Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Conhecer as pessoas

 
Nos domínios das ciências sociais e humanas, isto é, do estudo sobre os aspetos sociais do agir humano, na vida social de indivíduos e grupos humanos o mais importante é que nunca está terminado o processo de estudo. Ter-se-á de aceitar que em nenhum estudo o conhecimento encerra na exploração de uma tese. Porém, o objeto de estudo sobre a pluralidade da ação humana está em constante mutação, interação, comunicação. Sujeito e objeto, aprendido e aprendente, substantivo e predicado têm interesses diretos sobre si mesmos. Somos assim: complexos e interessantes!
Estes dias têm servido para aprofundar este complexo mundo da nossa coexistência. Entre todos os aforismos trazemos dois mediados no tempo em mais de vinte séculos: “ Conhece-te a ti mesmo” (Sócrates, 469-399 a.C. ) e “o homem é ele e as suas circunstâncias” (José Ortega y Gasset ,1883-1955). Com isto, queremos refletir sobre a realidade relativa em que raramente somos o que pensamos ser! E, acresce, para se conhecer alguma coisa teremos de começar cada um por si próprio; depois no que o rodeia, sem necessariamente ser esta a ordem dos fatores. E, se cada um é um mundo complexo, mais complexo fica com o mundo existente à sua volta.
Extraordinário “nós” esta pessoa que cada um é!
Por fim, para encerrar este “breve “, como organizar as circunstâncias para que as pessoas sobrevivam entre si?
A pergunta tem tantas possibilidades de resposta quanto o número de pessoas que se predispõem a fazê-lo. E apesar de ser ideia de conclusão, é ponto de partida perante o que convivemos todos os dias. A liberdade de pensamento, expressão e ação fomentam novos meios, novos processos, o que faz das pessoas, enquanto conjunto orgânico, uma realidade em permanente mudança. Portanto, conhecer as pessoas será uma apropriação interesseira?
Será que conhecer é condicionar?! – visitando William Hamilton e a doutrina lógica da quantificação dos predicados.
Mobilizar para um projeto não deverá ser, por isso, uma forma de acomodar, de condicionar, de reduzir as potencialidades de cada um para o proveito de todos. Um projeto comum será sempre uma nova abertura, nunca o encerrar de nada. Construir em comum é uma constatação de dupla interpretação: conheço, apreendo; motivo, incondiciono.
(in Correio do Vouga, 2013.11.20)







quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Os buracos

 
Todos os dias somos confrontados com esta realidade: buracos!
Num país de brandos costumes – não vemos grande dificuldade na matéria, desde que brando seja sinónimo de responsabilidade e compromisso social! – um país de brandos costumes e pobre, pobre financeiramente mas também pobre na gestão dos direitos e deveres, na participação das ocorrências, facilmente é encontrado o movimento desculpabilizante. Isto é, aceita-se com relativa bonomia e docilidade que tudo esteja estragado, inoperacional, atrasado,…esburacado!
“Que culpa tenho eu?!”
“Que culpa teve o pobre coitado?!’”
“Que culpa temos nós?!”
É recorrente esta retórica de admiração-interrogativa. Começa logo á saída de casa com o elevado avariado por falta de pagamento da manutenção ou de uma das parcelas dos condóminos; na passagem impedida por qualquer obstáculo pouco cívico; pela estrada esventrada;… nos buracos!
A aceitação dos buracos é incomodativo mesmo quando os portugueses, como é noticiado pelo jornal “Público”, não estão satisfeitos com a vida que levam. Esta é uma das conclusões do Índice da Melhor Vida relativo a 2013, divulgado na terça-feira, 5 de novembro, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Entre os 36 países avaliados, Portugal é o segundo pior no que diz respeito à satisfação dos habitantes. Para avaliar a qualidade de vida dos países, a OCDE tem em conta indicadores que considera indispensáveis ao bem-estar: habitação, salário, emprego, comunidade, educação, ambiente, envolvimento cívico, saúde, satisfação, segurança e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. No índice em geral, Portugal está no 23.º lugar e apresenta alguns indicadores particularmente negativos. É, por exemplo, o quinto país com a pior classificação na educação, cuja análise é feita a partir do número de anos passados na escola, das habilitações literárias da população ou das capacidades demonstradas nos testes PISA, feitos pela OCDE.
Há também o caso do político que, em campanha, promete mudar o mundo mais ou menos no mesmo tempo em que Phileas Fogg, de Júlio Verne, deu a volta ao mundo (oitenta dias). Depois de se sentar na “cadeira do poder” – é automático, conhecimento instantâneo, inspiração fulminante – afinal, há um buraco (nas contas) que vai atrasar essa mudança! Maldito buraco. Mais uma vez impede o desenvolvimento. Resta-nos esperar contemplativamente que isso mude!
O Orçamento de Estado para 2014 é aprovado na generalidade. Nos dias imediatamente seguintes, a Comissão Europeia encontra uma falha equivalente a 820 milhões de euros na execução orçamental deste ano, noticia a rádio TSF, citando as previsões de Outono divulgadas por Bruxelas. Uma 'falha' que obrigará Portugal a aplicar medidas adicionais. Maldito buraco.
Será acaso, como referimos, sermos o quinto país com a pior classificação na educação, cuja análise é feita a partir do número de anos passados na escola, das habilitações literárias da população ou das capacidades demonstradas nos testes PISA, feitos pela OCDE!?
 
(in Correio do Vouga, 2013.11.06)











quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Reis na República


Recorremos a um título antagónico mas sugestivo dada a intenção objetiva: trazer à colação o debate acerca da educação das crianças; das crianças de tenra idade! Estas – aqueles pequenitates - são a geração tecnológica, a “geração-indivíduo”, a geração “Rei” do espaço, do tempo, da condução das circunstâncias, das estâncias e das instâncias!
O Debate Nacional sobre a Educação suscitou a abordagem - entre outras matérias relevantes para a educação que, aparentemente, “ganham bolor” no fundo das gavetas. Destacamos o Estudo “A Educação das Crianças dos 0 aos 12 Anos” para o Conselho Nacional da Educação, coordenado pela Profª Isabel Alarcão.
Há muito que seguimos com particular interesse o debate. Preocupa-nos a passagem à ação, isto é, a inação!
Entretanto, o mundo avança – já avançou! O que há seis anos seria o início do debate hoje é uma realidade incontornável. Nas escolas estão crianças donos do mundo. São monarcas, oligarcas, ditadores. São autónomos na sua “razão” – ainda bem! Porém, o que podemos fazer para vivermos juntos?
Naquele tempo, apontavam-se “reflexos de uma série de factores sociais como o desemprego, os baixos níveis de escolarização dos pais, a maior taxa de mulheres trabalhadoras a tempo inteiro na Europa, factores que, aliados à crescente multiculturalidade, às transmutações da família tradicional com muitas situações de famílias mono-parentais e de crianças sem pais, tornam os contextos educativos muito vulneráveis. Mudanças de comportamentos com tendência para o sedentarismo e a passividade perante a televisão ou o fascínio do entretenimento com jogos informáticos levaram à reorganização dos espaços, dos tempos e das vivências da infância e a um novo relacionamento com o mundo, provocando um modo diferente de apreender e conviver com o real. Vivências em culturas multireferenciais, disparidade de informações e diversidade de solicitações transformaram a criança num consumidor precoce, alvo de processos de marketing desenfreado”. (Alarcão, 2008. 22-23).
No que conhecemos, junto das crianças que entram na idade da razão, não lugar para mais ninguém nem para mais nada. Apenas elas. A ditadura é uma coisa séria!
(in Correio do Vouga, 2013.10.30)





terça-feira, 15 de outubro de 2013

Uma vida que se lê


D. António Marcelino é um itinerário de leitura permanente.
Depois de uma vida intensa e atenta, partiu. Confia-nos um vasto património espiritual, intelectual, pastoral, social,… esteve onde foi preciso e foi além de sim mesmo para quebrar inércias, marasmo, lentidão.
Ficam as primeiras fontes de evidência de uma vida enorme nas páginas do Correio do Vouga, nas edições de “Pedaços de vida que geram vida”, na copilação “A vida também se lê”.
“Há acontecimentos e situações que vivemos, mas não nos pertencem só a nós. Há vidas destinadas a ser berço de acolhimento de graças para as repartir pelos outros.
Para este livro, escolhi vivências provocadas por gente que passou pela minha vida ou dela fez parte. Por vezes, gente simples e anónima, aquela que julgamos que nada tem para nos dar ou ensinar… Gente experiente de Deus com a qual me foi dado cruzar, nos caminhos da missão, e já neste longo tempo do meu peregrinar» destaca o Sr D. António Marcelino nesta nota-síntese para Pedaços de vida que geram vida.
Valorizava tudo o que era seguir em frente; destacava, enfatizava, discutia, dava melhor sugestão, envolvia-se e envolvia. Ao ponto de, pela força de convocar todos para ir mais longe, assumir “não morro nem que me matem”!
O respeito pelo Ministério e pelo Múnus impõem decoro, reverência nas referências connosco. Porém, não fossem esses imperativos, dir-se-ia que D. António Marcelino era uma pedrada no charco (evocando o título do registo com que denunciava as injustiças encontradas), uma força da natureza! Profundo em tudo, até nas coisas simples.
Ler a vida de D. António Marcelino, na profundidade de uma vida doada aos outros, à Igreja, é encontrar sementes do Verbo disseminadas por ele em nós, é reler o nº 33 da Lumen Fidei: no diálogo entre a fé e a razão, em D. António Marcelino, também Bispo para nós, como Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a busca da razão, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da fé, do qual recebeu uma nova compreensão. Acolhe a filosofia grega da luz com a sua insistência na visão: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz, que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um símbolo de Deus. Desta maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcendência divina e descobriu que todas as coisas possuem em si uma transparência, isto é, que podiam refletir a bondade de Deus, o Bem.