo a que vulgarmente denominamos por “Estado”.
Alguns serviços não servem! Não servem por natureza nem servem para nada.
Apontemos uma mera ilustração; uma ilustração vivenciada.
O horário da repartição de finanças coincide com a maioria dos horários de outros trabalhadores, apenas, e não é coisa pouca, encerra às 16.30.
Por erro da administração pública, repristinação ou labor legislativo, com datas de entrada em vigor verdadeiramente aberrantes, o cidadão, uma pessoa comum tem de, no caso inspirador da ilustração, devolver uma determinada quantia ao Estado. Os procedimentos são perfeitamente anedóticos: recebe a nota de cobrança em carta registada. Nada o opor a não ser esse pormenor hilariante de, para quem trabalha, o destinatário poder não estar em casa. Ato contínuo, tem uma semana para levantar a “encomenda”, não interessa a distância, a hora, a disponibilidade,… nada! Nada justifica, sem prejuízo agravado, que falhe nessa tarefa a que é totalmente alheio. Mas mesmo assim, sendo alheio ao processo, tem de cumprir ou fazer cumprir, pedir alguém que vá aos “Correios” – afinal, ninguém está cá sozinho, como se aludiu no início deste apontamento: necessitamos de outros!
De notificação na mão, mais uma etapa: a devolução, ou pagamento que seja, tem de ser efetuada presencialmente. (Que obtusidade!? Não há outra via?!) Novo problema! Mais um dia, uma manhã,… mais uma falta ao trabalho, com toda a burocracia que isso implica, sobretudo se for funcionário público, por mais estranho que pareça. Ah! Sem esquecer os prazos, isso é que não, os encargos podem chegar ao mirabolante!
E por fim,… cumprida a missão!
Quem ganha e o que se ganha com esta “neolítica” forma de gerir as coisas na administração pública?!
Aparentemente, com estes entraves todos, as delegações públicas deveriam estar abertas ao domingo num Centro Comercial, por exemplo. Passava-se por lá e resolvia-se estes imbróglios com outra predisposição: “carpem diem”!
É evidente que este Estado não serve, é servido! É mau! Devora e é devorador!
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Muros há muitos
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
O desenvolvimento que desce
Acompanhamos com regularidade o índice de prosperidade (http://prosperity.com/#!/ranking ) que o Legatum Institute (www.li.com) vem apresentando.
No passado dia 3 de novembro pulicou o ranking de 2014, tendo em conta oito fatores: economia, educação, empreendedorismo e oportunidades, governação, saúde, liberdade pessoal, segurança e capital social.
Portugal desceu de 33º em 2012 para 47º lugar no ano passado em Educação, estando agora abaixo de países como a Mongólia, Montenegro, Emirados Árabes Unidos ou Rússia.
Apenas 77% dos portugueses estão satisfeitos com a qualidade da educação e acreditam que as crianças estão a aprender na escola, o valor mais baixo de sempre.
Houve também um declínio na escolarização primária, de 99,2 para 98%, o que indica uma quebra no número de crianças que entram para a escola, apesar de a taxa nacional continuar elevada, e o rádio de professores por aluno aumentou de 10.
Por outro lado, o número de jovens no ensino superior cresceu, e Portugal teve em 2013 uma taxa de 69%, a maior de sempre no país registada pelo índice.
O Índice de Prosperidade compara os níveis de riqueza e bem-estar, cobrindo 96% da população e 99% do Produto Interno Bruto mundial.
Na economia, Portugal é agora o segundo pior classificado na Europa ocidental, atrás da Grécia, na área económica, e está agora atrás de países como Argélia, Colômbia, Marrocos ou Letónia.
Portugal tem também o nono pior valor global de sentimento quanto à existência de oportunidades de trabalho, tendo apenas nove por cento dos inquiridos respondido afirmativamente à questão "Pensa que é uma boa altura para encontrar emprego" - mesmo assim superior à Grécia e Itália (3%) e Espanha (4%).
Por exemplo, apenas 55% dos portugueses mostraram satisfação com a qualidade de vida, inferior à média global de 60%, e caiu de 91% em 2011 para 82% a proporção de pessoas com acesso a comida e abrigo, o valor mais baixo desde sempre.
Embora os portugueses sejam dos povos com maior sentimento elevado de desconfiança em relação às autoridades e empresas (88%), Portugal melhorou nesta categoria e voltou ao top 30 dos países com melhor governação, registando um aumento de pessoas que afirmaram ter apresentado reclamações junto de entidades oficiais.
O nível de confiança na justiça subiu para 33%, mas continua abaixo da média global de 54%, mas a sensação geral é que os portugueses estão mais inquietos com a situação pessoal e do país: 57% confessaram preocupar-se, contra uma média global de 36%.