Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 24 de julho de 2012

Do Olimpo não muito distante


Inspirados pelo acontecimento, Londres 2012, apontamos três pequenas glosas que podem parodiar o momento.
Cerca de 776 antes de Cristo, a data mais aceite para o início dos Jogos Olímpicos antigos, baseada em inscrições, encontradas em Olímpia, acerca dos vencedores de uma corrida a pé realizada em cada quatro anos, os Jogos Antigos tinham características muito próximas das atuais, em Londres 2012. Rezam as crónicas que se destacavam e provas de corrida, pentatlo (que consistia em saltos, lançamento do disco e dardo, uma corrida a pé e luta), boxe, luta livre e eventos equestres.
Analisando as provas, constata-se que todas tinham o epicentro das causas e consequência na funcionalidade: preparar homens (na altura as mulheres não entravam sequer, como é sobejamente conhecido) para o combate, para a ascendência de uns sobre os outros em caso de guerra entre as Cidades-Estado península helénica.
Hoje, ao preço que estão os combustíveis e a energia, um das vertentes mais relevantes dos jogos é a mesma: preparar os melhores para enfrentar um mundo necessitado de mais exemplos, em que os melhores eduquem e sensibilizem para a sustentabilidade. Trinta e seis modalidades, apenas com energia limpa, para ser cada vez mais longe, mais alto e mais forte.
Há um mito que aponta Coroebus, um cozinheiro da cidade de Elis, como o primeiro campeão olímpico.
Com as dificuldades que a maioria do mundo enfrenta em 2012, como no início das Olimpíadas, quem ainda consegue ter algo para cozinhar… já é um campeão!
Por fim, os primórdios: as Olimpíadas foram inicialmente uma significação religiosa, com acontecimentos desportivos ao lado de rituais de sacrifício em honra de Zeus e todos os deuses, o panteísmo!
Londres está rendida ao mesmo feito, não é Zeus que “panteistica” o firmamento mas o Euro! O pobre, literalmente pobre, Euro tenta suportar uma economia que outros deuses menos solidários já não concorrem para a sua salvação. Assim, nem ao Olimpo consegue chegar.
A Europa, berço de tantas coisas boas da humanidade (até há quem protagoniza ser aqui o berço da civilização!?), não poder ser cadafalso de si própria.
(in Correio do Vouga, 2012.07.25)








segunda-feira, 16 de julho de 2012

Carreiras e classe

 
Muitas vezes somos confrontados com algumas expressões que, usadas na oralidade das conversas, até soam a sinónimos. Porém, quando refletidas na escrita, rapidamente sentimos que há divergências indissociáveis.
Carreiras há muitas, enquanto que para haver classe, quer no sentido mais prosaico quer na significação mais nobiliárquica do termo, é preciso muita elevação, conhecimento dos pormenores, competências profundas para discernir o essencial do acessório sem perder a visão do conjunto e as finalidades do todo, mesmo quando, em alguns momentos, seja necessário conter a disponibilidade para a satisfação da parte, de um indivíduo, para não baquear em arbitrariedades.
O que se vem a notar é a opinião do indivíduo a turvar o coletivo, a distorcer a realidade por mecanismos de projeção de frustrações próprias ou vontade deliberada de satisfação do próprio ego. Portanto, até para destruir uma simples carreira é preciso muita classe! A melhor medida para a compreensão destas coisas serão sempre os factos, a evidência, mesmo quando deliberadamente se tenta distorcer ou ignorar.
Dado que os canais de difusão da opinião estão abertos ao mundo e, sabe-se lá com que interesses, em vez de possuírem estatuto de autenticidade, assumem logo à partida “estatutos editoriais”, chamemos-lhe assim, que favorecem aquilo que recentes programas de humor chamaram (ou denominariam) achincalhamento!
Uma ilustração, “por opção editorial, o exercício da liberdade de expressão é total, sem limitações, nas caixas de comentários abertas ao público disponibilizadas pelo … [nome do meio de comunicação]. Os textos aí escritos podem, por vezes, ter um conteúdo suscetível de ferir o código moral ou ético de alguns leitores, pelo que [nome do meio de comunicação] não recomenda a sua leitura a menores ou a pessoas mais sensíveis.
As opiniões, informações, argumentações e linguagem utilizadas pelos comentadores desse espaço não refletem, de algum modo, a linha editorial ou o trabalho jornalístico do [nome do meio de comunicação]. Os participantes são incentivados a respeitar o Código de Conduta do Utilizador e os Termos de Uso e Política de Privacidade […].
O [nome do meio de comunicação] reserva-se o direito de proceder judicialmente ou de fornecer às autoridades informações que permitam a identificação de quem use as caixas de comentários em [nome do meio de comunicação] para cometer ou incentivar atos considerados criminosos pela Lei Portuguesa, nomeadamente injúrias, difamações, apelo à violência, desrespeito pelos símbolos nacionais, promoção do racismo, xenofobia e homofobia ou quaisquer outros”.
Portanto, até porque estamos no verão, em vez de se prevenir o “incêndio” abrem-se as portas a tudo. Depois, se houver problemas, cada um tratará por si a desgraça!
Voltando ao assunto, é preciso ter classe até no uso que se faz do bom nome da liberdade; caso contrário, continua a valer tudo para assegurar as carreiras! E tudo isto porque continua válida a máxima, considerada de autor anónimo, há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.
(in Correio do Vouga, 2012.07.18)









terça-feira, 10 de julho de 2012

A partícula redimida


A partícula redimida
A origem do apelido “a partícula de Deus” terá início numa circunstância meramente acidental?! É provável.
Nos anos 90, Leo Lederman, um Prémio Nobel, decidiu escrever um livro de divulgação sobre a física de partículas. No texto, Lederman referia-se ao bosão de Higgs como “The Goddamn Particle” (“A Partícula Maldita”) pela dificuldade em ser detetada.
O editor do livro decidiu, sabe-se lá porquê, mudar o termo “The Goddamn Particle” para “The God Particle” e assim “A Partícula Maldita” converteu-se na "Partícula de Deus”.
Esta particula começou a ter expressão na investigação quando, em 1964, uma equipa liderada pelo físico inglês Peter Higgs, propôs a seguinte solução: todo o espaço está cheio de um campo, que não podemos ver, mas que interage com as partículas fundamentais. O eletrão interage muito pouco com esse campo e, por isso, tem uma massa tão pequena. O quark “cimo” interage muito fortemente com o campo e, por isso, tem uma massa muito maior.
Entre as analogias mais comuns para fazer compreender o conceito, dá-se a comparação entre uma sardinha, por exemplo, e uma baleia. A sardinha nada muito rapidamente porque é mais pequena, tem pouca água ao redor. A baleia é muito grande, tem muita água ao seu redor e, por isso, move-se mais devagar. Neste exemplo, “a água” tem um papel semelhante ao “campo de Higgs”. Esta teoria, entre outras hipóteses de estudo que abre à investigação, vem trazer mais um contributo para a compreensão da massa de todas as partículas, originada por um campo que enche todo o Universo.
Esta massa, que não se vê, permite colocar o acento noutras massas que também não se veem mas sabemos que são poderosas e interagem condicionando ou querendo condicionar a existência humana.
Em termos sociais é um expressivo caso de estudo: as massas! A energia que é necessário para as mover.
Cada vez mais torna-se importante estar atento aos pormenores para descortinar por onde se movem as forças do universo!
Nunca é suficiente o que já se fez. O mais importante é o que ainda não está feito, nomeadamente encontrar espaço para a Memória.
Parece claro que o equilíbrio de forças está muito tendencioso, e nem sempre pelas melhores motivações.
(in Correio do Vouga, 2012.07.11)











terça-feira, 26 de junho de 2012

A lei e a ética

 
O debate é antigo. Levanta-se novamente a questão a propósito da greve, ou das greves.
O setor dos transportes está há dias, o que para parte significa da opinião pública são muitos dias, a fazer greve.  Nesta atividade económica, a dos transportes, a “cântara vai muitas vezes à mesma fonte”, o que se aceita na lei mas poder-se-á questionar, suspeitar, no domínio da ética!
Nos feriados municipais de Lisboa e Porto, algumas profissões do setor ferroviário, e a ele administrativamente associado, fizeram ouvir a reclamação dos seus direitos com recurso à greve.
Agora, sob acusação de terrorismo económico, por parte dos hoteleiros de Portugal, também os controladores aéreos e pilotos apresentaram o pré-aviso de greve. As tensões sociais vão aumentando de tom.
Cada vez que se ouve um dos lados da questão, fica a verdade comprometida, tal a violência das expressões entre a ênfase dada às reivindicações, a justiça da reivindicação, compreensão dos motivos no contexto temporal ou oportunidade para ser realçada a ação.
Colocar o assunto na perspetiva de análise em contraponto ética – lei poderá ser um abuso. A humanização da vida e da vida com qualidade nas suas variáveis será sempre um direito e é princípio de qualquer quadro ético. Mesmo assim, pelas coincidências e oportunidades mas principalmente por nunca se saber a verdade dos lados, valerá entender estas movimentações.
Seria importante ter um observatório para a ética da greve.
Esta ferramenta, o observatório, se garantisse a autenticidade dos dados e justiça dos objetivos, daria um grande contributo para a salvaguarda de todos e de tudo; incluindo a lei e a ética.
Com pouca informação sobre as causas, sem conhecimento aprofundado dos motivos, fica tudo muito comprometido. Não é bom entender um fenómeno apenas pelas suas consequências.
Nestas greves, serão justas as causas? Ganha o setor e o país maior dignidade e desenvolvimento? Está garantido o princípio da proporcionalidade?
Aparentemente, o direito à greve atolou-se em rodriguinhos de setor ou classe que já não tem muita ética! E assim, o que poderia ser uma ferramenta fundamental de mudança passou a ser entendido, pelo peso do deve e haver, como mais um motivo para os mesmos, os mais poderosos, terem ainda mais.
Os pobres serão cada vez mais pobres. O país também.
(in Correio do Vouga, 2012.06.27)