Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O fim deste Estado

 

As contas públicas, as políticas do Governo para as tratar e, a montante desse exercício contabilístico, a espiral de pobreza em que são colocados os portugueses... é aterrador. Um apelo à insurreição. Tudo isto aponta para um cenário “tuberculoso” , que nem o Príncipe de Maquiavel seria capaz de ousar: “todo o Príncipe inteligente deve fazer: não somente vigiar e ter cuidado com as desordens presentes, como também com as futuras, evitando-as com toda a cautela porque, previstas a tempo, facilmente lhes pode opor corretivo; mas, esperando que se avizinhem, o remédio não chega a tempo, e o mal já então se tornou incurável. Ocorre aqui como no caso do tuberculoso, segundo os médicos: no princípio é fácil a cura e difícil o diagnóstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade não foi conhecida nem tratada, torna-se fácil o diagnóstico e difícil a cura”.

É inacreditável!

Não há uma medida propalada, para o Orçamento do Estado, que seja equitativamente transversal. Só se verifica o linear, o corte horizontal, entre os que têm pouco ou nada. Agora, mais cortes nos serviços que garantem alguma qualidade de vida (educação e saúde), cortes nos salários e pensões; elaboração do plano tíbio de incapacitar, pela diminuição da possibilidade do acesso, os serviços passam a ser menos utilizados; como não são utilizados, pode-se fechar!

Quebrou-se o princípio basilar das organizações: a confiança.

A confiança formal, aquela que precisa ser vinculada contratualmente, é imprescindível. Mas com recurso a instrumentos vinculativos não deixa de ser um ato de apreciável valor o respeito recíproco pelos termos que se firmaram. Com as medidas aplicadas, esta dimensão deixou de fazer qualquer sentido. Se o Estado não cumpre os contratos, altera-os, rompe-os como é que as pessoas podem manter a coesão social?!

A confiança informal, a gerada no caráter dos interlocutores, também já não existe…

E a confiança como elã para o futuro, geradora de esperança?! Está devastada. Este país é mesmo para velhos, apreciados Ethan Coen e Joel Coen!

Nada! Quem lança o olhar em frente tem de focar muito para ver algo de bom no horizonte. Um horizonte perdido, com uma única ideia: estes pobres são muito ricos! Portanto, forte com os fracos!

 

(in Correio do Vouga, 2013.10.09)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Areópagos da vida comum

 

Terminada uma etapa determinante da vida coletiva, as eleições autárquicas, os resultados sugerem-nos três eixos de ilação.

O debate.

Há uma tentativa de manietar o poder político e os seus representantes. E também há um interesse dos representantes, a troco de notoriedade, de enveredarem por trajetos demagógicos, ilusórios, descredibilizantes do caráter e dos projetos. A procura da mensagem subliminar provoca a deturpação do essencial e a mensagem deixou de ser a arte do conteúdo. “O meio é a mensagem”! Triunfaram os meios, não só meio - Marshall McLuhan, na sua obra Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem, preocupou-se em mostrar que o meio é um elemento importante da comunicação e não somente um canal de passagem ou um veículo de transmissão.

Os meios, bons ou maus, escondem o conteúdo, declinam-no para segundo plano; relevam-se areópagos e areopagitas dotados de uma retórica tendenciosa porque faz juízo próprio sobre matérias sem direito ao contraditório, o que confunde, distorce, provoca insídias.

"Areópago" é a adaptação de areopagus (ou Areios Pagos, de "Ἄρειος πάγος"), que significa algo como "Colina de Ares", em referência ao deus da guerra grego. Tal referência deve-se ao fato de os membros do Areópago, por serem aristocratas, cumprirem em geral a função de guerreiros de elite em tempos bélicos, responsáveis pela proteção da cidade. Normalmente funcionavam como Tribunal supremo de Atenas, composto de 31 membros, antigos arcontes, e encarregado do julgamento das questões criminais mais graves. Alcançou reputação de equidade e sabedoria e, por isso, areópago passou a significar, figuradamente, assembleia ou corte de justiça augusta, imparcial e soberana.

A distância.

As pessoas estão, muito pela consequência dos efeitos dos meios que são mensagem, longe de tudo. Particularmente longe dos que se candidatam honestamente à representação das próprias no governo da “cidade”! Não há interesse sobre os programas de governo, sobre os protagonistas. Aos candidatos, a todos os candidatos e parte dos candidatos entre si, mormente os que menos ideias têm sobre o fundamental, colou-se o rótulo de sinuoso, ardiloso, etc. – com conotações não transmissíveis em espaço público. “São todos iguais” – não haveria nenhum problema se isto não quisesse dizer o pior do ser humano.

A fase do imaterial.

A vida das pessoas vai entrar no momento de viver mais com menos. A fase das engenharias, das construções, terminou. Terminou por não haver fundos e por não haver fundos para mais. Agora o essencial está no “pão de cada dia”, na edificação da pessoa como cidadão comprometido e responsável pelo seu futuro. Os próximos tempos são os da maturidade social: mais conhecimento, mais cultura, melhor investimento, seriedade, responsabilização.

O futuro só é possível sem demagogia e interesses primários!

 

(in Correio do Vouga, 2013.10.02)

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Os homens não se medem aos palmos

 

Timothy Hatton, professor na Universidade de Essex, no Reino Unido, liderou um estudo, publicado pelo jornal Oxford Economic Papers, onde demonstra que os aumentos na estatura humana são um indicador chave das melhorias nas condições de saúde das populações.

O estudo mostra que a altura média dos homens europeus subiu de 167 cm para 178 cm em pouco mais de um século, o que sugere que um ambiente de melhor saúde e menos doenças é o fator mais importante que origina um aumento na altura.

A média de alturas dos homens europeus subiu 11 centímetros entre 1870 e 1980, graças a melhorias nas condições de saúde no continente. No caso dos portugueses, dos quais só há dados a partir de 1911, a subida foi de cerca de 8 cm. Os homens portugueses mediam em média 164 cm em 1911 e 172 cm em 1980.

O estudo analisa dados de 15 países europeus sobre a altura média de um homem aos 21 anos. Os primeiros dados são da década de 70 do século XVIII. Só foram analisados dados dos homens porque informações históricas sobre as mulheres são mais difíceis de encontrar.

Contudo, apesar da relevância sobre as causas deste crescimento, o provérbio português, sobejamente citado, é conhecido pela força intencional que quer transmitir sobre a real dimensão do ser humano. A dignidade dos comportamentos é superior a todas as outras formas de medida.

E quando o mundo, por consciência moral, evoca, ou deveria evocar, os 50 anos do discurso histórico “Eu tenho um sonho”, que Martin Luther King Jr. proferiu durante a Marcha pelo Emprego e Liberdade, em Washington, a 28 de agosto de 1963, recordamos que "a verdadeira medida de um Homem não se vê na forma como se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsia e desafio" (MLK).

Temos urgência em crescer em dignidade (emprego, serviços, educação, visão plural do mundo), temos urgência em manter as razões (saúde, nutrição, condições de vida) que levam os homem e as mulheres do nosso país a ter um crescimento sustentável!

É urgente mudar! Mudar sobretudo na capacitação para cada um e cada uma poder alterar o unanimismo trágico que se abate sobre nós: resignação! Foi assim ao longo da história, estamos a vivê-lo novamente. Basta!

Assistimos, mesmo que indignados mas permanecemos a assistir, à destruição de tudo o que pode ajudar o país, cada pessoa, a ter esperança… e nada fazemos?!

É evidente que, com os aumentos dos preços de contexto do trabalho, sobretudo da energia, que inclui os transportes, interessa aos países ricos ter mão-de-obra barata mais perto do que a Ásia. É nisso que o neoliberalismo transformará o sul da Europa, onde a luminosidade, o clima temperado e quente, a falta de recursos naturais e dimensão territorial aliados à escravatura provocada com aliciantes financeiros em empréstimos bancários, criaram a ilusão de ser grande (rico, porventura). Agora, dependentes desses países, vem cobrar com juros elevadíssimos, os míseros euros que nos emprestaram. E não fazemos nada? Pagamos sem discutir o preço? Aceitamos o desemprego? Deixamos que se venda tudo, que sejam fechados hospitais, correios, escolas, empresas,… somente porque estamos a viver acima das nossas possibilidades?! Quem é que vive assim com 500€ ou pensões de 250€?!

Recuperando Protágoras, a dignidade humana é a medida de todas as coisas!

(in Correio do Vouga, 2013.09.04)