Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...
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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Direito a coexistir – teologia política




 
O mundo corre veloz e confrontacionista, separatista.
Aparentemente não há nenhum mal em si mesmo, nos confrontos das diferenças – “não viria grande mal ao mundo”, dir-se-ia, se desse conflito, tal como acontece entre as mós dos moinhos, fosse gerado algo de melhor!
Não estamos certos disso mesmo.
Já alguns tempos abordámos esta ideia de forma explícita. Falávamos do silêncio dos bons – inspirados o “grito” de Martin Luther-King: “o que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.”
Como estamos, o mundo, o nosso mundo concreto, dia após dia, as nossas vizinhanças – também algumas realidades experimentadas – conduz-nos obrigatoriamente à recuperação do debate sobre teologia política. A obrigação está unicamente no debate, no debate dos conceitos de Carl Schmitt (ensaio  Teologia Política, de 1922), Ernst Kantorowicz (Os dois corpos do Rei, de 1957), Johann  Baptist  Metz, Moltmann, Erik Peterson… tudo o resto será consequência da liberdade!
Este debate, enquadrado entre o  silêncio dos bons e a “questão social”  (como romper com o “status quo”, com o  conformismo,… para a igualdade de direitos, deveres e oportunidades), auxiliará a compreensão da travessia que o mundo percorre.
Poderemos viver juntos com o contributo de cada um?!
Teremos de seguir as vias da negação e aniquilação, em nome de quê?!
São notícia seis razões para alguns sobressaltos que vivemos:
1 - "Vocês rejeitam Alá como único Deus, criando divindades para adorarem. Vocês blasfemam contra Ele, dizendo que Ele tem um filho. Vocês fabricam mentiras contra os Seus profetas e mensageiros e praticam todos os tipos de práticas diabólicas".
2 - "Nós odiamos-vos porque a vossa sociedade liberal permite todas as coisas que Alá proibiu ao mesmo tempo que banem muitas das coisas que Ele permitiu, um assunto que não vos preocupa porque vocês, cristãos não-crentes e pagãos, separam a religião e o Estado, ao mesmo tempo que garantem autoridade suprema aos vossos caprichos e desejos através dos legisladores que vocês colocam no poder"
3 - "No caso dos ateus, nós odiamos-vos e vamos levar a guerra até vocês porque vocês não acreditam na existência do Senhor e Criador"
4 - "Nós odiamos-vos por causa dos vossos crimes contra o Islão e vamos levar a guerra até vocês para vos punir pelas vossas transgressões contra a nossa religião"
5 - "Nós odiamos-vos por causa dos vossos crimes contra os muçulmanos. "
6 - "Nós odiamos-vos por invadirem as nossas terras e vamos lutar contra vocês para vos expulsar.”
Verdade ou não, em nome de Deus, estão aí projeções e realidades que não podem passar no meio do silêncio…

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Isolados por todos os lados

  M Oliveira de Sousa

Há bem perto de nós, no nosso concelho, ausência de meios para sair à procura de recursos elementares para o desenvolvimento! Coisas simples, sem custos para o erário público, são estagnadas por incúria, falta de visão ou, desejamos que não, deliberadamente. Estão nesta lista (de coisas simples), sendo bastante plebaico, a realidade plasmada num horário de serviços – sim, o papel ou suporte digital onde está publicitado um determinado, qualquer que seja, horário!

A funcionalidade (um serviço intermodal, por exemplo; um blogue!) e a conceção intuitiva de leitura são determinantes para se perceber o que existe e onde as pessoas podem obter o serviço (mínimo) que procuram: transportes, serviços de saúde, serviços judiciais,… Por enquanto, nota-se confuso, difuso, disperso, ausente!

Estamos quase como alguns países, que face aos índices de desenvolvimento segundo modelos estereotipados, considerados pobres: vá para lá (paragem do autocarro, posto médico,…) e espere! O atendimento? Logo se vê!

Ora, isto é o cúmulo do atraso. Pára tudo, por nada!

Há pouco tempo numa conferência sobre redes (falava-se de caminhos de ferro, mas os assuntos foram alargados para outras convencionais e digitais, mas sobretudo convencionais) discutia-se enfatizando consensualmente a existência e desempenho destas como principais infraestruturas para o desenvolvimento das pessoas, dos povos, das comunidades. É claro que o uso do termo redes, tão globalizado, quer significar as interligações que se encadeiam em imensas teias sucedâneas e dependentes.

Não se esgotou o assunto em exemplos porque os participantes partiam da mesma premissa: estar no mundo é estar ligado; o isolamento é a ausência de ligações. Há até expressões que são tautologias como, por exemplo, vias de comunicação (fluvial, rodoviárias, ferroviárias, aéreas,…)!

Protagonizam, desde logo os autores clássicos da Sociologia (Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim): o homem é um ser social. Somos sociais não apenas porque dependemos de outros para viver, mas porque os outros influenciam a maneira como convivemos connosco próprios, com aquilo que fazemos.

Se estivermos de acordo nisto, já demos passos enormes para sair do isolamento e dar consistência ao desenvolvimento da humanidade – aqui tão próxima!

Às vezes, havendo competência, basta que um pare um pouco (para pensar e (re)definir a visão das coisas) para que tudo funcione!


(in Correio do Vouga, 2015.11.11)


terça-feira, 1 de setembro de 2015

“The fireman”, Bombeiros e bombos

 

É de elementar justiça sublinhar, enaltecer repetidamente a importância dos primeiros – na realidade, em termos práticos exercem a mesma função, quanto à definição, e são mais do que a definição possa sugerir (assistência no acidente, socorro em quase toda a linha de atuação, quer humana quer outra: no animal que é preciso recuperar do perigo, a limpeza da sargeta que provoca a inundação, a árvore que cai derrubada pela intempérie,…). São, como é usual denominar-se, elementos da proteção civil – seja lá o que isso for! São é a proteção a tudo (civil ou não!).

Em inglês, bombeiro é chamado o "homem do fogo", “fireman”, o profissional que elimina o fogo; na língua portuguesa, a palavra "bombeiro" deriva de "bomba", máquina que eleva, pressiona, faz fluir normalmente a água numa determinada direção. Contudo, para não permitir a confusão, também temos em português “bombo”, do grego “bómbos”, o que faz "barulho", “ruído grave, forte”, em particular o "ribombar do trovão".

Mas este interesse sobre a curiosidade dos termos (“fireman”, bombeiro, bombo) apenas ajuda a perceber o que vai acontecendo e que importa fazer notar, destacar, com uma certa dose de conotação bombástica, para suscitar a leitura e interpretações mais atentas a todos e a cada um (participante desta “tribo” de humanos).

A Europa: “The fireman”.

Está a “mexer”, e sucessivamente, com o fogo em vários assuntos. O desmembramento parece iminente!. Claro que a crise dos migrantes, com os últimos acontecimentos tão vertiginosos, faz esquecer o que se passa por aí… em Calais (França), no autoproclamado Estado Islâmico, na Indonésia (Malaca e Aceh), Birmânia, no centro de África,…

O próximo Governo: o “bombeiro” (para tantos “incêndios”, que teimam em lavrar há mais de cento e cinquenta anos)!

Os governos têm o seu “quid” com esta conotação (de bombeiro). Aliás, dizia há dias um responsável político, há determinados governantes que por não acreditarem ideologicamente ser possível gerir bem o que é “público”, quando eleitos para isso, fazem-no sempre mal! Deixamos duas indicações recentes: o Estatuto dos militares da GNR, adiado; o pagamento de 54 mil milhões de euros a quem comprou obrigações do Tesouro e à “troika”,… e muito mais que sucede cada dia!

Os funcionários(?) da Câmara de Aveiro: o “bombo” (quem suporta as culpas).

Há coisas (as desagradáveis são sempre) que têm de ser apuradas junto de terceiros! Diz o Diário de Aveiro (jornal do dia 31 de agosto) que sacos com raticida, animais mortos, tal como aves, além de ratos, um cão e gatos têm sido encontrados pela cidade, alarmando principalmente os donos de cães que passeiam os seus animais pelo centro de Aveiro e receiam que possam ser envenenados. O envenenamento de outros animais para além de ratos é um receio que tem crescido nas últimas semanas devido à descoberta da colocação de sacos com raticida em locais de circulação de animais de companhia e pessoas.

O Diário de Aveiro não conseguiu saber quem anda a colocar esses sacos pela cidade, o que está a acontecer, pelo menos desde Junho último. O presidente da Câmara de Aveiro, Ribau Esteves, desconhece qualquer procedimento deste tipo pelos serviços da autarquia, ressalvando que a eliminação de roedores é feita nos edifícios municipais e não em zonas do exterior. De qualquer forma, o autarca disse ao Diário de Aveiro que, hoje, iria “averiguar” – coitado do bombo! - o que está a acontecer. Junto à antiga Capitania, já foi visto a colocação de sacos por indivíduos com colete e farda de cor verde. Contudo, nenhuma empresa conhecida tem, na lista de actuação, a colocação de sacos de raticida pela cidade.”

O “bombo” que vier atrás… vai apagar o fogo!

(in Correio do Vouga, 2015.09.02)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Até já




Sim, até já?!
Porque há tanto para fazer, tanto para refletir, tanto sonho por cumprir, que só assoma dizer-se “até já”!
Muitas vezes (até já!) não passa de um eufemismo: queremos que a despedida, vislumbrada como definitiva, não o seja; quer-se apenas mais doce.
Na intenção será, porventura, uma forma de expressar que se deseja voltar em breve. E, às vezes, o “até já” definitivo é apenas, como nos inspiram três poemas – motivados pelo regresso às férias!? – imperativo para reparar um momento, um percurso menos cuidado, um desvio que conduz ao reencontro mais à frente.
Por muito que se deseje ou não deseje, em cada etapa que termina haverá sempre “até já”, porque não somos donos do tempo nem o tempo resolve o que compete ao engenho: Dizem que o tempo ameniza/ Isto é faltar com a verdade/ Dor real se fortalece/ Como os músculos, com a idade. É um teste no sofrimento/Mas não o debelaria/ Se o tempo fosse remédio/Nenhum mal existiria (atribuído à norte-americana Emilly Elizabeth Dickinson).
Este é o tempo de estio, o verão, que tem destas coisas: chegadas e partidas.!
Quando gostamos muito de algo ou de alguma coisa, espera-se muito pela chegada… e é dolorosa a partida! Porém, também há partidas feitas de forma inesperada que aguardam um regresso ambicionado. No dizer poético de Fernando Pessoa, através da metáfora do rio, é algo “entre o sono e o sonho”:
Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

Passa-se por outras margens… muda-se! E, no final, o rio (que é a vida) continua o seu curso!
Transforme-se, altere-se, modifique-se, sim mude-se tudo e nada, porque todo o mundo é composto de mudança (Camões)… E na outra margem, depois de tanta mudança, não é raro lançar o olhar e reverem-se as qualidades das quais se partiu!

[Ao sairmos (Correio do Vouga) por uns dias… até já!]

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Quando a terra treme, “Senhora das Tempestades“

 

As fragilidades continuam a emergir quer do seio da Terra quer na superfície terrestre, como ainda recentemente o abordámos – a propósito da tragédia do norte de África expressa nas águas do Mediterrâneo - e foi coletivamente sensibilizado por vários organismos da Igreja Católica, no passado domingo, com a iniciativa “Hashtag” #somostodospessoas : “acreditamos que a União Europeia pode e deve fazer mais por cada uma destas pessoas, nomeadamente, olhando de forma diferente para os seus países de origem. As organizações da Igreja Católica pedem medidas que ultrapassem a excessiva preocupação securitária e de controlo de fronteiras e que se pensem alternativas de maior humanização.”

Mas a Terra treme ainda bem mais fundo quando vemos que a morosa soberba numa tragédia como a do Mediterrâneo contrasta com a rapidez de disponibilidade e serviços como no caso recente do tremor de terra do Nepal!

Os números são igualmente dramáticos. As condições de vida, antes e depois, são chocantes. Todos morremos um pouco com estes que sem nada poder fazer perecem nos escombros de uma terra que tantas vezes viu ser derramado sangue bélico para permanecer mãe para os que agora engole, abafa, soterra, apropriando-nos de Manuel Alegre, no “Senhora das tempestades” , quanto espanto e quanto medo: “Senhora das tempestades e dos mistérios originais, quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo, trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais, e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo”.

Perante isto, até o “25 de Abril” parece caber na Betesga - curiosamente Betesga significa beco, pelo que provavelmente a rua teve origem numa antiga ruela que existia no local antes do Terramoto de 1755! Diga-se, ao jeito de glosa, que em abono da verdade muitos responsáveis do nosso país têm feito tudo para que tal aconteça. Há um desrespeito permanente pelas datas-símbolo de identidade, de memória histórica,…. Fica-se sem saber se é por caráter submisso ao passado, por discordância ideológica, pela tese do Estado musculado ou por nostalgia dos tempos de recurso “a quem de direito” e arbitrariedades sumárias?!

Para concluir, socorrer quem pode morrer sob os destroços no Nepal, ou em qualquer outro lugar, é urgente, dispendioso, incontornável, pronto! – aplauda-se de pé a solidariedade humana! Mas há outros socorros que continuam a clamar pelas mesmas diligências (urgente, dispendioso, incontornável) e que se não são materializados em tempo útil, porquê?! Salvo a ingenuidade, a hipocrisia tem muitos rostos! E alguns parecem ser o da generosidade.

A Terra treme de muitas maneiras, compete-nos socorrer todos a cada momento vencendo a assombração, o medo, o canto dos corvos!

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Liberdade, razão, belicosidade

 
A liberdade conquista-se pela força – recorrendo novamente a Maquiavel -, pela força dos argumentos ou pela força das armas!
Estamos a viver um tempo em que os argumentos são violentos, belicosos, armas letais, arremessados, rebatidos, assassinados “sem dó nem piedade” – salvaguarda-se já que “dó” e “piedade” são usados como metáfora. Dada a violência puritana no léxico moderno, qualquer palavra pode ser usada contra quem a profere passando o emissor a ser um crápula retrógrado, um ser bafiento, desprezível, opositor do avança civilizacional – seja lá isso o que for!
Adiciona-se, a este descarado turbilhão de verborreia, os meios disponíveis e a penumbra de um apelido (nickname!), qual máscara de um elmo protetor, que as ferramentas de comunicação proporcionam na sua riqueza de diversidade!
A educação da razão é cada vez mais esparta – à semelhança de Esparta. Esparta, Cidade-Estado, tinha como principal característica um Estado oligárquico e militarista, em que os principais objetivos projetavam fazer dos seus cidadãos modelos de soldados, fortes, corajosos, bem treinados e obediente as autoridades.
A educação espartana estava voltada para o caráter militarista, sendo a criança, desde pequena, preparada para ser soldado.
Começava por ser observada por um grupo de anciãos quanto à robustez física, para não possuir problemas de saúde e ter boa estampa física. Até aos sete anos de idade ainda ficava à guarda da mãe mas, após esse tempo, o responsável pela criança era o próprio estado.
Depois, aos sete anos, “entrava” para o exército, onde permaneceria até aos dezanove anos, onde recebia, nesta fase, alguns ensinamentos para que conhecesse a dinâmica do estado Espartano e principalmente as tradições de seu povo. Aos dezanove anos passava para o treino militar contínuo.
Aprendiam a combater com eficácia, eram testados fisicamente, resistência física e psicológica, sobrevivência em condições extremas e diversas, e principalmente aprendiam a obedecer aos seus superiores.
Perante a força dos argumentos que diariamente são apresentados, estamos em crer que está em marcha a mudança do sentido da força, da razão para a belicosidade da razão. Tudo, claro, em nome da liberdade! Liberdade de quem?!
Este valor absoluto não pode ser individualizado, privatizado, monopolizado, ou pode?









quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

2014

 
O início de uma etapa nova refaz motivação e expectativas. Assim seja! Cá estamos para mais uma “translação”!
E o que nos espera, para além do inevitável, o que temos como certo, o que podemos teorizar como “limitação do limite”, isto é, até ali vamos mas depois já nada sabemos ou não queremos saber. Será a finitude ou infinitude?! Só Chronos nos dirá…
Porém, cada um e cada uma, norteados por princípios universais, somos convidados a fazer o que nos compete.
Recriar a esperança!
Inspirados pelo Papa Francisco (Mensagem para o Dia Mundial da Paz), o número sempre crescente de ligações e comunicações que envolvem o nosso planeta torna mais palpável a consciência da unidade e partilha dum destino comum entre as nações da terra.
Nos dinamismos da história – independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas –, vemos semeada a vocação a formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta vocação é muitas vezes contrastada e negada nos fatos, num mundo caracterizado pela «globalização da indiferença» que lentamente nos faz «habituar» ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos. E, citando Bento XVI , a globalização torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. As
inúmeras situações de desigualdade, pobreza e injustiça indicam não só uma profunda carência de fraternidade, mas também a ausência duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do «descartável» que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados «inúteis». Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero do ut des (dou para que me dês) pragmático e egoísta.
Partilhar na sobriedade. Ano Europeu contra o Desperdício Alimentar.
De acordo com dados de 2012, em Portugal cerca de um milhão de toneladas de alimentos por ano, cerca de 17% do que é produzido, vai para o lixo, e nos 27 Estados Membros da UE a produção anual de resíduos alimentares ronda os 89 milhões de toneladas, estimando a UE que possa chegar a 126 milhões de toneladas em 2020.
30% dos produtos horto-frutícolas na Europa vão para o lixo!
Para que medidas importantes para a resolução deste problema sejam tomadas, o Parlamento Europeu propôs, e foi aprovado, que o ano de 2014 fosse declarado como o Ano Europeu contra o Desperdício Alimentar. Este é um problema que atingiu proporções mundiais e que abrange várias dimensões, desde o campo até à mesa dos consumidores.
Diligenciar o essencial. Ano internacional da agricultura familiar.
O Ano Internacional da Agricultura Familiar (AIAF), 2014, visa aumentar a visibilidade da agricultura familiar e dos pequenos agricultores, focalizando a atenção mundial no seu importante papel na erradicação da fome e pobreza, provisão de segurança alimentar e nutricional, melhoria dos meios de subsistência, gestão dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e para o desenvolvimento sustentável, particularmente nas áreas rurais.
O objetivo do AIAF 2014 é reposicionar a agricultura familiar no centro das políticas agrícolas, ambientais e sociais nas agendas nacionais, identificando lacunas e oportunidades para promover uma mudança rumo a um desenvolvimento mais equitativo e equilibrado.  O AIAF 2014 vai promover uma ampla discussão e cooperação no âmbito nacional, regional e global para aumentar a consciencialização e entendimento dos desafios que os pequenos agricultores enfrentam e ajudar a identificar maneiras eficientes de apoiar os agricultores familiares.
E das “tentações do deserto”, a representação do poder (espiritual, económico-financeiro e político-administrativo), projeta-se um novo ciclo da vida. Se não cairmos em tentação, 2014 será muito melhor do que o podemos esperar. Para além deste quadro, haja saúde, trabalho, educação,...justiça e paz!
(in Correio do Vouga, 2014.01.08)















terça-feira, 10 de dezembro de 2013

46664


“4664” foi o número de prisioneiro de Nelson Mandela, desde o início da detenção, em 1964, até à libertação em 1990. Na Ilha Robben, Mandela foi o preso número 466, do ano de 1964, onde ficou durante 18 dos 27 anos que esteve detido. Entretanto "46664" surge como um ícone permanente dos sacrifícios que Mandela estava disposto a fazer pela justiça social e humanitária.
Nos dias que passam, enquanto o mundo presta homenagem a África do Sul celebra – por muito que possamos ficar surpreendidos na diferença, manifestar estranheza, porventura, trata-se de uma celebração contínua, típica dos países de África, da generalidade das tribos africanas – a África do Sul e toda a África celebra as diversas atitudes que o homem tem adotado frente à morte ao longo da história têm contribuído para formar um imaginário coletivo expresso através da elaboração de símbolos, atribuição de representatividade de alguns materiais ritualísticos e a incorporação de rituais macabros, no intuito de conduzir aquele que jaz de forma pacífica e livre de punições para além da morte. Assim, morrer não significa pura e simplesmente deixar o mundo dos vivos, e não se resume ao momento da passagem desta para outra esfera transcendental. Mais do que isso, é uma construção social que assume um papel de evento importante na própria existência do indivíduo, ainda que por vezes esse aspeto possa parecer contraditório, isto é, como o aprofundou com sentido antropologista Philippe Ariès, deve-se pensar na morte para bem viver.
A construção social continuará a exigir muito mais dos vivos.
Enquanto o mundo evoca Mandela, como refere Pulido Valente esta semana no Público (2013.12.08), convém lembrar que em 2013 a África do Sul continua dividida entre brancos ricos e pretos pobres, que sofre de uma criminalidade nos limites do intolerável e de uma epidemia de sida, que nenhum governo foi capaz de travar ou de atenuar. Com ou sem Mandela, não é um sítio recomendável.
Próximo de nós, há manifestações na rua contra a austeridade, o “Relatório Edite Estrela” coloca, na essência, a debate a dialética entre direito positivo e direito natural; a Ucrânia promove a “marcha de um milhão”; a Cáritas Portuguesa lançou, em Portugal, a campanha da confederação internacional "Uma só família, alimento para todos", que apela à erradicação da fome no mundo até 2025; o Papa Francisco afirma preocupado "Estamos perante o escândalo mundial de mil milhões, mil milhões de pessoas que ainda hoje têm fome. Não podemos virar as costas e fazer de conta que isto não existe. Os alimentos que o mundo tem à disposição podem saciar todos"!
Também é na vida que preparamos a morte, quando se completam 65 anos sobre a adoção – melhor seria a assinatura da assunção! – da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que delineia os direitos humanos básicos, proclamada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948!
Continuamos prisioneiros, seja ele qual for o nosso número!




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Reis na República


Recorremos a um título antagónico mas sugestivo dada a intenção objetiva: trazer à colação o debate acerca da educação das crianças; das crianças de tenra idade! Estas – aqueles pequenitates - são a geração tecnológica, a “geração-indivíduo”, a geração “Rei” do espaço, do tempo, da condução das circunstâncias, das estâncias e das instâncias!
O Debate Nacional sobre a Educação suscitou a abordagem - entre outras matérias relevantes para a educação que, aparentemente, “ganham bolor” no fundo das gavetas. Destacamos o Estudo “A Educação das Crianças dos 0 aos 12 Anos” para o Conselho Nacional da Educação, coordenado pela Profª Isabel Alarcão.
Há muito que seguimos com particular interesse o debate. Preocupa-nos a passagem à ação, isto é, a inação!
Entretanto, o mundo avança – já avançou! O que há seis anos seria o início do debate hoje é uma realidade incontornável. Nas escolas estão crianças donos do mundo. São monarcas, oligarcas, ditadores. São autónomos na sua “razão” – ainda bem! Porém, o que podemos fazer para vivermos juntos?
Naquele tempo, apontavam-se “reflexos de uma série de factores sociais como o desemprego, os baixos níveis de escolarização dos pais, a maior taxa de mulheres trabalhadoras a tempo inteiro na Europa, factores que, aliados à crescente multiculturalidade, às transmutações da família tradicional com muitas situações de famílias mono-parentais e de crianças sem pais, tornam os contextos educativos muito vulneráveis. Mudanças de comportamentos com tendência para o sedentarismo e a passividade perante a televisão ou o fascínio do entretenimento com jogos informáticos levaram à reorganização dos espaços, dos tempos e das vivências da infância e a um novo relacionamento com o mundo, provocando um modo diferente de apreender e conviver com o real. Vivências em culturas multireferenciais, disparidade de informações e diversidade de solicitações transformaram a criança num consumidor precoce, alvo de processos de marketing desenfreado”. (Alarcão, 2008. 22-23).
No que conhecemos, junto das crianças que entram na idade da razão, não lugar para mais ninguém nem para mais nada. Apenas elas. A ditadura é uma coisa séria!
(in Correio do Vouga, 2013.10.30)





terça-feira, 9 de abril de 2013

O precipício

Conta-se, em tom jocoso, anedótico, que no momento de início de funções, em jeito de balanço do trabalho produzido pelo executivo anterior, um determinado líder terá prometido: “amigos, com a direção anterior, a nossa organização chegou à beira do abismo!” – apesar de pouco elegante, percebe-se a análise no entusiasmo do momento.
A completar a ideia, veio o remate final, a chave apoteótica – aquela ênfase que espera um encerramento alegre, grandioso, normalmente a culminar com uma estrondosa salva de palmas: “… comigo, vamos dar um passo em frente!”
Ou seja, uma promessa tão esperançosa conduziu os presentes para o receoso precipício!
É aqui que estamos: à beira do abismo! Será que vamos dar um passo em frente?
Tudo nos sugere que, pela forma e fórmula expostas, valerá muito mais dar um passo à retaguarda para poder dar o salto para um futuro melhor.
É urgente dar ferramentas aos criativos e aos jovens para patentearem as suas ideias e fomentarem novas oportunidades.
O jornal Expresso, no âmbito dos seus quarenta anos, dedicou a Aveiro a última edição. Fez manchete com o facto de estarmos perante um caso de esperançoso sucesso: Silicon Valley. Tanto mais que a Universidade de Aveiro fez a apresentação pública e divulgação de finalistas dos Projetos empreendedores a caminho de Silicon Valley.
Neste evento de encerramento dos quatro concursos promovidos pelo Aveiro Empreendedor (CMA|AGIR, AIDA, UA|AAAUA e IEUA Start), os 15 projetos finalistas apresentarão as suas ideias através de um pitch. Os quatro projetos vencedores, irão usufruir de um Programa de Imersão em Silicon Valley.
Como não faltam ideias para pantear, apenas faltará “engenharia financeira” para transformar estes projectos em produto de mercado e com isto… saltar o precipício.
Em boa verdade, também serão necessárias outras estratégias e outros decisores para da dificuldade fazer oportunidade.








quarta-feira, 20 de março de 2013

Uma nova primavera quando se mata para comer

 
O mundo é conduzido, pese o facto do realismo talvez exacerbado, nomeio de muita bruma. Bulcões ameaçadores erguem-se no horizonte. – E não é caso para menos!
Sobre esta ditadura da “Finança”, dominada por agiotas que liquidaram a democracia e a legitimação do poder pelos cidadãos, tudo é taxada, sob e sobretaxado em nome das metas do deficit. É necessário pagar a quem se deve mas será legítimo matar (tudo) apenas para alguns comerem?! É imperioso colocar a questão, tal como temos insistido. Isto está a fazer lembrar uma caçada do tempo do Absolutismo!?
Às vezes, dados os rumos protagonizados, somos levados á tentação de pensar nos alertas de Eisenhower “Nas assembleias parlamentares, devemos ter cuidado com o crescimento da influência, tanto clara quanto oculta, do complexo militar-industrial. Há um risco de que cresça desastrosamente o poder nas mãos de pessoas erradas, e esse risco continuará a existir no futuro. Não devemos permitir que o peso dessa mistura de poderes ponha em perigo as nossas liberdades ou os processos democráticos. E não devemos achar nada óbvio: apenas cidadãos vigilantes e bem informados podem impor um equilíbrio adequado entre a enorme máquina militar-industrial e nossos métodos e objetivos pacíficos, a fim de que a segurança e a liberdade possam prosperar juntas.” (17 de janeiro de 1961). É a primeira vez que se utiliza a expressão “complexo militar-industrial” para indicar um agregado de interesses capaz de influenciar a política interna e externa dos Estados Unidos da América.
O complexo militar-industrial gera receitas, dinheiro que escraviza, mata, atrofia, esgota recursos, cria tensões sociais, anula a legitimação do poder, … tudo em nome do lucro!
Entre vários cúmulos, está (agora) o caso cipriota: uma taxa especial sobre as poupanças?! É uma vergonha. Trata-se de ir roubar aos pobres o pouco que conseguem poupar. Os que têm muita “poupança” já fizeram as acauteladas deslocações para os “paraísos” do mundo!
Contudo (se é mesmo com tudo?!), na introdução a este período “antes do verão” consolida-se a primavera, tanto mais que quando a 8 de Dezembro de 1965 se celebrava, na Praça de São Pedro, em Roma, sob a presidência do Papa Paulo VI, o encerramento do Concílio Vaticano II, considerado o maior acontecimento eclesial do século XX, despertou uma nova primavera na Igreja, reconduzindo-a à frescura da fonte original do cristianismo e, por outro lado, abriu-a à novidade da cultura do mundo moderno. Desde essa data, os documentos conciliares, tem sido a bússola que guia a ação da Igreja – aludiu então José Luis Martín Descalzo. A primavera de então, pelo equinócio, pelos resultados do Conclave, pelos gestos iniciais do Papa, pela natureza que inspira o nome escolhido (Francisco) dão indicações de estarmos perante uma nova era; que o seja!
(Jornal “Correio do Vouga”, 2013.03.18)






terça-feira, 5 de março de 2013

Os números e o descontentamento

O país saiu à rua!
Mas terá sido todo o país? Terão estado dez milhões de pessoas a marchar contra a troika? “Que se lixe isso” – parafraseando um eventual cartaz.
O essencial está nas ideias para o governo, segundo alguns, ou desgoverno, segundo a maioria, do país. É óbvio que a grande maioria das pessoas quer apenas ter condições para honrar os seus compromissos!
Salvo raras exceções, todos os anos, em janeiro, esperavam-se (sempre) novos aumentos: nos salários, nos combustíveis, nos transportes,… em tudo mas sobretudo nos salários, no poder de compra. Subiu-se tanto, sobretudo em qualidade de vida e na dívida da mesma, nos últimos trinta anos, que obrigar as pessoas a perderem tudo o que acreditaram, lutaram e, justamente, atingiram não pode ser feito num ano ou dois e, de maneira particular, à custa de juros sobre dívidas que, apesar de indiretamente partilhadas, teria sido mais prudente ter acautelado evitando loucuras: submarinos, autoestradas, “intoxicação subsidiária” do tecido produtivo…
Como está até parece claro que só duas dicotomias na orientação dos atuais governantes europeus: trabalhadores mais pobres – maiores margens de lucro; austeridade (para as massas) – oligocracia (no poder).
Mas isto das dívidas dos países não é contabilidade de merceeiro ou agiota, são acordos de solidariedade soberana e interdependências.
Todos sabemos, com os devidos ajustes aos contextos atuais, mas Sérgio Aníbal recorda-o, num artigo no “Público”, há 60 anos, 70 países decidiram perdoar quase dois terços da dívida externa alemã. O país duplicou o seu PIB na década seguinte.
Com a troika em Portugal e com o Governo, os partidos da oposição e os parceiros sociais a pedirem uma melhoria das condições dos empréstimos que foram concedidos ao país, uma efeméride registada na passada semana dificilmente poderia passar em claro. Na quarta-feira, concluíram-se 60 anos desde que foi assinado o acordo de perdão de dívida entre a República Federal da Alemanha e os seus credores, onde se destacavam os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, mas onde também surgia a Grécia.
A 27 de Fevereiro de 1953, a economia alemã, que tinha atingido o fundo após a II Guerra Mundial, deu um passo decisivo para uma recuperação classificada por muitos como milagrosa. Desembaraçou-se de quase dois terços da sua dívida externa e iniciou uma década em que conseguiu duplicar o seu PIB.
Haja quem explique quando e como, num país como o nosso, com um PIB na ordem dos 160 mil milhões de euros, podemos desembaraçar-nos deste peso da dívida e recuperar a soberania? – basta de engodos e demagogias, razão do nosso descontentamento.
( in “Correio do Vouga”, 2013.03.06)






quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Falta de educação

 
A afirmação é polissémica. A terminar o ano de 2012 vemo-nos confrontados com diversas interpretações sobre o assunto.
Há muita preocupação a emergir com os elementos que adicionam novos dados sobre o universo da educação. Os factos provenientes dos Estados Unidos deixaram o mundo perplexo. O que aconteceu lá, apesar das circunstâncias agravantes, pela lei das armas vigente, deixa antever que pode acontecer em qualquer lugar. O mundo está muito igual. Por mais que se insista nesta matéria, por maior incómodo que o assunto possa provocar, verifica-se uma enorme agitação que (também) se reflete no espaço escolar.
A confusão entre escola e educação acaba por, intencionalmente ou não, refletir como preparamos o nosso futuro comum. A quem pertence a responsabilidade da educação?
A Constituição Portuguesa (artº 67) incumbe o Estado de cooperar com os pais na educação dos filhos. Todos têm direito à educação e à cultura. E o Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida coletiva (artº 73 e ss).
A educação começa, portanto, em casa, na família, mas a nossa sociedade não tem casa e tem muitas famílias com pouca ou nenhuma familiaridade!
Agora (notícia de 18 de dezembro) acena-se no horizonte mais uma falta de educação: o Governo está a equacionar a transferência de muitas das suas competências na área da Educação para as autarquias, incluindo no secundário. O modelo será testado no concelho de Cascais em 2013 e implica atribuir à câmara a gestão de todas as escolas do ensino obrigatório - até ao 12.º ano - mas também do pessoal docente e não docente. Se funcionar, o Governo poderá propor este modelo para todo o país.
Esta falta, na educação, reside na conflitualidade que numa área fundamental para a estabilidade e coesão social, tanto a curto como a médio prazo (educação, sistema educativo e escolas), não existir um ambiente de serenização e seriedade: muda-se tudo porque sim e porque não!
O municipalismo educativo, provocado desta maneira, terá tanto sucesso como as políticas e práticas que as Câmaras têm desenvolvido até agora: uns sim, outros não, outros qualquer dia, no futuro, quem sabe…?!
A pobreza não é condição de vida! Temos direito, e dever, a ser melhores!
(in Correio do Vouga, 2012.12.19)