Em frente, vamos!.

EM FRENTE, VAMOS! Com presença, serenidade e persistência, há boas razões para esperar que isto é um bem...
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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Por fim… o Pátio dos Gentios




 
O mês de dezembro não é a possibilidade de preparação imediata para uma “data qualquer” – poderia ser este o princípio de um texto politicamente correto. Não pode ser. Não pode ser nem político nem correto! Porque o que está em causa é a celebração do Natal, a Incarnação de Deus para resgatar o homem do pecado (do original e de todos os outros pouco originais; e são muitos)!
Como se sabe a expressão “politicamente correto” emerge na segunda metade do século XX, nos Estados Unidos, durante as disputas culturais. Servia para camuflar extensivamente a referências de classe, raça, género, orientação sexual, nacionalidade, incapacidade e outras designações para subentender a subalternidade. Enquanto, por exemplo, os negros autodescreviam-se como “afro-americanos” — valorizando a lógica da identidade pela cultura de origem, e não pela cor da pele —, os simpósios “Correção Política e Estudos Culturais” propunham examinar qual o efeito que tem sobre a pesquisa académica a pressão para se conformar a ideias atualmente na moda. Tomava corpo a bem sucedida estratégia de certos setores nas guerras culturais: a “pressão” para que se adotassem expressões “politicamente corretas” para silenciar o outro enquanto se faz de vítima oprimida.
Não querer usar o politicamente correto é exatamente para podermos olhar os sinais emergentes como contrários a tudo o que o Natal trouxe ao mundo, partindo da mensagem de amor universal para os homens e mulheres de boa vontade.
Mas a boa vontade tem limites!
Com o Natal e o fim do ano, no Calendário Gregoriano, é certo que há aumentos no preço das coisas que os cidadãos mais necessitam, quer expressamente (para procura do salário justo e vida digna, transportes por exemplo) e ocultamente (dependências energéticas, comunicações,… as armadilhas do sistema)!
E como se não bastasse… mais um Banco!
Como se pode ser politicamente correto com isto?!
Os aumentos (em nome de quê? Porque razão para além da “abutrização” - de abutres! - dos “Mercados”?) e a falta de verdade (no caso do tratamento dado às coisas do Estado, Banif por exemplo) promovem a desintegração social, sustentam dependências, escravizam as pessoas!
O espírito de Natal (tolerância e tréguas) dará, por fim, lugar à expulsão dos vendilhões no Pátio dos Gentios!
Naquele tempo havia homens ricos e pobres, virtuosos e criminosos, livres e escravos. O Templo, em Jerusalém, constituía-se num lugar de peregrinação, era um lugar visitado por pessoas e comunidades de todas as nações. Tinha quatro pátios. O primeiro era o “pátio dos gentios” (“hieron”, ocupado pelos mercadores que realizavam trocas de dinheiro e vendiam os animais. Transformaram aquele espaço em "casa de comércio", em "casa de privilégios”, em que os movimentos comerciais relacionados e bastante lucrativos  eram monopolizados apenas por algumas famílias! O resto da história é sobejamente conhecida,… o Nazareno, o mesmo da ternura do Natal, deu cabo daquilo tudo!
Por fim,… basta!

(in Correio do Vouga, 2015.12.22)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ouvir com outros olhos

 

Há dias um grupo de amigos, no propósito de registar uma etapa que vencemos juntos, assinalou o momento com o bom gosto da coletânea de dezasseis ensaios de João Lobo Antunes com este título bem sugestivo: ouvir com outros olhos!

E a ouvir, então, com esses outros olhos fazemo-lo em agradecimento aos amigos que também colaboraram, e diretamente, com este apontamento (Ponta de Lança) nas ideias, leitura da realidade presente nos últimos quatro anos, visão profunda de construir a sociedade em ordem ao bem comum!

O autor é sobejamente conhecido. Desde que foi jubilado do Hospital de Santa Maria, há cerca de um ano e, segundo palavras suas, “quando cheguei aos 70 anos, perguntei a mim próprio o que iria fazer, agora que não tinha de ir todas as manhãs para o Hospital de Santa Maria” - disse-o ao Jornal de Letras - , “decidi que ia entreter-me com a minha inteligência. Dito assim, isto pode parecer um pouco pretensioso, mas pensei que iria ser como um mineiro a escavar recordações.”

Entre as “escavações” feitas estão os percursos, às vezes difíceis de entender, no ziguezaguear da vida política e da cidadania, como aconteceu quando apoiou, em 2005, a primeira candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República, cinco anos depois de ser mandatário de Jorge Sampaio (e por lá ficou repetindo-o cinco anos depois).

Por fim, ouvimos J. Lobo Antunes no ensaio “Um neurocirurgião na Casa da Música”, para podermos olhar bem longe e descodificar os mistérios da mente humana, numa altura em que o país está no ocaso de mais um mandato da Presidência da República que termina em debate aberto sobre as competências e limites das mesmas no exercício da soberania própria: “consequência desejável de qualquer processo de aprendizagem é, evidentemente, a maturação como executante, qualquer que seja o ofício. O grande Bruno Walter, discípulo de Mahler, dizia que havia três fases na vida de um maestro: na primeira tudo parecia simples e natural; depois seguia-se um período de insegurança e incerteza, e finalmente o da maturidade plena. (…) Na primeira fase, a da aprendizagem das coisas miúdas do ofício, o medo era a força educativa dominante; (…) cresceu a seguir a segurança, que foi tornada robusta pela familiaridade progressiva com os instrumentos que uso e por uma intimidade cúmplice com os tecidos em que laboro: matizes de cor, de textura, de resiliência, a distinção fina entre o normal e anormal. (…) Em relação aos instrumentos, a maturidade plena atinge-se quando eles perdem a sua individualidade e se tornam um mero prolongamento natural de nós próprios. (…) Note-se que, ao observar um músico ou um cirurgião que atingiram este patamar, dá por vezes a sensação ao espectador de uma enorme (mas enganadora) facilidade – “eu também sou capaz de o fazer”! Então, a aprendizagem está finalmente concluída.”

Nem mais! Porém, ficam dúvidas em relação a outros ofícios e oficiantes. Será sinal que a aprendizagem ainda não está concluída? É que nem o Conselho de Estado é ouvido… com outros olhos!?

(in Correio do Vouga, 2015.11.16)


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Isolados por todos os lados

  M Oliveira de Sousa

Há bem perto de nós, no nosso concelho, ausência de meios para sair à procura de recursos elementares para o desenvolvimento! Coisas simples, sem custos para o erário público, são estagnadas por incúria, falta de visão ou, desejamos que não, deliberadamente. Estão nesta lista (de coisas simples), sendo bastante plebaico, a realidade plasmada num horário de serviços – sim, o papel ou suporte digital onde está publicitado um determinado, qualquer que seja, horário!

A funcionalidade (um serviço intermodal, por exemplo; um blogue!) e a conceção intuitiva de leitura são determinantes para se perceber o que existe e onde as pessoas podem obter o serviço (mínimo) que procuram: transportes, serviços de saúde, serviços judiciais,… Por enquanto, nota-se confuso, difuso, disperso, ausente!

Estamos quase como alguns países, que face aos índices de desenvolvimento segundo modelos estereotipados, considerados pobres: vá para lá (paragem do autocarro, posto médico,…) e espere! O atendimento? Logo se vê!

Ora, isto é o cúmulo do atraso. Pára tudo, por nada!

Há pouco tempo numa conferência sobre redes (falava-se de caminhos de ferro, mas os assuntos foram alargados para outras convencionais e digitais, mas sobretudo convencionais) discutia-se enfatizando consensualmente a existência e desempenho destas como principais infraestruturas para o desenvolvimento das pessoas, dos povos, das comunidades. É claro que o uso do termo redes, tão globalizado, quer significar as interligações que se encadeiam em imensas teias sucedâneas e dependentes.

Não se esgotou o assunto em exemplos porque os participantes partiam da mesma premissa: estar no mundo é estar ligado; o isolamento é a ausência de ligações. Há até expressões que são tautologias como, por exemplo, vias de comunicação (fluvial, rodoviárias, ferroviárias, aéreas,…)!

Protagonizam, desde logo os autores clássicos da Sociologia (Karl Marx, Max Weber, Émile Durkheim): o homem é um ser social. Somos sociais não apenas porque dependemos de outros para viver, mas porque os outros influenciam a maneira como convivemos connosco próprios, com aquilo que fazemos.

Se estivermos de acordo nisto, já demos passos enormes para sair do isolamento e dar consistência ao desenvolvimento da humanidade – aqui tão próxima!

Às vezes, havendo competência, basta que um pare um pouco (para pensar e (re)definir a visão das coisas) para que tudo funcione!


(in Correio do Vouga, 2015.11.11)


terça-feira, 13 de outubro de 2015

Isto e o seu contrário

Ou a ousadia da multiplicidade

 

Não faltam, nem nunca faltaram, opostos, isto e o seu contrário! Entre outros títulos e momentos, recordamos “Cláudio e Constantino” com mais de um ano ao “Sol” – como descreveu Filipa Melo no periódico homónimo sobre o argumento do título de Luísa Costa Gomes: se existe o que existe, então terá de existir também o que não existe, caso contrário o que existe não existiria. Uma “novela rústica em paradoxos”, ou antes um romance delicioso a partir de confrontos filosóficos entre verdade e especulação, alguns velhinhos de há 25 séculos.

A dupla, do romance, claro, anda junta por aí como se não houvesse mais nada - acrescentamos!

No começo da história (ou logo depois do começo do começo), Constantino e o irmão mais novo, Cláudio, estiveram tão entretidos a dar banho aos pintos no celeiro do Mirandolino que se esqueceram da hora de regresso a casa – mito interessante! Agora, estão sozinhos no escuro, à procura do melhor caminho. O que fazer? “Encontrar um ponto de referência 'por exemplo'. Em vez de 'por acaso'“. Constantino, bem mais especulativo e teatral do que o irmão, pode não chegar a resolver as questões, mas nunca larga o leme das reticências e possibilidades. Sobressai a eficácia das situações e dos diálogos criados para ilustrar inúmeros paradoxos, dilemas ou falácias famosos, sempre com recurso ao registo paródico e humorístico e à intertextualidade. Na casa grande e abastada da família, cheia de afeto e de vida e de temperamentos e nomes curiosos, Cláudio e Constantino vivem ou sonham maravilhosas aventuras de dúvida e descoberta. Neste romance, cabe mesmo tudo, para todas as idades.

A sugestão de leitura referida é apenas um subsídio para a compreensão desta ”maçada” de haver outras possibilidades de vida, de ação, de saída para as coisas que nos atormentam, como, por exemplo, o governo de um país! É saudável a plêiade de paradoxos que sustentam os passos andados e o contrário nas costas de quem anda:

Estar vivo é fingir-se morto;

Agir é prepotência;

Falar é arrogância;

Tomar a iniciativa é soberba;

Reclamar é falta de educação;

Dialogar é não falar sozinho;

Esquerda é não direita;

Resolução é autoritarismo;

Democracia é não tirania;

Inação é falta de cidadania;…

Existir com os outros é não estar sozinho!

Atribui-se a Mário Bergoglio, de Buenos Aires, "uma pessoa aparecia a correr a pedir socorro. Quem o perseguia? Um assassino? Um ladrão? Não..., um medíocre com poder. É verdade: pobres dos que estão sob o domínio do medíocre. Quando um medíocre acredita e lhe dão um pouco de poder, pobres dos que estão sob a sua alçada. O meu pai dizia-me sempre: "Cumprimenta as pessoas quando fores subindo, porque irás encontrá-las quando vieres a descer. Não duvides".

(in Correio do Vouga, 2015.10.14)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Medo

 

Multiplicam-se os sintomas pelo mundo. E mais próximo de nós a situação não está melhor.

Voltamos às pessoas que chegam à Europa sem nada e querendo apenas viver!

Perante esta mole humana os sinais emitidos pelos governos do “Velho Continente” continuam desconcertantes. Chegamos ao ponto de não saber intitular o fenómeno para não perder a face no monólogo discursivo institucional – íamos a dizer “diálogo”, mas parecia um eufemismo! - Serão “refugiados” (de guerra)? Sem terra? Sem teto?... sem nada? Serão “imigrantes”? Nem há um risco de designar qualitativamente o que são estes grupos (de PESSOAS! – arriscamos nós).

O medo é uma teia muito urdida.

Procurámos pensamentos (na forma panfletária “em linha”, na internet) sobre o assunto:

“O medo é a qualidade de quem não tira as teias de aranha do teto, temendo que o teto caia” (John Garland Pollard); "O maior erro que se pode cometer na vida é o medo constante de cometer erros" (Elbert Hubbard); “O medo é o pior dos conselheiros” (Alexandre Herculano); “O medo nasce da ignorância” (Victor Hugo); “Eu aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista acima do próprio medo” (Nelson Mandela); “As nossas dúvidas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos ganhar não tendo medo de tentar“ (W. Shakespeare); “O medo é a pior das doenças: paralisa o corpo e a mente” (desconhecido); “Quando se perde o medo é quando mais se ganha” (M. Gandhi); “O pior medo é o medo de nós próprios (José Luís Peixoto); “A essência da felicidade é não ter medo” (F. Nietzsche); "A coragem que vence o medo tem mais elementos de grandeza que aquela que o não tem. Uma começa interiormente; outra é puramente exterior. A última faz frente ao perigo; a primeira faz frente, antes de tudo, ao próprio temor dentro da própria alma." (Fernando Pessoa);…

Quanta sabedoria contra as teorias do medo?! Porém, ele está aí.

Entrando numa quase-contradição, dá a ideia que isto que estamos a ver passar nos nossos olhos são medos da asneira feita e do que devia ser feito: apoios interesseiros ao lado errado da “barricada” (grupos rebeldes da Síria, do Iraque,…); esgotar o tempo para tirar o máximo proveito dos interesses instalados; não querer ajudar a resolver o problema no seu próprio local – lá onde as pessoas foram desenraizadas, onde há petróleo, onde também corre (algum) leite e mel!

É certo que, como acontece em todas as famílias e grupos mais restritos de amigos que viajam em ambiente normal (conforto, bens, destino,… assegurados), no meio do trigo haverá sempre algum joio!

“Não tenhais medo” (S. João Paulo II).

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Big Brother

 
Em 2008, Stephan Coleman escreveu um artigo ( “How democracies have disengaged from young people” – como as democracias se têm desligado dos jovens) com base num estudo de caráter sociológico.
O autor defende que, ao contrário do que é comummente assumido pelos críticos, não serão os jovens a não se interessarem e a envolverem na política mas a própria política que se apresenta como uma realidade à parte do seu mundo, da sua experiência, com linguagem diferente e em exclusividade demográfica, grupos privilegiados, herméticos, predefinidos.
As prerrogativas para o estudo realizado advieram dos resultados apresentados pela Comissão Eleitoral inglesa, sobre o funcionamento do país, que indicava a disponibilidade da participação dos jovens em questões relacionadas com a vida do país, ficando, no entanto, esta vontade, na maior parte das vezes, pelo campo das intenções, uma vez que o sentimento comum é o de que existe um divórcio entre os políticos e o público jovem em geral, o que comprova os resultados do referido estudo quando refere que 90% dos jovens afirmam não terem envolvimento na política.
Ao focar-se na interação que os jovens mantêm com o programa Big Brother, Stephan Coleman, entre outros autores da mesma área cientifica, apuraram que os votantes nas eleições gerais de 2005, assim como os espetadores do referido programa, eram predominantemente jovens e do sexo feminino. Este sucesso interativo produzido nos jovens, pelo Big Brother, levanta perguntas sobre a possibilidade da política alargar o seu âmbito incorporando assuntos associados à cultura “popular” – diríamos, na moda. Este entusiasmo participativo dos jovens na interação com o programa, algo que a maioria dos políticos gostaria de provocar nos eleitores, não deveria ser mal visto, mas antes rentabilizado para uma possível convergência de estilos populares e políticas de comunicação que revigorassem a forma da participação dos jovens na política e vice-versa – é criticável, logo se vê!
As diferenças nas abordagens dos políticos, que procuram mandatos populares, e dos participantes no programa, em captar audiência e votos, são importantes, não por demonstrarem a sua natureza distinta e incomparável, mas pela forma como é estimulada a participação e o alcance obtido.
Este estudo incidiu numa amostra de 200 pessoas com mais de 18 anos, que reuniam características como serem telespetadores do Big Brother e cidadãos ativos. A realidade social tornou-se cada vez mais uma questão de experiência mediada, podendo-se argumentar que os públicos e as audiências são as mesmas pessoas que passam pelo mesmo processo de tentar dar sentido a um mundo que só pode ser apreendido de forma indireta.
A vida privada passa a ter uma influência na determinação do bem público, e é aí, na esfera pública, que os públicos convergem para se tornarem cidadãos ativos, indiferentes e livres para desligar, mudar de canal, interagir com outros conteúdos que mais lhes interessem ou que funcionem, que provoquem efeito sobre si mesmos.
Nos quinze anos da primeira edição do programa em Portugal, depois do “show” na Rua Abade Faria, em plena pre-campanha para as eleições legislativas, diríamos… finalmente, estamos no bom caminho. Ou como o rapaz da pizza pode mudar o mundo!
(Correio do Vouga, 2015.09.09)








terça-feira, 1 de setembro de 2015

“The fireman”, Bombeiros e bombos

 

É de elementar justiça sublinhar, enaltecer repetidamente a importância dos primeiros – na realidade, em termos práticos exercem a mesma função, quanto à definição, e são mais do que a definição possa sugerir (assistência no acidente, socorro em quase toda a linha de atuação, quer humana quer outra: no animal que é preciso recuperar do perigo, a limpeza da sargeta que provoca a inundação, a árvore que cai derrubada pela intempérie,…). São, como é usual denominar-se, elementos da proteção civil – seja lá o que isso for! São é a proteção a tudo (civil ou não!).

Em inglês, bombeiro é chamado o "homem do fogo", “fireman”, o profissional que elimina o fogo; na língua portuguesa, a palavra "bombeiro" deriva de "bomba", máquina que eleva, pressiona, faz fluir normalmente a água numa determinada direção. Contudo, para não permitir a confusão, também temos em português “bombo”, do grego “bómbos”, o que faz "barulho", “ruído grave, forte”, em particular o "ribombar do trovão".

Mas este interesse sobre a curiosidade dos termos (“fireman”, bombeiro, bombo) apenas ajuda a perceber o que vai acontecendo e que importa fazer notar, destacar, com uma certa dose de conotação bombástica, para suscitar a leitura e interpretações mais atentas a todos e a cada um (participante desta “tribo” de humanos).

A Europa: “The fireman”.

Está a “mexer”, e sucessivamente, com o fogo em vários assuntos. O desmembramento parece iminente!. Claro que a crise dos migrantes, com os últimos acontecimentos tão vertiginosos, faz esquecer o que se passa por aí… em Calais (França), no autoproclamado Estado Islâmico, na Indonésia (Malaca e Aceh), Birmânia, no centro de África,…

O próximo Governo: o “bombeiro” (para tantos “incêndios”, que teimam em lavrar há mais de cento e cinquenta anos)!

Os governos têm o seu “quid” com esta conotação (de bombeiro). Aliás, dizia há dias um responsável político, há determinados governantes que por não acreditarem ideologicamente ser possível gerir bem o que é “público”, quando eleitos para isso, fazem-no sempre mal! Deixamos duas indicações recentes: o Estatuto dos militares da GNR, adiado; o pagamento de 54 mil milhões de euros a quem comprou obrigações do Tesouro e à “troika”,… e muito mais que sucede cada dia!

Os funcionários(?) da Câmara de Aveiro: o “bombo” (quem suporta as culpas).

Há coisas (as desagradáveis são sempre) que têm de ser apuradas junto de terceiros! Diz o Diário de Aveiro (jornal do dia 31 de agosto) que sacos com raticida, animais mortos, tal como aves, além de ratos, um cão e gatos têm sido encontrados pela cidade, alarmando principalmente os donos de cães que passeiam os seus animais pelo centro de Aveiro e receiam que possam ser envenenados. O envenenamento de outros animais para além de ratos é um receio que tem crescido nas últimas semanas devido à descoberta da colocação de sacos com raticida em locais de circulação de animais de companhia e pessoas.

O Diário de Aveiro não conseguiu saber quem anda a colocar esses sacos pela cidade, o que está a acontecer, pelo menos desde Junho último. O presidente da Câmara de Aveiro, Ribau Esteves, desconhece qualquer procedimento deste tipo pelos serviços da autarquia, ressalvando que a eliminação de roedores é feita nos edifícios municipais e não em zonas do exterior. De qualquer forma, o autarca disse ao Diário de Aveiro que, hoje, iria “averiguar” – coitado do bombo! - o que está a acontecer. Junto à antiga Capitania, já foi visto a colocação de sacos por indivíduos com colete e farda de cor verde. Contudo, nenhuma empresa conhecida tem, na lista de actuação, a colocação de sacos de raticida pela cidade.”

O “bombo” que vier atrás… vai apagar o fogo!

(in Correio do Vouga, 2015.09.02)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O regresso

 
E tantos regressos de que podemos falar…!
Desde logo o recomeço depois de férias. Se abordámos a despedida (Até já) também queremos assinalar este reinício que, como desejamos em todos os regressos, seja marcado pela vontade de assumir com determinação tudo o que foi interrompido, para concretizar o sonhado.
Este regresso também bebe inspiração em Fernando Pessoa: “Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro,/ Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim. /Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei./Eu reinei no que nunca fui.”
Cá estamos a regressar!
E tal como a partida é de esperança no regresso, o regresso é de redobrada esperança no futuro, porém…
O mundo, o mais próximo, próximo mesmo, e o de mais longe parece também voltar ao início, a um regresso pesado e pesaroso, porque dá ideia da memória curta que o ser humano estabelece por predefinição: Aveiro sem alma em tempo de verão – até algumas parangonas (só isso) sonantes para este tempo não passaram de “bluff” (passe o inglesismo); Portugal à beira das eleições e há correntes no espaço público que tendem a defender o caos suscitando para a política como que um bando de malfeitores, como um mapa tenebroso pejorativo da democracia (da Grécia, a clássica, claro!): sofistas (que ensinavam a arte de bem falar), a retórica (a arte de convencer os outros pelo discurso) e a demagogia (quem conduz o povo menos afortunado); cinismo (viver na virtude de acordo com a natureza) e hipocrisia (representação)! E, claro, temperado, neste tempo, com “só corruptos”! A política é a casa comum administrada pelo poder representativo, em nome das pessoas, que têm a melhor oportunidade de exercerem o poder nos momentos de decisão eleitoral! Confundir é interesse de quem quer deturpar por artimanhas.
E há outros regressos…
Rotinas, desde logo!
E, preocupante, insistentemente preocupante, o movimento de desalojados na Europa – o maior desde a Segunda Grande Guerra!? Pessoas sem nada que nada têm a perder!?
Tem razão o Papa Francisco (a Terceira Guerra Mundial já começou)?!
As fortalezas, aquelas que parecem inexpugnáveis, também caem! Não dá para ver?
Provavelmente, a maior força da destruição da Europa é aquela que não se vê.
Que o reinício não seja regresso ao passado!
(Correio do Vouga, 2015.08.26)













terça-feira, 4 de março de 2014

Crimeia

 
O traço comum (mais comum!) deste apontamento, desta nota semanal, tem sido baseado na atenção às situações de conflito ou geradoras de conflito. É verdade que há outros aspetos que consideramos mas, com maior frequência, olhamos para o mundo, para as  situações, os cenários, as ideias, as ações e protagonistas que podem ajudar, ou têm obrigação de ajudar, decidir sobre esta "casa comum", esta Terra que é a nossa casa, para que seja um pouco melhor para todos.
É preciso equidade, paz social, igualdade de oportunidades, solidariedade, e, superlativando, acima de tudo, vontade e determinação para atingir esta utopia: vivermos bem onde quer que estejamos com a diversidade que faz de todos a humanidade! Não deixa de ser verdade que esta reflexão é mais intencional do que real mas, recorrendo a metáfora, não podemos ficar calados, temos de agir; não podendo ir para a "frente", reforce-se a retaguarda. A melhor defesa é o ataque!? Então, até para defender o que há de melhor na humanidade é preciso atacar "se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito." - citando Luther King.
Os últimos temos na Ucrânia são conturbados! As tensões atingiram todos, quem esteve na Praça da Independência e quem esta pelo mundo a acompanhar, como filme, cenas de há cem anos - a evocação simbólica do ano em que começou a I grande Guerra.
A fronteira, aquele confim de mundos - significado de Ukraina  - pode abrir novamente imensas caixas de pandora com muitas Matryoshkas: o enclave geopolítico, entre ocidente e leste; a multiculturalidade inicial dos povos, na cultura, na religião, nas precedências seculares; a tensão do mundo entre pobres e ricos, entre oportunidades e oligarquias; o lado pior do ser humano!
A Crimeia é nome de muitas preocupações ao longo da história, de guerra também. Agora estamos - estamos todos- novamente lá, na Crimeia! Fez-se da Crimeia nome de guerra, ainda vamos a tempo de lhe dar um nome de paz?!
Será que o mundo não se farta deste carnaval?!
(in Correio do Vouga, 2014.03.05)





quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Infraestruturas de elevado valor acrescentado (IEVA) em Aveiro

 
Por despacho do gabinete do Secretário de Estado respetivo (das Infraestruturas, Transportes e Comunicações) foi constituído o Grupo de Trabalho para elaborar um relatório que consubstanciasse um conjunto de recomendações sobre IEVA quanto à priorização de investimentos para a Consolação e desenvolvimento das infraestruturas de transportes; eliminação de constrangimentos na rede de infraestruturas de transportes, apresentação de propostas de natureza não- infraestrutural que eliminem bloqueios e constrangimentos existentes nos setores dos transportes. O objetivo da missão deste grupo, tendo em consideração um horizonte de sete anos, visa definir um conjunto prioritário de projetos e recomendações que contribuam para potenciar a competitividade da economia nacional e do tecido empresarial, sem negligenciar a coesão territorial considerando as limitações orçamentais, a intermodalidade dos investimentos e o timing de execução.
O grupo, sob a presunção de ser a primeira vez que aconteceu algo do género – uma reflexão conjunta entre os vários atores que interagem nas áreas cooptadas – durante três meses desencadeou as metodologias necessários, nomeadamente 36 reuniões, como se pode ler no Relatório produzido e publicado.
O estudo aponta quatro domínios fundamentais: ferroviário (trinta projetos), rodoviário (vinte e três), marítimo-portuário (trinta e três) e aeroportuário (três).
A região de Aveiro é contemplada com algumas infraestruturas. Não é surpresa, dados os domínios. Inserida no “corredor-chave” das redes produtiva, económica e mobilidade do país (Setúbal-Porto), Aveiro estaria sempre em três domínios.
O Porto de Aveiro, as linhas do Norte e do Vouga, a ligação ferroviária para Vilar Formoso são prioridades!
Vamos acreditar que estes pressupostos, que já eram óbvios, serão materializados em projetos concretos.
E, a propósito destes, haja uma reabilitação urbana, cultural e empresarial de Aveiro; a circular externa de Aveiro, mobilidade sustentável, transportes urbanos e plataformas intermodais sejam reerguidos; apareça a ligação rodoviária a Águeda; os pórticos sejam eliminados (pelo menos desativados!); a Estrada Nacional 235 e a ligação sul de Aveiro às Autoestradas obtenham uma solução; terminem os bloqueios à EN 109, de Espinho a Calvão, sobretudo para a circulação de pessoas e veículos não poluentes; os acessos à Estação de Tratamento Mecânico-biológico vejam a luz do dia;… tantas oportunidades que não vão ser perdidas, adiadas, ignoradas ou pura e simplesmente embrulhadas nas teias da demagogia e populismo saloio!
As pessoas e desenvolvimento humano podem ser esquecidos nesta “frame” de infraestruturas?!
(in Correio do Vouga, 2014.02.19)








quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Liberdade, razão, belicosidade

 
A liberdade conquista-se pela força – recorrendo novamente a Maquiavel -, pela força dos argumentos ou pela força das armas!
Estamos a viver um tempo em que os argumentos são violentos, belicosos, armas letais, arremessados, rebatidos, assassinados “sem dó nem piedade” – salvaguarda-se já que “dó” e “piedade” são usados como metáfora. Dada a violência puritana no léxico moderno, qualquer palavra pode ser usada contra quem a profere passando o emissor a ser um crápula retrógrado, um ser bafiento, desprezível, opositor do avança civilizacional – seja lá isso o que for!
Adiciona-se, a este descarado turbilhão de verborreia, os meios disponíveis e a penumbra de um apelido (nickname!), qual máscara de um elmo protetor, que as ferramentas de comunicação proporcionam na sua riqueza de diversidade!
A educação da razão é cada vez mais esparta – à semelhança de Esparta. Esparta, Cidade-Estado, tinha como principal característica um Estado oligárquico e militarista, em que os principais objetivos projetavam fazer dos seus cidadãos modelos de soldados, fortes, corajosos, bem treinados e obediente as autoridades.
A educação espartana estava voltada para o caráter militarista, sendo a criança, desde pequena, preparada para ser soldado.
Começava por ser observada por um grupo de anciãos quanto à robustez física, para não possuir problemas de saúde e ter boa estampa física. Até aos sete anos de idade ainda ficava à guarda da mãe mas, após esse tempo, o responsável pela criança era o próprio estado.
Depois, aos sete anos, “entrava” para o exército, onde permaneceria até aos dezanove anos, onde recebia, nesta fase, alguns ensinamentos para que conhecesse a dinâmica do estado Espartano e principalmente as tradições de seu povo. Aos dezanove anos passava para o treino militar contínuo.
Aprendiam a combater com eficácia, eram testados fisicamente, resistência física e psicológica, sobrevivência em condições extremas e diversas, e principalmente aprendiam a obedecer aos seus superiores.
Perante a força dos argumentos que diariamente são apresentados, estamos em crer que está em marcha a mudança do sentido da força, da razão para a belicosidade da razão. Tudo, claro, em nome da liberdade! Liberdade de quem?!
Este valor absoluto não pode ser individualizado, privatizado, monopolizado, ou pode?









terça-feira, 10 de dezembro de 2013

46664


“4664” foi o número de prisioneiro de Nelson Mandela, desde o início da detenção, em 1964, até à libertação em 1990. Na Ilha Robben, Mandela foi o preso número 466, do ano de 1964, onde ficou durante 18 dos 27 anos que esteve detido. Entretanto "46664" surge como um ícone permanente dos sacrifícios que Mandela estava disposto a fazer pela justiça social e humanitária.
Nos dias que passam, enquanto o mundo presta homenagem a África do Sul celebra – por muito que possamos ficar surpreendidos na diferença, manifestar estranheza, porventura, trata-se de uma celebração contínua, típica dos países de África, da generalidade das tribos africanas – a África do Sul e toda a África celebra as diversas atitudes que o homem tem adotado frente à morte ao longo da história têm contribuído para formar um imaginário coletivo expresso através da elaboração de símbolos, atribuição de representatividade de alguns materiais ritualísticos e a incorporação de rituais macabros, no intuito de conduzir aquele que jaz de forma pacífica e livre de punições para além da morte. Assim, morrer não significa pura e simplesmente deixar o mundo dos vivos, e não se resume ao momento da passagem desta para outra esfera transcendental. Mais do que isso, é uma construção social que assume um papel de evento importante na própria existência do indivíduo, ainda que por vezes esse aspeto possa parecer contraditório, isto é, como o aprofundou com sentido antropologista Philippe Ariès, deve-se pensar na morte para bem viver.
A construção social continuará a exigir muito mais dos vivos.
Enquanto o mundo evoca Mandela, como refere Pulido Valente esta semana no Público (2013.12.08), convém lembrar que em 2013 a África do Sul continua dividida entre brancos ricos e pretos pobres, que sofre de uma criminalidade nos limites do intolerável e de uma epidemia de sida, que nenhum governo foi capaz de travar ou de atenuar. Com ou sem Mandela, não é um sítio recomendável.
Próximo de nós, há manifestações na rua contra a austeridade, o “Relatório Edite Estrela” coloca, na essência, a debate a dialética entre direito positivo e direito natural; a Ucrânia promove a “marcha de um milhão”; a Cáritas Portuguesa lançou, em Portugal, a campanha da confederação internacional "Uma só família, alimento para todos", que apela à erradicação da fome no mundo até 2025; o Papa Francisco afirma preocupado "Estamos perante o escândalo mundial de mil milhões, mil milhões de pessoas que ainda hoje têm fome. Não podemos virar as costas e fazer de conta que isto não existe. Os alimentos que o mundo tem à disposição podem saciar todos"!
Também é na vida que preparamos a morte, quando se completam 65 anos sobre a adoção – melhor seria a assinatura da assunção! – da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que delineia os direitos humanos básicos, proclamada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948!
Continuamos prisioneiros, seja ele qual for o nosso número!




quarta-feira, 17 de abril de 2013

Geografia do mundo.

 
Não, não se diga mais nada!
É muito provável que o êxtase com que a maioria das pessoas contempla uma bonita paisagem, como cada um se deixa transportar para uma estância exótica, sempre que é solicitado o destino de férias ideal, e em tantas outras circunstâncias idênticas que se torna fastidioso enumerar, pode indiciar – estamos convictos da certeza – que há no ser humano um desejo de harmonia e de contemplação que impele à superação da rotina, à abstração, à extensão do olhar para além do pontual, medíocre, banal.
Os acontecimentos recentes convidam a rasgar o horizonte. Às tensões que têm vindo a emergir e que, nos últimos apontamentos aqui fazemos referência, junta-se o atentado de Boston.
Se colocados numa montanha imaginária e olharmos a geografia do mundo; se, utilizando as novas tecnologias, rodarmos sobre nós próprios na plataforma 3D do Google Earth; se lermos os jornais; se fizermos uma retrospetiva histórica;… constataremos que há qualquer coisa de estranho à nossa volta: tão belo na harmonia global, tão estragado sob os nossos pés! A geografia do mundo pode ganhar em harmonia mas perde para a assimetria. Já cansam as palavras para tantos dislates!
Relendo o Cancioneiro de Fernando Pessoa…
Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.
















terça-feira, 26 de março de 2013

Ar fresco


Um pouco por todo o lado, de uma forma mais acentuada e conhecida nos últimos tempos, devido ao desenvolvimento das redes de comunicação e universalidade de acesso às mesmas, o espaço público, em termos de opinião e decisão, assumiu praticamente o que pejorativamente se intitula “lavadouro de roupa suja”.
Há tensões por todo o lado. Uma frase, uma árvore que se plante, uma ideia que se tenha, tudo, rigorosamente tudo, é extrapolado, distorcido, empolado,… colocado no “altar dos sacrifícios”, se possível, “queimado vivo” – o mesmo será dizer, destruir.
Há um clima de crispação sobre a terra! – relembramos o assunto da semana passada, ergam-se novas lideranças.
A título exemplificativo – como se tal fosse necessário?! - O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schauble, disse, durante uma entrevista televisiva, citada pela agência AFP, que as críticas feitas à Alemanha se devem "à inveja" dos outros países.
“Sempre foi assim. É como numa turma [na escola], quando temos os melhores resultados, os que têm um pouco mais de dificuldades são um pouco invejosos”, afirmou o ministro, na cadeia de televisão pública ZDF, em resposta a uma questão sobre as críticas que se multiplicam contra a Alemanha, em particular na Europa do Sul.
Será que um estadista pode ter comentários de colegial, de aluno de escola, de “delegado de turma”?!
É este o ar que se respira pela Europa, um pouco pelo mundo: confronto! Sempre em confrontação.
Nesta semana e quadra, é necessário recuperar uma nova Páscoa, inspirada e respirada!
Os odores da urze, do alecrim, da alfazema,… também podem ser recuperados. Compete a quem pode, acredita, vive, proporcionar uma renovação deste clima pestilento. Onde não houver lugar para o Cristo que se encontre Jesus. Este calvário tem de chegar à ressurreição! Se não for pela fé que seja pelas obras de um humanismo cada vez mais solidário!





terça-feira, 5 de março de 2013

Os números e o descontentamento

O país saiu à rua!
Mas terá sido todo o país? Terão estado dez milhões de pessoas a marchar contra a troika? “Que se lixe isso” – parafraseando um eventual cartaz.
O essencial está nas ideias para o governo, segundo alguns, ou desgoverno, segundo a maioria, do país. É óbvio que a grande maioria das pessoas quer apenas ter condições para honrar os seus compromissos!
Salvo raras exceções, todos os anos, em janeiro, esperavam-se (sempre) novos aumentos: nos salários, nos combustíveis, nos transportes,… em tudo mas sobretudo nos salários, no poder de compra. Subiu-se tanto, sobretudo em qualidade de vida e na dívida da mesma, nos últimos trinta anos, que obrigar as pessoas a perderem tudo o que acreditaram, lutaram e, justamente, atingiram não pode ser feito num ano ou dois e, de maneira particular, à custa de juros sobre dívidas que, apesar de indiretamente partilhadas, teria sido mais prudente ter acautelado evitando loucuras: submarinos, autoestradas, “intoxicação subsidiária” do tecido produtivo…
Como está até parece claro que só duas dicotomias na orientação dos atuais governantes europeus: trabalhadores mais pobres – maiores margens de lucro; austeridade (para as massas) – oligocracia (no poder).
Mas isto das dívidas dos países não é contabilidade de merceeiro ou agiota, são acordos de solidariedade soberana e interdependências.
Todos sabemos, com os devidos ajustes aos contextos atuais, mas Sérgio Aníbal recorda-o, num artigo no “Público”, há 60 anos, 70 países decidiram perdoar quase dois terços da dívida externa alemã. O país duplicou o seu PIB na década seguinte.
Com a troika em Portugal e com o Governo, os partidos da oposição e os parceiros sociais a pedirem uma melhoria das condições dos empréstimos que foram concedidos ao país, uma efeméride registada na passada semana dificilmente poderia passar em claro. Na quarta-feira, concluíram-se 60 anos desde que foi assinado o acordo de perdão de dívida entre a República Federal da Alemanha e os seus credores, onde se destacavam os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, mas onde também surgia a Grécia.
A 27 de Fevereiro de 1953, a economia alemã, que tinha atingido o fundo após a II Guerra Mundial, deu um passo decisivo para uma recuperação classificada por muitos como milagrosa. Desembaraçou-se de quase dois terços da sua dívida externa e iniciou uma década em que conseguiu duplicar o seu PIB.
Haja quem explique quando e como, num país como o nosso, com um PIB na ordem dos 160 mil milhões de euros, podemos desembaraçar-nos deste peso da dívida e recuperar a soberania? – basta de engodos e demagogias, razão do nosso descontentamento.
( in “Correio do Vouga”, 2013.03.06)






sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Carnaval e Pagode

 
É voz corrente que não é com atos carnavalescos, no sentido popular da expressão (coisas burlescas que se toleram em nome da diversão, do convívio social), que o país recupera a sua competitividade laboral e força produtiva. É óbvio que com a justiça mais eficiente, a administração (pública e privada) menos burocrática e “garantivista” (é necessário provar tudo porque não há prática de cruzamento de dados dentro dos mesmos serviços, muito menos em rede entre serviços diferentes), incentivos e supervisão eficaz à produção, o país seria mais rico num ano do que em toda a vida a brincar ao carnaval e feriados!
Neste tempo, como se constata, sendo o Carnaval uma festa de grande interesse nas sociedades, relevante na economia local e nacional, em alguns países, em nome do crescimento económico e consolidação orçamental, faz-se de conta que não é feriado mas no dia as instituições fecham, dão tolerância de ponto e, mesmo quem tem de cumprir os mínimos para não sofreram represálias ou assegurar o serviço, acabam por viver em carnaval no posto de trabalho.
É um pagode!
Um pagode em toda a sua latitude etimológica (consulte-se um lugar em rede e procure-se “pagode”: templo ou monumento memorial budista, composto por uma torre com múltiplas beiradas; moeda de ouro utilizada no Sul da Índia no século XVI; estilo musical, variedade do samba; festa, por extensão, roda de samba, reunião de sambistas; pagode de viola, também conhecido como pagode caipira ou pagode sertanejo - estilo musical, variedade da música sertaneja, inventado e difundido por Tião Carreiro – impactos do Brasil).
Em síntese, para o Carnaval, com toda a preparação e expressão, demora tempo a ser organizado e vive-se em três dias, como é facilmente constatado.
É por compreendermos a longa preparação destes três dias, até exige tentativas empíricas sobre o que fica melhor, que se percebe a troca do hino português pelo espanhol, no brasil, quando todos esperavam pelo hino espanhol, no início de uma partida de basquetebol entre o Brasil e Espanha, foi o hino português que se fez ouvir; e o momento insólito quando António Félix da Costa subiu ao pódio, depois de ter conquistado a Taça Intercontinental da FIA em Fórmula 3, quando tudo esperava ouvir «A Portuguesa», e tocou o hino da Suécia; a inversão da bandeira portuguesa no hastear do “5 de outubro”; os pagodes chineses estampados na Lusa Bandeira, entre as que estão alinhadas às portas do Conselho Europeu; as loucuras orçamentais para gastos de algumas “ Castas” superiores do nosso Estado;…. São coisas inerentes aos preparativos de Carnaval!
Sem um certo pagode, isto não seria tão carnavalesco.






segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A luz e o túnel

A passagem de ano suscita (todos os anos) um conjunto de sentimentos mobilizadores de renovação, uma vontade de iniciar um novo ciclo, o entusiasmo pela vida nova que a cronologia dos dias pode trazer. É interessante conferir tantos votos e devotos de ritos iniciáticos – algo que será próprio à natureza humana!? -, sonho de transformação, provocação de um mundo melhor. Cada “passa” que passa, ao som das badaladas, instiga todas as simbologias e sintomas que reúnam o máximo de garantias de “melhores dias virão”. Entre tudo o que se projeta, saúde e dinheiro ganham a primazia.
A cada 31 de dezembro há uma atmosfera nova onde, no incerto (“só Deus sabe quem cá estará?! – enfatiza-se), há garantia de agravamento das condições de vida daí a umas horas, no preciso momento em que a tecnologia precisa a nova aurora do ano que surge. A partir daquela marca digital tanta coisa é penosamente nova, sobretudo o custo de vida e o custo (mais um ano!) da vida.
Não se estranha, portanto, que 2013 seja o da luz e do túnel – Não acreditamos mesmo nada que seja o da luz ao fundo do túnel. Esse movimento, requererá uma transfiguração completa: novos protagonistas, novas ideias, novas práticas; transparência, a uma velocidade superior à da luz e sem sombras que ofusquem a luminosidade em trilhos obscuros em túneis.
Concordar-se-á que há séculos, mas reportando-nos aos ideais e vivência em República, já estivemos demasiado tempo no túnel, no escuro, sem saber onde está a saída. Ainda mais um ano?! É muito, não há esperança para tanto; já não há videiras para tantas passas!
Esperámos secularmente por essa luz prometida.
À luz, que aumentou no dia 1, com o mercado livre acontecerá o mesmo que aos combustíveis derivados do petróleo: a concorrência permite a liberdade de escolha… entre os produtos sempre mais caros!
De túneis estamos conversados! Há tantos que nem os já começados, como o do Marão, verão, nos próximos tempos, qualquer feixe de luminosidade!
A 2013 pede-se, como sempre, a graça de manter viva a vida e a esperança de que haja capacidade por conseguirmos viver sempre melhor todos juntos.
Por fim, parafraseando Daniel Sampaio, inventem-se novos protagonistas!
(in Correio do Vouga, 2013.01.08)








quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Falta de educação

 
A afirmação é polissémica. A terminar o ano de 2012 vemo-nos confrontados com diversas interpretações sobre o assunto.
Há muita preocupação a emergir com os elementos que adicionam novos dados sobre o universo da educação. Os factos provenientes dos Estados Unidos deixaram o mundo perplexo. O que aconteceu lá, apesar das circunstâncias agravantes, pela lei das armas vigente, deixa antever que pode acontecer em qualquer lugar. O mundo está muito igual. Por mais que se insista nesta matéria, por maior incómodo que o assunto possa provocar, verifica-se uma enorme agitação que (também) se reflete no espaço escolar.
A confusão entre escola e educação acaba por, intencionalmente ou não, refletir como preparamos o nosso futuro comum. A quem pertence a responsabilidade da educação?
A Constituição Portuguesa (artº 67) incumbe o Estado de cooperar com os pais na educação dos filhos. Todos têm direito à educação e à cultura. E o Estado promove a democratização da educação e as demais condições para que a educação, realizada através da escola e de outros meios formativos, contribua para a igualdade de oportunidades, a superação das desigualdades económicas, sociais e culturais, o desenvolvimento da personalidade e do espírito de tolerância, de compreensão mútua, de solidariedade e de responsabilidade, para o progresso social e para a participação democrática na vida coletiva (artº 73 e ss).
A educação começa, portanto, em casa, na família, mas a nossa sociedade não tem casa e tem muitas famílias com pouca ou nenhuma familiaridade!
Agora (notícia de 18 de dezembro) acena-se no horizonte mais uma falta de educação: o Governo está a equacionar a transferência de muitas das suas competências na área da Educação para as autarquias, incluindo no secundário. O modelo será testado no concelho de Cascais em 2013 e implica atribuir à câmara a gestão de todas as escolas do ensino obrigatório - até ao 12.º ano - mas também do pessoal docente e não docente. Se funcionar, o Governo poderá propor este modelo para todo o país.
Esta falta, na educação, reside na conflitualidade que numa área fundamental para a estabilidade e coesão social, tanto a curto como a médio prazo (educação, sistema educativo e escolas), não existir um ambiente de serenização e seriedade: muda-se tudo porque sim e porque não!
O municipalismo educativo, provocado desta maneira, terá tanto sucesso como as políticas e práticas que as Câmaras têm desenvolvido até agora: uns sim, outros não, outros qualquer dia, no futuro, quem sabe…?!
A pobreza não é condição de vida! Temos direito, e dever, a ser melhores!
(in Correio do Vouga, 2012.12.19)









terça-feira, 27 de novembro de 2012

Não há ambiente

 
É comum, como desbloqueador de conversação ou constatação de facto, utilizar-se a expressão (não há ambiente) com alguma criatividade semântica. Poder-se-á dizer que o contexto onde determinada situação pode ocorrer não tem todos os requisitos para que tal se proceda; poderá querer-se ironizar com as circunstâncias, gerando na negação como que uma antítese. Por fim, há coisas que saturam tanto que fazem o ambiente irrespirável - a congeminação na projeção (mecanismo de defesa, da psicologia) é uma delas!
Não há ambiente que resista aos sucessivos desmandos e atrasos na aplicação das resoluções que consiga resistir até 2020, como agora se discute na cimeira do Qatar - segunda-feira, dia 26 de Novembro, em Doha, no Qatar, e prolonga-se até dia 7 de Dezembro (eventualmente estendendo-se até domingo, dia 9), a mais importante reunião anual mundial sobre clima, a 18ª Conferência das Partes (COP18) da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Pode ler-se no sítio on line da Quercus: os acordos alcançados em Durban, em 2011, relançaram a esperança em ultrapassar a desilusão que marcou a Cimeira de Copenhaga em 2009. Há assim a possibilidade de recolocar o mundo num caminho de emissões reduzidas, pronto para tirar partido das oportunidades que surgem pelos novos mercados e inovação tecnológica das tecnologias limpas, pelo investimento, emprego e crescimento económico.
Contudo esta janela de oportunidade estará aberta por pouco tempo. Para tirar partido deste potencial são necessárias ações decisivas na COP18. O nível de ambição a curto prazo tem de ser mais elevado e é imperativo que seja acordado um calendário de negociações de modo a alcançar um regime climático global justo, ambicioso e vinculativo em 2015.
Esta semana, a Agência Europeia do Ambiente alertou para o facto das alterações climáticas estarem a afetar todas as regiões da Europa, causando múltiplos impactes na sociedade e no ambiente, danos que, no futuro, poderão ter custos elevados.
Os maiores investidores mundiais pediram aos governos para intensificarem a sua ação contra as alterações climáticas e para aumentarem o investimento em energia limpa, de modo a evitar um impacto que custará milhões à economia.
Para usar da trágica ironia, não há ambiente que resista às diatribes do “Executivo” da Câmara Municipal de Aveiro! Serviço público, local, e os cidadãos sé podem …'ESPERAR SENTADOS'
Das “redes sociais” entende-se que após solicitação feita à CM Aveiro, no sentido dos moradores do Albói serem esclarecidos quanto ao verdadeiro projeto para o Largo Conselheiro Queirós, no prazo de 48 horas, e ultrapassado esse tempo, os mesmos continuam sem obter qualquer resposta?!
Assim, depois de reunirem, concluíram encetar novas formas de protesto. Ficou então, agendado para o dia 26 de novembro, que, a partir das 14h, todos os moradores e amigos disponíveis fossem "ESPERAR SENTADOS" no Largo Conselheiro Queirós.
Juntaram-se (neste protesto), levaram uma cadeira e... "ESPERARAM SENTADOS".
E esperaram mesmo! Isto é, indignados puseram-se a caminho, agiram!
Estas e tantas outras faltas de ambiente, dão lugar à indignação.
(in Correio do Vouga, 2012.11.28)






terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Convenção de Merkel


O cidadão comum não percebe onde está a verdade. Qual a mensagem libertadora da confiança agrilhoada!

Entre nós esteve uma Chanceler Europeia – sem qualquer veleidade, relembramos que esta designação, por ter uma inspiração clássica, terá tendência, face ao que está em desenvolvimento, a ser aplicada a todo o império.

Façamos um pequeno exercício de pesquisa livre…

Na Roma Imperial dava-se o nome de cancelarius a cada um dos secretários imperiais que se colocavam atrás das cancelas (cancelli) que separavam o público do recinto onde o imperador fazia justiça.

Em diversos estados medievais da Europa, o título de chanceler ou cancelário foi atribuído a altos funcionários da coroa, que desempenhavam funções semelhantes às dos atuais primeiros-ministros. O chanceler tinha, normalmente, à sua guarda o selo do Monarca, sendo responsável por selar, por a chancela, os documentos mais importantes do Estado.

Também em algumas ordens militares, o chanceler era o oficial mais elevado.

Atualmente o título de Chanceler continua a ser usado, com vários sentidos, em diversos países e instituições. Em alguns casos assume o papel de Imperador ou Chefe do Conselho. Quantos perigos nesta confusão de sentidos?!

Nada custa, portanto, aceitar o título imperial que a Alemanha deseja ver concretizado: uma Alemanha Imperial.

Este movimento da “Chancela”, entre outros incómodos, provoca dois motivos de apreensão porque reflete dois percursos encapuzados que veladamente estão a alterar, a subverter o rumo da história e das instituições europeias, transformando-se em autênticos embustes para os cidadãos.

O primeiro é o da credibilidade da ética política na construção da Europa, da União, dos Tratados. Serão verbos de encher!?

Onde está o Alto Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança (Catherine Ashton)? E a Presidência do Conselho Europeu (Herman Van Rompuy )? E o Presidente da Comissão (José Manuel Durão Barroso)?! O vazio e difusão das competências deve-se a falta de consensos na concretização dos Tratados ou é intencional para dar espaço a este desvario?

A segunda questão é, para variar, sobre o esvaziamento de conteúdo substancial do quadro ideológico da Europa. Um Continente desnorteado, sem norte, cada vez mais nacionalista, longe das pessoas e dos seus problemas. A única medida de força está no dinheiro, no Euro, na desgraça do mesmo; nas Finanças;…

Num mundo cheio de informação, será à volta destas questões que se pode compreender porque é que não se consegue vislumbrar uma ideia, uma estratégia similar, para o futuro comum, entre a Convenção do Bloco de Esquerda, por exemplo, e a “Convenção” Merkel em Portugal. Estes dois “reencontros” são indicativos do que se passa hoje numa Sala de Aula: o professor, cheio de boa vontade, qualificação e zelo profissional; uma maioria de os alunos cheios de informação mas cada vez mais com menos sentido comum; do outro uma minoria de alunos pautados pela vontade e determinação na aquisição e desenvolvimento de conhecimentos, novos conteúdos, que habilitem para responder a um futuro melhor, mais desenvolvido, mais solidário, mais justo. Mesmo com recurso à formulação metafórica, não é percetível quem está a desempenhar o papel que serve melhor a todos. Não há comunicação, apenas monólogos irritantes!

Assim, … a caravana (apenas) continuará a passar! E em vez de evocarmos que o tempo das vacas gordas já foi, deveríamos estar empenhados em engordar as escanzeladas!

(in Correio do Vouga, 2012.11.14)