quarta-feira, 24 de junho de 2015
A casa comum
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Prudência, justiça e idoneidade
As coisas novas implicam prudentes capacidades visionárias de justiça e idoneidade! Fazem parte da matriz fundacional da nossa cultura e da nossa existência como Povo. Mas estas particularidades, que são princípios universais, só existem se praticadas, exercidas!
A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito.
Por toda a parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por si só basta para mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Esta situação preocupa e põe ao mesmo tempo em exercício o génio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que impressione com tanta veemência o espírito humano.
Completaram-se, no dia 15 de maio, 124 anos desde que Leão XIII publicou, na Rerum Novarum (número 1), este pórtico atualíssimo! Tudo o resto, o conteúdo, sofreu alguma erosão à custa de muitos erros que a história terá ensinado. O que era um forte sinal para leitura do tempo que se aproximava veio a consumar-se com muita irresponsabilidade.
Um pouco mais recuado, há 836, passarão dia 23 de maio, um outro Papa, Alexandre III, reconhecia D. Afonso Henriques como Rei! A (bula) Manisfestis probatum, em 1179, abriu as fundações de Portugal!
Atendendo às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua pessoa, tomamo-la sob a proteção de São Pedro e nossa, e concedemos e confirmamos por autoridade apostólica ao teu excelso domínio o reino de Portugal com inteiras honras de reino e a dignidade que aos reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste!
É um bem poder ser senhor do nosso próprio projeto! A empresa humana, o que cada pessoa pretende hoje para o futuro não é possível concebe-lo sem lembrar estas etapas da vida!
Esta semana vivemos intensamente as duas realidades. Duas realidades que se fundem e projetam, que se implicam reciprocamente!
Lutar por mudar as coisas, transformar em oportunidades as vicissitudes: eis, enfim, o que temos pela frente!
quarta-feira, 13 de maio de 2015
12 de maio – II
Princesa: caem-te os olhos como moldura do rosto e dos ombros,
O colo descoberto, tentador pode ser o colo de uma mulher
A qualquer hora, e a estirpe,
Se quem foi herdeira da coroa de Portugal e regente do reino
E continua virgem precisa mostrar a estirpe, mostra-la na cabeça cingida
Por uma crespina de ouro, pérolas e pedrarias da tua real condição
E traje de corte conforme ao que a teu estado convém.
Poderia dizer-se que te vestiste respeitando o plano. E, contudo…
Convocada à encenação do corpo, ao falso natural da pose
Para te fazer chegar belíssima em retrato às cortes europeias,
Chamada à impossível inocência da figuração
Que animaria algum consorte possível – convocada, defraudaste
A oficina do pintor régio. A cara em sacrifício, a rígida postura frontal,
Frio o olhar nas faces róseas,
Como haveria de caber a tristeza de um ícone religioso
Num projecto de enlace matrimonial, mesmo sem vestígio amoroso?
Tu, Joana, Princesa, Beata, enquanto não chegava o tempo
De irmão rei inventar a razão de Estado,
Tu, num convento em Aveiro, inventavas
A falsa missiva de amor. Os artistas lutavam para inventar o retrato
E tu inventavas a santa desobediência.
A desobediência do figurado. O retrato que se nega ao encenador.
A desobediência aos astros, à nação, aos tempos, à família
E ao dever de colocar o corpo próprio e seus efeitos à ordem do mundo.
Tu, Joana, Princesa, Santa sem certificado, inventavas em silencia a palavra “não”.
A palavra “não” porque sim e aqui fico e aqui morro,
Mesmo que nunca professe neste convento de Jesus,
Como nunca professaste,
Não haverá de cumprir-se o alto desígnio de Sua Majestade
Quanto à sorte que a mim cabe
Retrato da Princesa Joana Santa. Porfírio Silva (2013), Monstros Antigos. Poesia. Lisboa: Esfera do Caos.
terça-feira, 5 de maio de 2015
12 de maio - I
Aveiro para daqui a uma semana para celebrar a sua padroeira, a Bem-aventurada Joana de Portugal retratada, acolhida, representada, vivida como Santa.
Há motivos de sobejo para olhar para este acontecimento. As relações Igreja-Estado, a teoria dos dois poderes, o cesaropapismo, as duas espadas, o trono e o altar,… porque é que para o tempo neste tempo para ver passar, por metáfora e em sentido literal, um símbolo presente de outro momento?! Em plena afirmação de tudo (correntes de pensamento; teorias políticas, económicas,… relativismo exacerbado) sobre todos (sobretudo os que menos podem) aproveitamos o “12 de maio” para ver para além do que é possível verificar: dois olhares para interpretar a realidade à luz da presença de Santa Joana em Aveiro.
Hoje, Retrato de uma princesa desconhecida (Sophia Mello Breyner Andresen):
Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino