Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DACL

 

Esta sigla tem colocado, nos últimos dias, a cabeça às voltas de muitos intervenientes no sistema educativo. Neste caso concreto, significa Destacamento por Ausência de Componente Lectiva; ou, por palavras mais comuns, o professor, funcionário público, não tem horário no quadro em que está, na escola ou zona pedagógica, para onde foi contratado.

Começa a ser evidente que o sistema educativo tem docentes a mais, face às condições estabelecidas nos últimos anos.

Mas o que é que contribuiu para isto? – perguntar-se-á

A primeira inferência situa-se na diminuição da população portuguesa, sobretudo dos nascimentos. Há vários anos que o Censos (ou até no dia-a-dia das nossas cidades, populações em geral) indicam este decréscimo. A década de 70 ainda foi relativamente disfarçada com os portugueses provenientes das ex-colónias mas desde 80 que era previsível este resultado, também camuflado por alguma imigração nos anos 90, mas quase sem expressão.

Portanto, não há crianças e jovens em Portugal para o sistema educativo (equipamentos e recursos) disponíveis, de maneira particular os docentes que entraram para os Quadros do Estado em finais de 90.

Acrescente-se a falta de rigor na planificação e na administração de recursos. Tudo isto funciona em sistema “gaita-de-foles”: quando aperto, apita; quando sopro, enche! Portanto, só “dói” quando se aperta. O que transforma o Estado em entidade pouco séria na gestão do presente e na projecção do futuro.

Segundo, as não-reformas não ponderam o futuro. Isto é, as medidas ministeriais vão-se sucedendo conforme a capacidade de endividamento da nação: há dinheiro? É um bodo aos pobres (e ricos!); não há dinheiro? Corta-se tudo a direito.

Depois, bem, depois ainda há que contar com o “tempo útil” para o exercício da profissão – com o aumento da idade da reforma para os 65 anos,… isto passa a ser uma escola de… bisnetos! (no que tem de bom e menos bom face á falta de paciência de uns e desgaste de outros).

As cargas lectivas e horas de crédito às escolas foram, até à Ministra Maria de Lurdes Rodrigues, de um despesismo confrangedor. E os resultados escolares mantém-se no mesmo nível: fraco.

Terceira ilação, perdeu-se o sentido da escola!

Durante praticamente os últimos cem anos, estudar significou um investimento para melhorar as condições de vida. Hoje, estaremos na fase intermédia, entre o “já não é isso” e “ainda não sabemos o que isto vai dar”.

O senso-comum nacional aponta para a escola como uma entidade séria, credível mas cujos membros estão descredibilizados. Não é preciso credibilizar a escola, sobretudo em autoridade! É apenas necessário que a vida seja credível com Escola! E aqui não abordamos a perspectiva da “Escola-Sociedade” em que tudo pode ser “espaço”, “campus” formativo.

Não seria possível “modernizar” (impelir, com referendo ou não, um outro avanço civilizacional) sobre os conteúdos programáticos; a inculturação local; a capacidade abstracta e lógica; a diferenciação positiva de apoios; a heterogeneidade de competências; a diversidade real de oferta educativa direccionada para segmentos profissionalizantes; dignificação do trabalho técnico (o de fato-macaco e mãos sujas!); qualificação para além do papel, lápis e… computador!

Quarta ideia, a avaliação.

A avaliação das escolas e dos professores dever-se-á fazer pela capacidade de uns e de outros melhorarem a didáctica e os “produtos”, sem quotas. Quem aprofunda, investiga, pratica uma didáctica com resultados de excelência (suportadas em regras claras para todos no todo nacional), tem de ser classificado de Muito Bom ou Excelente. Os professores avaliam diariamente. Imagine-se se, em Setembro, fosse decretado que os professores só poderiam atribuir 5 (ou 19 - 20) a 5% dos alunos; 4 (ou 16 – 18) a 20% dos alunos?! Quem confiaria na fiabilidade do processo? Seria viável?

Evidentemente que nunca ninguém confiou em sistemas pré-tarifados!? Num espaço educativo, a avaliação é melhoria contínua. Isto é, amanhã melhor que hoje, por etapas, até ao último dia.

Que melhoras se podem sentir num moribundo?! É necessário reformar qualquer coisa que seja Distinta (do que já foi feito), Aplicável (no tempo e recursos), Concreta (nos conteúdos), Longa (paciente no prazo de operacionalização). Isto é, verdadeiramente DACL.

Porém, a esperança é ténue; poucos querem que em Portugal haja uma reforma séria! – nem a que se tem direito (até agora!) por aposentação?!

(in Correio do Vouga, 2011.08.03)

terça-feira, 12 de julho de 2011

“Rating” e “ranking”

 

É inevitável que prestemos alguma atenção ao que tem sido debatido sobre o assunto (rating) sem que alinhemos nem pelos conteúdos técnicos, de que não temos mais do que pensamento próprio, nem pelas teses conspiratórias ou persecutórias sobre o caso que suscitou a hecatombe: as contas portuguesas (Estado central e local, algumas empresas) estão consideradas no ranking ao nível do “lixo” – mas é importante que se diga, o lixo também dá dinheiro!

As empresas de rating são grupos que avaliam a capacidade de liquidez de quem lhes paga. Primeira nota de grande interesse: estas empresas recebem dinheiro para a avaliar os clientes. Espertos!

Depois, há os interesses de quem se associa. Claro que obter boa notação destes actores de mercado de capitais, agentes de informação sobre dinheiro-valor de um determinado produto virtual, é óptimo para obter empréstimos para fazer obra, para se viver melhor.

E há, ainda, aquela ponta de vaidade “nós somos auditados pela empresa tal!”. E ficamos boquiabertos pelo feito.

Deixemo-nos de coisas. Só pode haver três razões para isto acontecer (pagar para pertencer ao grupo): a) Necessidade para obter mais dinheiro emprestado; b) obrigação de o fazer, caso contrário não se tem credibilidade para obter esse dinheiro; c) incúria total, se não se der nenhuns dos casos anteriores.

Vejamos como funciona o mundo. Olhemos por vários ângulos outros níveis e notações que são dadas diariamente.

Quem não tem aparência, estatuto social, publico reconhecimento ou mérito popularmente conhecido “obtém” diariamente cada notação…!? E raramente por entidades credíveis.

Quem vai para pagar uma conta no mercado (neste caso, o melhor exemplo é o do peixe, da fruta – não haja confusão!) e não tem dinheiro?! Quem precisa de comprar casa (agora é melhor alugar) e não tem valores de garantia?! Quem é educado e espera a sua vez, na fila, para proceder dentro da conformidade?! Quem trabalha e vê o sistema avaliar o seu desempenho com processos cheios de truques e manhas apenas para não progredir?! Quem tem competências de excelência e vai para o desemprego?! O aluno que trabalhou um ano inteiro e, agora, uma avaliação externa reprova-o?! Etc., etc.,…

rating e ranking por todo o lado com regras que, mesmo querendo, não conheceremos!

No caso em apreço, apenas custa perder a ilusão de que a vida é fácil! Há trinta anos, sem o desenvolvimento que temos hoje, ninguém duvidaria que somos um país pobre numa Europa iludida numa teia de interesses nacionais.

Portanto, todos “apanhámos uma raposa” - a época é propícia!

(A raposa é o mais odiado dos animais na Academia de Coimbra, isto porque «apanhar a raposa» significa não passar de ano. A expressão está relacionada com um painel de azulejo da Faculdade de Direito. Quando se vai da Via Latina para os Gerais, existe um espaço onde os estudantes aguardavam para serem chamados, a fim de realizar as provas orais. Esse espaço é todo coberto por azulejos apresentando vários motivos, predominando os florais, onde está também a dita e aonde, caso não houvesse sucesso, ter-se-ia de voltar).

Mãos à obra. Temos de fazer mais e melhor para passar…

(in Correio do Vouga, 2011.07.13)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Férias

 

Este título é quase um grito – qual D. Pedro, nas margens do Ipiranga, em 7 de Setembro de 1822, quando na sequência de diversos conflitos de poderes entre as Cortes e a administração da Colónia, o Regente do Brasil declarou o território definitivamente separado da metrópole: "Independência ou morte!".

Este grito (“FÉRIAS”) simboliza tudo o que se pode desejar, depois de uma longa jornada de sucessão de trabalhos, e uma lista de preocupações por não se conseguir chegar lá ou depois de vir de lá – seja esse lugar, momento, tempo onde for!

Fraccionemos as coisas.

A conquista (trata-se de facto e de direito de vitórias difíceis), do tempo para fazer outras coisas, de descansar (passivamente ou activamente), é contemporânea das lutas de outras independências que se iniciaram durante o século XIX, no contexto das revoluções sociais e liberais. No fundo, foi uma parte da emancipação da pessoa para a sua própria realização e afirmação de independência – só reclama independência quem está dependente.

Depois, como noutra ocasião já o referimos, vem o século XX, o 13º mês, e a… dependência das férias para que todos possamos usufruir desse aliciante: gastar o 13º mês!

Voltámos à dependência.

O final de XX e o XXI já vivido, com o triunfo dos hedonismo e individualismo, aliados a bens eternos como a cultura e o princípio de conhecer para compreender e preservar, fizeram o resto. Isto é, se não tem férias não é ninguém; está fora de moda.

A conquista de um direito passou a ser a ditadura de uma vida: pode-se incomodar uma pessoa em qualquer momento, a qualquer hora, todos os dias. O que nunca ninguém faz é perturbar as férias:

- “Estou de férias!”

- “Ah! Desculpe, não sabia. Faz muito bem. Fica, então, para depois!”

E todos vamos vivendo norteados por isto.

Porém, a segunda década de XXI começa com um aviso sério: só faz férias quem pode. O 13º mês é necessário para equilibrar o “extinto” 14º (subsídio de Natal)!

Impõe-se a necessidade de um outro “Ipiranga”, o dos “acampados” (nas praças das nossas cidades) e desempregados: queremos trabalho!

Uns querem trabalho para ter salário para viver, outros para sobreviver e, alguns, ainda pensam que é possível ter tudo o que se conquistou: fartura e férias!

Os tempos mudam! Não mude, no entanto, a convicção e a persistência dos que têm a apetência, competência e possibilidade de incutir e usufruir de hábitos de boa gestão de tempo e, obviamente, de salário para poder viver com elevação e dignidade. Que as férias sejam isto mesmo e uma oxigenação da vida.

(in Correio do Vouga, 2011.07.06)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Os prazos a prazo

Encontramos por aí alguns sinais de que ou andam todos (os povos de meio mundo) perdidos ou nós andamos, em muitas matérias, em contramão.

Qualquer projecto carece de planificação, no início; operacionalização e monitorização de processos; e, para o fim, síntese da avaliação e resultados.

O Governo tomou posse há dias. Já lá vai uma semana, é certo, mas ainda está em pleno exercício do mandato. Para o final, dos quatros anos,…não falta tudo. Porém, teremos de dar espaço a que construa alguma coisa.

Uma entrada destas pode sugerir que alinhamos pelo coro dos insatisfeitos da vida e tudo quanto é exercício de cargos (públicos ou privados) é varrido como “cambada” e seus sinónimos (corja, gentalha, súcia,…); epítetos dos mais lisonjeiros entre os pejorativos. Nada disso!

Reafirmamos quatro princípios fundamentais, para dar a volta às coisas que são nossas, comuns a todos.

Em primeiro, saber quem faz o quê. Aceitar ser governado. Quando e quem exerce um cargo para o qual legitimamente foi mandatado, deve ser levado até ao fim. Sair a meio, só por vontade do próprio. Caso contrário, incompetente é quem mandata. Será incompetente porque não se muniu dos elementos mais fundamentados para o discernimento e será incompetente porque revelará não saber usar das competências que lhe são próprias: poder escolher para um determinado período ou prazo.

Posteriormente, porque é demasiado incomodativo, calar um pouco para saber algo sobre o assunto. Tantas opiniões sem critério, também conhecidas por suposições, conjecturas, e outras coisas piores, ao jeito de Harry Potter, é mero exibicionismo para retirar a serenidade às pessoas e condicionar o exercício dos cargos.

Depois, cumprir os prazos e fazer com que se cumpram. A operacionalização das coisas tem sempre necessidade de algum tempo de maturação, necessário para a consolidação da ideias, dos planos. Ora, em tempo de se apelar a direitos ( a República dos Direitos!) para quando um pouco de dever!? Parece verdadeiramente patético os comentários a propósito e a despropósito com que se incendeiam as opiniões, se inflamam ânimos. Há Ministros que ainda não tiveram possibilidade de se sentar na cadeira do Gabinete e Secretários de Estado que ainda o não são e já estão rotulados de não imputáveis ou inimputáveis, de tecnocratas, sem experiência, etc., etc., etc., Num país de tão grandiosos frutos, com tanta ideias em julgar os outros e as suas acções, só custa aceitar como não estamos no topo mundial.

Por fim, sintetizar a avaliação e apresentar resultados… responsabilizando quem o deva ser.

Não é algo que nos apeteça muito. Queremos resultados antes de tudo. E, também antes de tudo, já estamos a colocar na rua da amargura. Chega a ser fino, quando se falha redondamente, apresentar a demissão; um gesto que chega a merecer elogios no lugar da responsabilização por actos e resultados danosos.

Porventura, com receio de colocar em causa a democracia, outorga-se a ditadura! Porque esta liberdade é a melhor ditadura.

(in Correio do Vouga, 2011.06.28)