Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 20 de maio de 2014

O “casamento” europeu

 

A Europa é um caldo de culturas? Uma União de diversidades? Cada um por si?

Em 2013, num artigo para Revista Lusófona de Estudos Culturais, Eduardo Lourenço ajuda a colocar o acento tónico na Europa como continente atual ou do passado. [http://estudosculturais.com/revistalusofona/index.php/rlec/article/view/3/28, consultado em 2014.05.20]

A filiação da Europa contemporânea em três matrizes possíveis (mitológicas e políticas): a matriz grega da filosofia e da democracia, a raiz judaico-cristã e a ciência. Porém, aparentemente nenhuma delas apresenta uma dimensão consensual, enquanto definidora da Europa. Não admira pois que, hoje, a Europa viva um niilismo subtil e uma espécie de reflexo masoquista. Este ensaio discute também a dificuldade em que a razão europeia vive a partir da filosofia grega, ao introduzir um questionamento radical que abala a verdade mítica, instituindo um discurso quase sempre problemático e até dramático. Esta falta de coerência interna também se repercute na forma como o Estado e o Poder foram pensados a partir da matriz judaico-cristã. Realizando hoje o quanto a Europa foi perdendo a sua centralidade.

A Europa pode hoje ser vista como tendo três matrizes. Quando, recentemente, na Comunidade Europeia se quis institucionalizar uma espécie de discurso europeu para europeus e para o mundo fora dele, procuraram-se as raízes da Europa. Começou por se considerar que a referência grega era incontornável. Foi precisamente aí que a Razão surgiu, enquanto modalidade de discurso que compreende o mundo, reconhecendo-se que, fora dela, todas as outras compreensões pertencem ao domínio do irracional, do sonho ou do inconsciente. Outra raiz seria a raiz judaico-cristã, um par, ele próprio, também problemático e até dilemático. E, finalmente, a terceira, naturalmente, a da ciência.

Nenhuma destas dimensões da cultura europeia foi aceite como fundadora de uma possível identidade europeia. Isto parece um paradoxo, mas revela o quanto a cultura europeia foi progressivamente ficando no vazio aniquilador. Recusa rever-se em qualquer discurso que reflita aquilo que nós pensamos ser a essência da cultura europeia.

A Europa, e não apenas ela mas também a humanidade como um todo, está sempre em mudança contínua. Uma das características da História europeia é a capacidade que ela tem de se reciclar continuamente. Recicla-se na Idade Média em função de um certo conhecimento da filosofia grega, com Platão e Aristóteles. Mas conhecerá um segundo nascimento pela mão dos descobridores portugueses. Nós fomos, de algum modo, os agentes desse segundo nascimento. Os descobrimentos portugueses (e depois os espanhóis, os franceses, os ingleses etc.), ao promoverem o encontro com o Novo Continente estabeleceram enfim a Europa numa diferença. A Europa passa a ser o Velho o Continente, ao encontrarmos um mundo ainda não conhecido e sem inscrição para nós, portanto ainda sem leitura.

Foi nesta segunda Europa pós-descobrimentos que nós, europeus, começamos a ter uma identidade que não tínhamos, quando eramos apenas nações com uma certa coerência de herança grega, latina, etc., pois a partir de então passámos a ser vistos de fora pela primeira vez.

E visto de fora, mas também vistos de dentro, inspirados na problematização de Eduardo Lourenço, tendo em consideração que no próximo domingo, dia 25 de maio, a União Europeia vai a votos, que Europa queremos ser?

A União, mesmo que subjetivamente, está criada. É uma união de direito. Mas será uma União de facto?

Ainda é possível se não ficarmos convencidos que outros virão resolver os nossos problemas e nos mobilizemos para as melhores opções! E essas são a da solidariedade, da igualdade, da fraternidade,… estamos de novo – afirma o ensaísta - num momento de reciclagem, como já vivemos outros no passado, mas desta vez vivemo-lo como uma espécie de velhice precoce e já estamos doentes dessa relativa fraqueza. De qualquer modo podemos sempre reciclar-nos, porque este é o continente do Platão, de São Tomaz de Aquino, das catedrais e de Galileu.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Carta aberta ao ex-meu Banco

 

Banco,

Em tempos cheguei a dirigir-me para as instalações de V/ Exª com multiplicado entusiasmo e expetativa.

O Banco não era qualquer coisa, era o “meu” Banco! Poucas instituições recebiam este epíteto. Não era pela presunção dominante, possuidora, tratava-se de uma pessoa (comercial, claro) que inspirava confiança! Ao Banco, na simpatia do acolhimento, na proximidade do trato, entregava-se o produto de passado e as garantias de futuro! O cliente tinha nome, era bem-vindo! A escolha do Banco até ficava condicionada as estes aspetos menos utilitários.

Ir ao Banco era essencialmente para adicionar valor – quantos sentimentos, quanta satisfação, eram depositados com aquele pequeno ou grande, periódico ou ocasional, pecúlio!?

Cheguei a receber uma mensagem no aniversário e, na adversidade ou na necessidade, ali estava o “meu” Banco, com o meu dinheiro!

Propuseram-me produtos que me faziam duplicar o investimento e eu recusei. Aquilo não podia ser bom negócio. Só quem não conhece o custo do trabalho e o valor das coisas, a honestidade, é que podia enveredar por riqueza tão célere.

Lá aceitei o cartão de crédito, para uma emergência – mas qual emergência? Aceitei umas viagens, e mais um conjunto de bens essenciais para os tempos que se avizinhavam a grande velocidade, tudo a crédito – o juro que tinha de pagar era baixo, mitigado, evitava gastar as minhas poupanças!

O tempo mudou! Diz-se que evoluímos. Chegaram os tempos modernos.

O que tinha direito, pensava, deixou de ser. O Banco já não tem vida, tem autómatos e máquinas que desconheço.

O balcão foi derrubado – como é que posso ir ao “balcão” onde já não existe? – surgiram aqueles atendimentos intimistas e intimidantes, conversas sussurradas com quem não conheço e que também não me conhece!

Tudo para poupar, para evitar despesas supérfluas! Cheguei a acreditar que era verdade!

Deixei de receber cartas, deixei de receber o extrato,… passei a ser um encargo! Surgiram taxas por todo o lado, manutenção de conta, custos indiferenciados! Manutenção de conta?! - Isto é que é de bradar! E tudo isto, diz-se, porque movimento poucos montantes!? Não é pouco, é tudo o que tenho! E foi este pouco-a-pouco que, em tempos, fizeram de Vª Exª grande! Estarei enganado?

O Banco já não é “meu”! Agora é de um grupo anónimo, distante, que não me diz nada!

Entrava confiante, com aquele ar de não dever nada a ninguém, agora sinto-me envergonhado. Até já ouvi propor que todos os meus movimentos bancários, sobretudo os levantamentos, sejam tabelados?! Parece surreal, algo louco.

Afinal, todos os cortes nos meus (supostos) direitos e serviços mais não foi que um aumento de lucros!

Lamento!

Chegou a agora de acertar as contas! Vou retirar os meus parcos valores daí. É o primeiro passo. Posteriormente, quanto ao que já devo, numa próxima correspondência, vou comunicar pelas vias que Vª Exª usa comigo, um corte unilateral nos juros que me impôs. Pagarei honestamente quanto devo, com um juro razoável.

É a vida! O meu patrão também cortou no meu salário e eu tenho de sobreviver!

PS: e se a ficção fosse materializada?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Limpinho… como na bola!

 

Tornou-se – limpinho - célebre na boca do treinador do Benfica, Jorge Jesus, quando há sensivelmente um ano, em abril de 2013, os “encarnados” ganharam ao Sporting deixando no ar a perspetiva de poderem conquistar o título nacional de futebol. Jorge Jesus reconheceu que o Sporting "esteve melhor organizado taticamente", mas "o Benfica fez a diferença", no dérbi no Estádio da Luz. O técnico encarnado rejeitou críticas quanto à arbitragem de João Capela, sublinhando que "o Benfica ganhou limpinho".

A este comentário ripostou Vítor Pereira "ainda é possível revalidar o título", desde que o campeonato seja decidido dentro das quatro linhas e não por fatores exteriores. Crítico em relação às arbitragens, o técnico portista sublinhou que "os três penáltis" do Benfica-Sporting "não podem ser branqueados" e contestou a qualificação de triunfo "limpinho, limpinho" dada por Jorge Jesus.

Na verdade, o Benfica acabou por perder tudo nessa época em pouco mais de uma semana, tendo o FC Porto ganhado o campeonato ironizando com um título “limpinho, limpinho”.

Se há coisas que não restam dúvidas a ninguém, no futebol poucas vitórias são limpas – direta ou indiretamente!

O Governo de Portugal, influenciado por esta convicção – só pode ser!? – declara que as finanças do país vão ficar libertas de qualquer espartilho dos credores, sobretudo depois da (suposta) saída do Programa da Troika, um saída limpa! Limpa?!

Pensemos com seriedade, diga-se a verdade!

De acordo com o 'Economic Outlook' da OCDE, divulgado na terça-feira, dia 6 de maio, a dívida pública portuguesa, segundo os critérios de Maastricht, deverá atingir os 130,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2014 e voltar a subir em 2015, para os 131,8%.

Esta previsão contraria o otimismo do Governo, que espera que a trajetória em alta da dívida pública comece a inverter-se em 2015: no Documento de Estratégia Orçamental (DEO), divulgado na semana passada, o Executivo previa que, depois de chegar aos 129% do PIB em 2013, a dívida pública atingisse os 130,2% em 2014, recuando para os 128,7% no próximo ano.limpinho

A OCDE estima que o índice harmonizado dos preços ao consumidor (HIPC) recue 0,3% em 2014 e que aumente 0,4% em 2015.

Quanto ao défice orçamental, a OCDE estima que "as metas do défice [orçamental] de 4% e 2,5% acordadas com a 'troika' [Fundo Monetário Orçamental, Comissão Europeia e Banco Central Europeu] para 2014 e 2015, respetivamente, deverão ser alcançadas".

Portugal está no grupo de países que precisa de consolidação orçamental até 2030 para cumprir o objetivo de dívida pública, mas que já antecipou uma parte considerável dessa consolidação.

Isto é limpinho?!

O entusiasmo pela verdade desportiva é de tal ordem que até Medina Carreira - paladino da verdade nas contas públicas, do rigor orçamental, arauto da desgraça – considerou, cúmulo dos cúmulos, ser necessário ter alguém capaz de liderar o País como Pinto da Costa fez com o FC Porto. “O FC Porto devora tudo há cerca de 30 anos porque teve um dirigente capaz de pôr ordem no clube”, referiu, salientando a falta de dirigentes competentes a liderar Portugal, no programa ‘Olhos nos Olhos’, da TVI24, na segunda-feira dia 5 de maio!

Que grande confusão, Sr Primeiro Ministro!? Que diabo de recurso, Dr Medina Carreira?!

Agora é que nunca mais saímos desta situação imunda – no sentido mais profundo do étimo latino (arejado, limpo)!

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Frei Tomás

 

O conhecido aforismo sobre a discrepância humana entre as palavras e os atos, ou a ação, é recorrente em todos os setores da vida. É certo que há diversas causas, interferências involuntárias, que podem suscitar os desencontros entre o ato de pensar, a comunicação expressa e a ação concretizada: a natureza da arte, a pressão mediática, o cansaço de um dia, “lapsus linguae”, ignorância no assunto, vontade ou obrigação de pronuncia sobre matérias não muito aprofundadas, etc.

Frei Tomás – não se sabe qual deles! – fica na história da dialética como incoerente, pelo menos é esse o sentido do adágio, que não será apenas para forçar a orientação da rima, "bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”, querendo demonstrar a contradição entre os atos e as palavras – coisa fácil e recorrente, porventura, para a maioria dos humanos! Porém, esta repercussão sobre Frei Tomás poderia ser de outra ordem, se essa ordenação fizesse sentido, se expressasse um outro todo; por exemplo, “"bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e o que ele faz”! Bastava retirar a negação, o advérbio, e “este” Frei Tomás bem podia colher o epíteto de “o coerente”!

Na vida pública, com maior relevo na política, pelas razões já aludidas, e sem querer escamotear a impreparação de alguns protagonistas, é recorrente a incoerência, a demagogia, a suposta mudança de opinião. Mas, a política, também tem esse pormenor do jogo, de não demonstrar tudo, de provocar a reação da opinião contrária. Contudo, neste caso, quando a retórica é arte, requer-se um alto nível de ciência política, de conhecimento de todos os domínios da arte de trabalhar o espaço publico – muito para além das conveniências do lugar de momento ou dos focos circunstanciais!

A “história” de Frei Tomás tem, como é facilmente admissível, muitos contornos. E, mais do que qualquer observação crítica, é reflexo do ser humano na sociedade, na tribo, a tribo plural que nos une e afasta, que destinge entre iguais e distingue entre diferentes e diversos. Mais do que juízo moral ou ético, são as máscaras que obrigatoriamente são colocadas para que a verdade não mate, a convicção não separe, a determinação não apoquente! E a máscara (do rosto, das palavras, das ações) tem sentido biunívoco, inverso e paralelo, conforme as certezas e as circunstâncias: a criança diz à mãe que fez uma asneira grave, para a sua idade, como? Um governante, perante a tragédia, transmite ao país a notícia, como? O médico, ao lado do leito do paciente com doença terminal, comunica o diagnóstico, como?

Mesmo consideração, portanto, estas incoerências como próprio às delimitações da espécie, fazendo uma espécie revisitação de “Freud: a presença da antiguidade clássica” (Ana Lúcia Lobo, São Paulo), há ilustrações recentes que sugerem este apontamento.

Jerónimo de Sousa, o dirigente comunista, no caso mais recente, assacou ao Presidente da República o aforismo – a propósito do discurso nos quarenta anos do 25 de abril!

Um outro caso, porventura mais ou menos prosaico, é também destes dias de Tríduo Pascal. Semana Santa, sexta-feira, procissão do enterro do Senhor – lenta, circunspecta, penumbrante! O percurso, em Aveiro, vai da igreja da Apresentação para a de Nossa Senhora da Glória. As Irmandades ladeiam os andores, um simbolizando o esquife de Jesus e outro o de sua Mãe, na evocação de Nossa Senhora da Soledade. Ato profundamente introspetivo, pela memória, pela sacramentalidade, pela Mensagem. Chegados à igreja de Nossa Senhora da Glória, no epílogo desta liturgia, não é que os Irmãos (da Irmandade) debandam antes de terminar? O Administrador Diocesano, pela Sé Vacante, vai proferir as palavras finais, algumas dirigidas aos próprios, mas o Senhor já não tem lá os seus Irmãos!? Serão seguidores… de “Frei Tomás”!?